Abra espaços dentro de você

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, dezembro 20, 2014 Sem Comentários
Dra. Zenilce Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Festas. Luzes. Alegria. Troca de presentes. As pessoas já começaram a falar do Natal, o que suscita sempre movimentos na cidade e no interior das pessoas. Exaltam-se afetos, lembranças e consumismos. Campanhas solidárias sugerem que se partilhe o que se tem, com aqueles que têm menos, que têm fome de pão, afeto e segurança. Na minha preciosa tarefa de cuidar do outro, penso se há espaço para o Natal. Sinto uma necessidade de abertura de outros espaços para que de fato o Natal possa acontecer: dos sentimentos, das atitudes, das emoções, das ações. Imagino a revolução fantástica que faremos, se pudermos abrir espaços internos no mais dentro de cada um. Isso nos possibilitará dar maior expressão à amorosidade, à amizade, aos entrelaces humanos tão dificultados pelo apressado e violento conviver contemporâneo. Em meio do burburinho consumista, o Natal, que significa nascimento, exige que nasçam em nós, gestos de abertura. Gestos de olhar em volta, de afagar a realidade que nos cerca, para poder transformá-la.

Começamos a combinar os encontros, as confraternizações de fim de ano. Aproprio-me da expressão, “abra espaços dentro de você” para pensar um Natal de aberturas, que possa oxigenar conversações, atitudes, relações familiares, ações governamentais, os novos rumos do país. É preciso abrir espaços para uma tolerância maior nas relações, sem o que se mantém o estado de hostilidade e violência destrutiva, que tanto tem ferido a dignidade da vida e das pessoas. Um pouco de possível nos acordos humanos torna-se caminho de paz, clarão que permite ver a beleza do mundo. É preciso abrir espaços para o perdão. A mágoa, a raiva, fazem muito mal, são maléficos à própria pessoa que as retém e aos outros com quem convive. Perdoar é um gesto muito nobre, exige coragem e beleza interna de quem o faz. A cultura, em suas marcas de tola arrogância, não prestigia o perdoar, gesto tão construtivo do bem estar humano.

Sinto um enorme desejo de felicidade. É preciso abrir espaços para os sentimentos, e de fato (con)fraternizar, não apenas trocar presentes. Confraternizar é um ato de vontade de ser irmão, de fraternar, de acolher, de ser amigo. O presente que damos deve ser um recado ao outro, uma declaração de afeto por ele. Uma metáfora de bem querer. Sem isso, o Natal torna-se mero consumismo. É preciso abrir espaços para a paz, tirar o dedo do gatilho da impulsividade e desafiar a própria capacidade de conviver com o outro e com as situações difíceis. Não há vitória sem superação de si mesmo. A vida fica insuportável se não mantivermos o entusiasmo por alguma dimensão construtiva.

É preciso abrir espaços para o bem. Temos apetite para produzir o bem como para produzir o mal, cabe-nos direcioná-los. Há um quê de inesgotável na capacidade humana de promover a dor, a alegria e o bem estar. A gente é jardineiro quando não pode ser flor. É assim que o bem fica possível. Somos criaturas e não deuses, mas cabe-nos dar feitio ao mundo que queremos para nós, para nossos filhos, e para os outros. O que permanece e dura é apenas aquilo que tem razões para recomeçar. A vida pode e deve continuar sendo uma obra de arte, onde cada um de nos põe o melhor de si mesmo. Se eu fosse Papai Noel diria: Um Natal de abertura para todos!

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 23 de novembro de 2014. (Contato com a autora: zenilcebruno@uol.com.br).