Atenção pais e educadores, o assunto é suicídio!

Escrito Por Antonio Marcos na domingo, fevereiro 22, 2015 Sem Comentários
Considerações: Considerei importante publicar essa matéria sobre uma questão delicada, mas importante, que é o tema do suicídio entre os adolescentes e jovens, principalmente pela ação de alguns grupos na internet que fazem a apologia ao ato. Pais e Educadores precisam despertar para a questão. Aproveito e complemento o texto abaixo informando que a Igreja Católica, através dos órgãos competentes, mas também de grupos e pessoas comprometidas em ajudar os jovens e adultos, estão sempre disponíveis nas Paróquias, Comunidades e Movimentos para um serviço de orientação, mas imprescindivelmente deve ser inserida a ajuda de um profissional na área. Todos nós precisamos olhar de frente o desafio e apresentar luz no caminho dos que demonstram sinais de uma vida sem sentido ou mesmo desorientada pelos problemas e sofrimentos humanos. Que descubramos e vivenciemos o amor na oportunidade chamada hoje, antes que seja tarde demais.  

REPORTAGEM

“Recebi uma mensagem, no WhatsApp, dizendo que existiam alunos, de várias escolas, que falavam em suicídio”. A informação é compartilhada pela mãe de duas crianças (de nove e 11 anos) da Capital, que pediu para não ser identificada. A conversa é por telefone e condicionada ao sigilo. Em outra tentativa de abordagem do assunto que se propaga pelo aplicativo de troca de mensagens, uma segunda mãe sintetiza: “Estamos angustiadas porque não sabemos como falar sobre isso”.

O suicídio - terceira causa de morte de jovens (15 a 29 anos) no Brasil (atrás dos acidentes de trânsito e dos homicídios) - é um assunto silenciado. “Acho o suicídio um assunto brutal”, considera uma das mães ouvidas pelo O POVO. “Mas, ultimamente, me vejo na obrigação de antecipar assuntos que não são da idade deles”, equilibra.

O alerta sobre grupos virtuais que estariam incitando o suicídio de adolescentes, repassado com urgência e superficialidade via WhatsApp, instaura espaços para conversas necessárias, destemidas e permanentes. Dessas que perguntem e que compreendam, que olhem nos olhos e que abraçam.

SENTIMENTOS

É preciso conversar sobre suicídio com menos espanto e mais clareza. Especialistas desmitificam: tocar no tema não significa induzi-lo. “Vai depender de como a abordagem é feita”, une o psiquiatra Fábio Gomes de Matos e Souza, coordenador do Projeto de Apoio à Vida (Pravida, extensão da Universidade Federal do Ceará - UFC) e diretor regional da Associação  Brasileira de Psiquiatria.

Uma ajuda profissional é indispensável para alcançar os vazios emocionais, mas um primeiro passo pode ser dado tanto em casa como na escola. “A curiosidade sobre o tema vai existir, quer o pai ou a escola se posicionem, ou não. É melhor criar canais para que a pessoa possa ser ajudada. E tem que ser de imediato”, diz o psiquiatra.

Para começo de conversa, orienta, “é saber se o seu filho adolescente tem planos para o futuro”. Nesse sentido, você vai tatear caminhos que levam do pensamento ao coração. “É procurar ouvir: ‘Me fale sobre seus sentimentos em relação à vida’”, indica Fábio.

VÍNCULOS

Os especialistas auscultam, “individualmente, a história de vida” em busca do que o senso comum não consegue perceber, diz Caroline Bezerra Morais, estudante de Psicologia e integrante do Pravida. Mas há sinais visíveis na convivência. “A pessoa começa a se isolar mais”, exemplifica Caroline. Por isso, completa, é fundamental que pais, amigos, educadores se mantenham atentos “às mudanças de comportamento e não menosprezá-las”.

 O sofrimento, diferencia, é produzido na vida de alguém. Sentenças como “isso passa” ou “é coisa da idade” naturalizam o sofrimento e silenciam o que precisa ser dito. “Uma forma de prevenir o suicídio é deixar a pessoa falar (sobre o que sente)”, insiste Caroline.

Além dos pais, nesta conversa, a escola tem um papel transformador. “A escola tem obrigação ética de discutir isso e se omite. Os pais se omitem, as igrejas se omitem... É um assunto-tabu, infelizmente”, avalia o psiquiatra Fábio Gomes de Matos. “Existem determinados conteúdos que fazem parte da vida mas que, pelo tabu, não adentram a escola. Precisamos criar abordagens para começar a falar do assunto e oferecer alternativas para que pessoas possam ser ajudadas”, traça Erasmo Ruiz, professor do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará e especialista em Tanatologia.

“É importante que a escola crie espaços e ações onde os adolescentes possam perguntar e falar sobre o tema. A principal forma de prevenção é criando esses espaços. Palestras que esclareçam, mostrando dados, desmitificando questões, falando abertamente”, dialoga Caroline, que estuda casos de suicídio entre pré-adolescentes - um público “com 11, 12 anos” que tem inaugurado novas abordagens entre os especialistas. Histórico familiar, transtorno mental, uso de drogas, depressão e ausência de vínculos (com familiares, amigos e o próprio lugar) podem disparar o problema. Mas, até compreendê-lo, muitos porquês ainda são desconhecidos.

OUTRAS CONEXÕES

Mesmo a relação entre depressão e suicídio “é complexa”, pondera Erasmo Ruiz. “Tem uma famosa música do Renato Russo (“Pais e filhos”), que trata a questão do suicídio e diz: ‘Nada é fácil de entender’”. Entre vida e morte, existem nuances, profundamente, humanas e singulares. “Há uma dificuldade crescente de estabelecer significados para a própria existência”, atenta o psicólogo.

 É urgente restabelecer conexões que nos salvam. “Tenho que colocar um dia para estar com meu filho, vendo um filme, passeando. Os jovens estão carentes desse contato mais próximo. Podem até sinalizar que não precisam, mas, muitas vezes, a legenda é: ‘Quero ficar com você, quero ser importante na sua vida’. E os canais de diálogo podem ser estabelecidos. Outro conselho: subverta a agenda. Será que todo compromisso é, realmente, importante? E aqui me lembro de outra máxima do Renato Russo: ame as pessoas como se não houvesse amanhã”, sublinha Ruiz.

Os jovens estão carentes do contato mais próximo. Muitas vezes, a legenda é: ‘Quero ser importante na sua vida’ 

SAIBA MAIS

A Internet tem tornado mais insensível a relação com a morte, avalia o psiquiatra Fábio Gomes de Matos e Souza. Para ele, é preciso que se estabeleçam medidas que bloqueiem acessos a sites que induzam ao suicídio.

Pais e educadores, orientam os especialistas ouvidos pelo O POVO, precisam participar mais do universo virtual em que mergulham os adolescentes. Com respeito e diálogo. “A proibição tem que ser negociada, não pode ser imposta”, sugere Caroline Bezerra Morais.

Induzir, instigar ou auxiliar alguém a suicidar-se é crime com penas de reclusão, detalhadas no artigo 122 do Código Penal Brasileiro.

Também é de responsabilidade dos governos, nas três esferas de poder, elaborar políticas públicas que previnam o suicídio. A violência urbana tem causado medo e isolamento. E faltam locais que aglutinem os jovens “em projetos coletivos de busca de felicidade e de contentamento”, assinala o psicólogo Erasmo Ruiz. 

BUSQUE AJUDA

Pravida - projeto de extensão da UFC e que presta atendimentos individuais. Em março, o Pravida, como apoio do O POVO, oferece o VIII Curso de Prevenção ao Suicídio, aberto ao público. Informações: www.pravidaufc.webnode.com.br ou pelo telefone: 3366 8149.

Centro de Valorização da Vida (CVV) - voluntários oferecem apoio emocional. Contatos: www.cvv.org.br.


Fonte: Jornal O Povo, domingo 22/2 (DOM/Reportagem): Pais e Filhos – Como se não houvesse amanhã, Jornalista Ana Mary C. Cavalcante.