Beleza é fundamental?

Vitral quebrado da Catedral de Angelopolitana
 Vivemos na sociedade do espetáculo, e nela costumamos valorizar mais o que aparece do que o que realmente se é. Assim, identificamos e reduzimos a beleza a uma determinada estética corporal, baseada num padrão, num modelo ao qual se deve aspirar e consumir. A imposição desse modelo gera uma obsessão para quem nele deseja enquadrar-se, e uma fonte de lucros para quem o proporciona. Há um joguete de mercado, de consumo, subjacente a essa proposta de beleza. Os interesses não são da ordem da preocupação com o bem-estar e a felicidade da pessoa. A indústria da malhação, da dieta, dos cosméticos, das cirurgias plásticas, investe fundo, na ânsia humana de tornar-se desejável, por meio do visual.

São muitas as promessas que fazem, de eternização da juventude, notadamente para o corpo feminino. Nessa (des)medida do mercado, não somos nós que decidimos se somos belas, como seremos belas, mas as pessoas, aquelas que nos observam ou nos devoram com o olhar, ou o mercado, sempre de olho no lucro.

Para tornar-se “desejável” para atrair o olhar do outro desejante, investe-se muito, consome muito tempo e dinheiro. Consome, em larga escala, os produtos dessa indústria estética programada, pensada, que pode produzir efeitos interessantes, mas muitas vezes sem alma e até inconsequentes. Muitas pessoas anoréxicas e bulímicas são filhas de processos tirânicos do “tornar-se bonita”.

São, às vezes, projetos de beleza que atingem a saúde, fazem adoecer. Sem dúvida, há um gozo feminino no seduzir pelo corpo, como há um gozo masculino no olhar, no ver, no consumir a estética que um corpo revela. Há uma espécie de convergência nesse “gozo perverso” da mulher mostrar e do homem ver. Contudo, a verdadeira atração se dá quando a aparência estética revela a pessoa interior que se é; quando a beleza externa é uma confirmação da identidade interna, da experiência subjetiva de sentir-se belo.

Como outras dimensões do humano, a beleza não é algo meramente externo, colado ao real do corpo, inscrição, forma ou detalhe. A beleza reúne aspectos de fora e de dentro do sujeito. É conjunto, e é detalhe imperceptível. É visual, e é aura que se sobrepõe ao corpo. É algo que procede de um ponto, e trafega por interações relacionais. A estética que encanta, tem alma, não é casca, não é periferia, pedaço ou padrão. Ela reúne alma e corpo, na experiência do sentir-se bem consigo e diante do outro. Blaise de Pascal nos faz refletir: “Quem ama alguém por causa de sua beleza o amará? Não, pois a varíola, que matará a beleza sem matar a pessoa, fará que o deixe de amar... Portanto, nunca se ama ninguém, mas somente qualidades”.

Se construirmos uma beleza interna, o outro pode nos amar por essa porção indestrutível que transborda de nosso ser. Nessa dimensão, poderíamos começar também a viver a ventura de sermos homens e mulheres, ambos objetos consentidos do desejo e do prazer um do outro, numa reciprocidade de encantamentos e permissões, onde simplicidade, estética e ética fazem a alegria das relações.

Dra. Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga 

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Opinião), Domingo, 12 de julho de 2015.