2014-02-09

Quando o amor acontece

Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Outro dia escutei uma música de João Bosco que dizia... “O amor quando acontece a gente logo esquece que sofreu um dia”, e é verdade, como mudamos nossa forma pessimista de ver o amor assim que nos apaixonamos novamente, e já não lembramos que um dia proclamamos o fim para este sentimento. Por que isso acontece? Porque nascemos para amar e sermos felizes, simples não? Nem sempre, porque também aprendemos a complicar e encher-nos de sentimentos negativos contra nós mesmos e contra os outros, difícil não?

Tenho observado que os amores vão aumentando de intensidade na medida em que amadurecemos, parece que o acúmulo de experiências faz com que desejemos algo que nunca tivemos e quando acontece esse novo, temos a doce e bela ilusão que agora é especial e que esta sensação será para sempre. É neste momento que é possível ampliar nossa capacidade prazerosa e tornar o viver um ato de prazer, não importando em qual fase da vida estejamos. Ora estamos extasiados ante as fantásticas possibilidades da emoção, ora ficamos acuados ante a própria incompletude e a inevitável angústia com que a temporalidade nos confronta. A felicidade sexual é uma construção. Somos responsáveis por cada instante, por cada “agora” de que dispomos para tornar a vida preciosa, especial, significativa. Ninguém pode fazê-lo por nós. Temos todos responsabilidade sobre nossa própria felicidade, não importa em que idade, circunstância ou lugar estejamos. Não podemos aguardar que nos façam felizes.

Sou uma incansável defensora do amor e em cada tentativa enxergo a possibilidade de um relacionamento mais maduro, que vai dando-nos a certeza íntima do ser que interiormente somos e, assim, podemos nos relacionar com o outro. Somente aquele que possui o bastante para si mesmo pode se oferecer generosamente ao outro. Isso elimina de uma vez toda dependência patológica e toda confusão misturada com o amor. Então, a sexualidade eclode junto com as imagens profundas, com as vivências imateriais e com a liberdade das relações inteiras e globais. Não restam dúvidas de que o encontro amoroso, para ser verdadeiro, remete o ser humano ao outro na tentativa, porém, de uma revelação da própria alma.


Acredito que a sexualidade para ser considerada adulta, terá de ir amadurecendo na direção da partilha cada vez mais intensa, na reciprocidade de entregas possibilitadoras da experiência do individuo de ser ele mesmo, na capacidade de perder-se no outro para reencontrar-se depois acrescido, somado. Um tempo em que se descobre a necessidade de democratizar o prazer e as emoções, em que cada um cuida da própria felicidade, mas presta atenção à felicidade do outro, porque agora, ser feliz é também saber que o outro está feliz nessa parceria.

Quando as pessoas de fato estão adultas, maduras, não apenas se colocam à disposição, ao serviço do prazer do outro de um modo submisso, mas buscam e querem para si uma partilha generosa e igualitária. Partilha do corpo e do espírito de ambos, democraticamente, porque segundo A. Távola “O amor é um exercício de felicidade, não de poder”.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 09 de fevereiro de 2014.

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