"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2016-12-27

Viver a difícil liberdade



Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão,  de opinião,  sexual, afetiva ou financeira. Tudo respira liberdade e ai de quem a ela se opõe ou dá sinais de resistência.  Somos livres e pronto, é o grito de guerra quase que inconsciente! Não sei exatamente como refediniria Sartre, o filósofo,  quando disse que estamos condenados por sermos livres.

O paradoxo de nossa liberdade contemporânea é que, infelizmente, muitos não aceitam a forma do outro viver a tal liberdada defendida. O meu conceito de bom, de verdade e de felicidade não pode ser dogmatizado, mas expandido além da fronteira do diferente. Não prego o relativismo da verdade, porque ela continuará tendo sempre uma essência: o bem comum, o respeito, a justiça e o altruísmo. Estes valores são os pilares de uma autêntica liberdade.

Não entendo a violência em nome da liberdade. Não entendo a agressão ao outro simplesmente pela sua forma de ser e viver, ainda que isto se choque com o que chamamos de "nossa verdade, nossa liberdade". Quem não se deixa lapidar nas suas prisões de ideias e conceitos, padrões engessados de comportamentos e de relacionamentos jamais se encaixará no ambiente saudável de convívio social. O "outro diferente" lhe será sempre ameaça, o que se faz lamentável. Mas não percamos a coragem na luta pacífica pela liberdade sonhada e conquistada com tanto afinco. Desejemos, com todas as nossas forças,  viver a difícil liberdade de nossos dias.

Antonio Marcos

2016-12-26

Chegou Natal!


Esperado pelo coração o Natal chega, não como mais um ato a ser celebrado pelos que creem ou festejado pelos que trocam presentes, comem e bebem, mas como oportunidade para uma reflexão sobre a vida. Sim, a vida, porque Deus se fez "gente como a gente" para nos ensinar como viver esta vida de forma livre, não escrava, como assim decorria em seu tempo.

A vida do Menino Deus foi uma aposta do Deus que é Pai e que correu risco ao colocar a vida do seu filho nas mãos dos homens. Porém, Deus conduz a história e sabe fazer do seu desígnio sempre oportunidades para que os homens escolham a vida. Agradecemos a coragem de Maria e de José pela aposta que fizeram pelo Filho de Deus, ainda que não tivessem a exata noção do mistério que os envolviam.

Chegou o Natal mais uma vez, mas absolutamente este mistério nunca será mesmismo para quem aposta no bem, na fraternidade e na justiça. A força deste Menino está oculta, contemplada e desfrutada apenas pelos "fracos", porque o Natal não é poder e nem força, mas fraqueza de um Deus que nos escolheu como morada para nos ensinar a consquistar a morada eterna com a força do seu amor e de sua morada. Chegou o Natal!

Antonio Marcos

2016-07-15

Sobre os felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga. Achei o texto muito interessante e agora disponibilizo pra você, no desejo de que sejamos pessoas felizes. #boaleitura


Existem pessoas admiráveis andando em passos firmes sobre a face da Terra. Grandes homens, grandes mulheres, sujeitos exemplares que superam toda desesperança. Tenho a sorte de conhecer vários deles, de ter muitos como amigos e costumo observar suas ações com dedicada atenção. Tento compreender como conseguem levar a vida de maneira tão superior à maioria, busco onde está o mistério, tento ler seus gestos e aprendo muito com eles.

De tanto observar, consegui descobrir alguns pontos em comum entre todos e o que mais me impressiona é que são felizes. A felicidade, essa meta por vezes impossível, é parte deles, está intrínseco. Vivem um dia após o outro desfrutando de uma alegria genuína, leve, discreta, plantada na alma como uma árvore de raízes que força nenhuma consegue arrancar.

Dos felizes que conheço, nenhum leva uma vida perfeita. Não são famosos. Nenhum é milionário, alguns vivem com muito pouco, inclusive. Nenhum tem saúde impecável, ou uma família sem problemas. Todos enfrentam e enfrentaram dissabores de várias ordens. Mas continuam discretamente felizes.

O primeiro hábito que eles tem em comum é a generosidade. Mais que isso: eles tem prazer em ajudar, dividir, doar. Ajudam com um sorriso imenso no rosto, com desejo verdadeiro e sentem-se bem o suficiente para nunca relembrar ou cobrar o que foi feito e jamais pedir algo em troca.

Os felizes costumam oferecer ajuda antes que se peça. Ficam inquietos com a dor do outro, querem colaborar de alguma maneira. São sensíveis e identificam as necessidades alheias mesmo antes de receber qualquer pedido. Os felizes, sobretudo, doam o próprio tempo, suas horas de vida, às vezes dividem o que tem, mesmo quando é muito pouco.

Eu também observo os infelizes e já fiz a contraprova: eles costumam ser egoístas. Negam qualquer pequeno favor. Reagem com irritação ao mínimo pedido. Quando fazem, não perdem a oportunidade de relembrar, quase cobram medalhas e passam o recibo. Não gostam de ter a rotina perturbada por solicitações dos outros. Se fazem uma bondade qualquer, calculam o benefício próprio e seguem assim, infelizes. Cada vez mais.

O segundo hábito notável dos felizes é a capacidade de explodir de alegria com o êxito dos outros. Os felizes vibram tanto com o sorriso alheio que parece um contágio. Eles costumam dizer: estou tão contente como se fosse comigo. Talvez seja um segredo de felicidade, até porque os infelizes fazem o contrário. Tratam rapidamente de encontrar um defeito no júbilo do outro, ou de ignorar a boa nova que acabaram de ouvir. E seguem infelizes.

O terceiro hábito dos felizes é saber aceitar. Principalmente aceitar o outro, com todas as suas imperfeições. Sabem ouvir sem julgar. Sabem opinar sem diminuir e sabem a hora de calar. Sobretudo, sabem rir do jeito de ser de seus amigos. Sorrir é uma forma sublime de dizer: amo você e todas as suas pequenas loucuras.

Escrevo essa crônica, grata e emocionada, relembrando o rosto dos homens e mulheres sublimes que passaram e que estão na minha vida, entoando seus nomes com a devoção de quem reza. Ainda não sou um dos felizes, mas sigo tentando. Sigo buscando aprender com eles a acender a luz genuína e perene de alegria na alma. Sigamos os felizes, pois eles sabem o caminho.

Fonte: Jornal O Povo (Colunas) – Fortaleza, 15/09/2015.

2016-02-12

Quaresma: retorno para Deus!






Chega a Quaresma e na homilia (03/2 – Quarta-feira de Cinzas) o padre dizia: “A Quaresma é retorno. Seu sinônimo é volta para Deus”. E complementou: “Quaresma é retorno para a convivência fraterna, para a luz da fé, pra vida sacramental. Nada disso deve ser formalismo, nem farisaísmo, mas mergulho humilde na intimidade com Deus”.

Fiquei pensando nessas palavras e elas não me saíram da mente e do coração. Não sei a sua distância ou aproximação de Deus, como anda o seu coração, suas motivações, suas esperanças, sua alegria em ser de Deus e de servir a Deus. Eu só sei do que se passa comigo nesses aspectos e isso, eu diria, já é uma Quaresma, ou, já é fruto do desejo de viver a Quaresma. Olhar para si mesmo, bater no próprio peito e se reconhecer pecador e necessitado de retorno, ah, isso já é ação de Deus nesta quaresma.

Seu simbolismo e sua mensagem concreta vão além da dimensão mais pessoal e íntima, mas o  centro da quaresma é mesmo a volta para Deus. A meta é a Páscoa do Senhor, a atualização do mistério e da memória da nossa salvação. Portanto, resgatar a memória da nossa história, do que somos e do caminho a percorrer dentro da vontade de Deus são os maiores frutos da Quaresma como tempo de conversão. Esta conversão levará, consequentemente, ao compromisso com o outro, com os contextos nos quais estamos inseridos como missionários batizados, porém, isto só será possível se o nosso coração estiver em permanente retorno para Deus. Ele nos dê a sua graça. Feliz Quaresma!


Ant. Marcos

2016-01-31

Uma vida a dois...



Uma vida a dois não fica mais fácil e nem mais difícil em nossos dias, assim decorre o meu pensar. O fato é que o valor que damos a quem conosco partilha a própria vida exige amor, decisão, comprometimento, criatividade no cultivo, respeito e leveza consciente com os limites. Exige ainda a necessária percepção que possibilita refletir e criar diálogo, que deve gerar correção, acolhida e recomeço.


Num contexto oposto dizemos que nada justifica “matar por amor”. A violência é fruto da covardia e vazio, desespero e banalidade com a vida. O vínculo assediado, invadido e destruído é dor dilacerante, quase sempre irreconstituível, porque o amor exposto aos olhos da humilhação e da mentira já não consegue mais o aconchego da confiança. 


Não quero assim colocar a graça de Deus e o perdão numa caixa de fósforos, só quero dizer que há vidas irretornáveis, mas sempre dispostas a continuar a busca pela felicidade. Ninguém, absolutamente ninguém nasceu para sofrer, mas para ser feliz, apesar de todas as vicissitudes humanas. Que cada um construa a sua história de começos e recomeços corajosos!

Antonio Marcos