"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2014-12-22

Uma casa para Deus

Na Liturgia da Palavra do 4º Domingo do Advento (Ano B) tivemos a oportunidade de refletir o diálogo de Davi com o profeta Natã (cf. 2Sm 1-5.8), quando lhe revela sua preocupação com a Arca de Deus que habitava numa tenda, enquanto Davi residia num palácio de cedro.  No que Deus responde, como se tivesse ficado bravo, que todas as ações grandiosas na vida de Davi partiram da sua iniciativa. Deus quer uma casa para o seu povo e há de construí-la no tempo certo. Não serão das mãos de Davi, mas do seu filho Salomão que sairá o Templo do Senhor.

Aqui está escondida e revelada a intenção de Deus para com o mistério da nossa salvação. É chegado o tempo em que o amor será garantido para sempre numa aliança eterna e indissolúvel. Deus feito homem, o Filho encarnado, é esta a Aliança eterna, a verdadeira Casa de Deus, na qual todos são chamados a adentrarem e nela residirem. O Apóstolo Paulo revela que “o mistério foi levado ao conhecimento de todas as nações para trazê-las à obediência da fé” (cf. Rm 16, 25-27).

As casas que construímos, as promessas que fazemos e os propósitos que elaboramos, tudo parece tão frágil, assim como tão frágil é também o nosso amor. O novo projeto de Deus implica em viver no Espírito Santo, acolher a sua graça e sua força, deixar-se transformar por Ele. Maria de Nazaré foi um alvo da erupção desta força, deste novo amor que torna o impossível possível, como bem vimos no Evangelho (cf. Lc 1,26-38). Mas tudo requer resposta corajosa, acolhimento, decisão: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”. Abramos o coração, apesar de tudo o que o impede, e deixemo-nos alcançar pela visita de Deus. Uma nova vida, uma verdadeira casa de Deus o Espírito Santo quer construir dentro de nós. Assim seja.

Ant. Marcos

2014-12-20

Abra espaços dentro de você

Dra. Zenilce Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Festas. Luzes. Alegria. Troca de presentes. As pessoas já começaram a falar do Natal, o que suscita sempre movimentos na cidade e no interior das pessoas. Exaltam-se afetos, lembranças e consumismos. Campanhas solidárias sugerem que se partilhe o que se tem, com aqueles que têm menos, que têm fome de pão, afeto e segurança. Na minha preciosa tarefa de cuidar do outro, penso se há espaço para o Natal. Sinto uma necessidade de abertura de outros espaços para que de fato o Natal possa acontecer: dos sentimentos, das atitudes, das emoções, das ações. Imagino a revolução fantástica que faremos, se pudermos abrir espaços internos no mais dentro de cada um. Isso nos possibilitará dar maior expressão à amorosidade, à amizade, aos entrelaces humanos tão dificultados pelo apressado e violento conviver contemporâneo. Em meio do burburinho consumista, o Natal, que significa nascimento, exige que nasçam em nós, gestos de abertura. Gestos de olhar em volta, de afagar a realidade que nos cerca, para poder transformá-la.

Começamos a combinar os encontros, as confraternizações de fim de ano. Aproprio-me da expressão, “abra espaços dentro de você” para pensar um Natal de aberturas, que possa oxigenar conversações, atitudes, relações familiares, ações governamentais, os novos rumos do país. É preciso abrir espaços para uma tolerância maior nas relações, sem o que se mantém o estado de hostilidade e violência destrutiva, que tanto tem ferido a dignidade da vida e das pessoas. Um pouco de possível nos acordos humanos torna-se caminho de paz, clarão que permite ver a beleza do mundo. É preciso abrir espaços para o perdão. A mágoa, a raiva, fazem muito mal, são maléficos à própria pessoa que as retém e aos outros com quem convive. Perdoar é um gesto muito nobre, exige coragem e beleza interna de quem o faz. A cultura, em suas marcas de tola arrogância, não prestigia o perdoar, gesto tão construtivo do bem estar humano.

Sinto um enorme desejo de felicidade. É preciso abrir espaços para os sentimentos, e de fato (con)fraternizar, não apenas trocar presentes. Confraternizar é um ato de vontade de ser irmão, de fraternar, de acolher, de ser amigo. O presente que damos deve ser um recado ao outro, uma declaração de afeto por ele. Uma metáfora de bem querer. Sem isso, o Natal torna-se mero consumismo. É preciso abrir espaços para a paz, tirar o dedo do gatilho da impulsividade e desafiar a própria capacidade de conviver com o outro e com as situações difíceis. Não há vitória sem superação de si mesmo. A vida fica insuportável se não mantivermos o entusiasmo por alguma dimensão construtiva.

É preciso abrir espaços para o bem. Temos apetite para produzir o bem como para produzir o mal, cabe-nos direcioná-los. Há um quê de inesgotável na capacidade humana de promover a dor, a alegria e o bem estar. A gente é jardineiro quando não pode ser flor. É assim que o bem fica possível. Somos criaturas e não deuses, mas cabe-nos dar feitio ao mundo que queremos para nós, para nossos filhos, e para os outros. O que permanece e dura é apenas aquilo que tem razões para recomeçar. A vida pode e deve continuar sendo uma obra de arte, onde cada um de nos põe o melhor de si mesmo. Se eu fosse Papai Noel diria: Um Natal de abertura para todos!

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 23 de novembro de 2014. (Contato com a autora: zenilcebruno@uol.com.br).

2014-09-22

“Não nos cansemos de fazer o bem; quando chegar o tempo, colheremos”


Uma reflexão sobre a CARTA AOS GÁLATAS: D. Geral do Magella Agnelo, Cardeal Arcebispo Emérito de São Salvador da Bahia

A Carta aos Gálatas foi escrita quando Paulo se encontrava em Éfeso, provavelmente em 56-57 d.C. Nela dois temas se destacam: a liberdade cristã e a universalidade da Igreja. Naquela cidade Paulo soube que estava sendo alvo de críticas e restrições, assim como a doutrina que vinha expondo. A crítica maior incidia sobre a necessidade de circuncisão para os judeus convertidos ao Cristianismo.

Inicia a carta aborrecido, porque pessoas estranhas estão fazendo confusão com os ensinamentos que ele espalhara entre os gálatas. Em estilo repreensão, afirma que o cristianismo não é como a prática judaica engessada pelo legalismo: “Maldito seja quem anunciar um evangelho diferente daquele que vocês receberam. Por acaso é a aprovação dos homens que estou procurando ou a aprovação de Deus?” (1,9-10). Adiante ele reage: “Irmãos, eu declaro a vocês: o evangelho por mim anunciado não é invenção humana. E, além disso, não o recebi nem aprendi através de um homem, mas por revelação de Jesus Cristo”. Fala da polêmica que houve entre ele e Pedro por causa da circuncisão e conclui o trecho, ressaltando a unidade da Igreja e a liberdade cristã. Foi Gálatas 5.1 que inspirou o tema da CF-2014: “É  para a liberdade que Cristo nos libertou. Paulo aponta o objetivo da liberdade: “Irmãos, vocês foram chamados para serem livres. Que essa liberdade, porém, não se torne desculpas para vocês viverem satisfazendo os instintos egoístas. Pelo contrário, coloquem-se a serviço uns dos outros, através do amor” (5,15).

Em Gl 4,4-5, refere-se ao dom que nos foi dado por meio de Jesus Cristo e que teve como consequência a filiação divina. “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher, submetido à Lei para resgatar aqueles que estavam submetidos à Lei, a fim de que fôssemos adotados como filhos”.

Muito ainda teríamos a dizer sobre Gálatas. O espaço é limitado. Concluamos com este pensamento magnífico: “Não nos cansemos de fazer o bem: quando chegar o tempo, colheremos” (6,9).

Fonte: Liturgia Diária, Paulus, outubro de 2014.

2014-07-18

Dia Internacional de Nelson Mandela - 18 de julho

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da pele, origem ou religião dela. As pessoas certamente aprendem a odiar. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar já que o amor surge de forma mais natural no coração das pessoas. O que realmente conta na vida não é apenas o fato de termos vivido; é a diferença que fizemos nas vidas dos outros que determina importância da nossa própria vida. A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo. Porque ser livre não é somente romper as correntes que aprisionam alguém, mas viver de forma a respeitar e ampliar a liberdade dos outros. A maior glória na vida não é nunca cair, mas se levantar depois de cada queda”.

(Texto de Nelson Mandela – 18 de julho, Dia Internacional dedicado a
este homem, símbolo da luta pelos direitos humanos,
da paz e da reconciliação – Homenagem do Google.)

Dia Internacional de Nelson Mandela - As Nações Unidas determinaram a comemoração do Dia de Nelson Mandela em 2010. A efeméride desta sexta-feira coincide com a data de aniversário do Prêmio Nobel da Paz. O estadista empenhado na luta pelos Direitos Humanos e contra o regime do apartheid na África do Sul. Nelson Mandela nasceu a 18 de julho de 1918. Morreu em dezembro do ano passado (Fonte: RTP Notícias)

2014-04-27

João XXIII e João Paulo II: mais forte, neles, era Deus


Papa Francisco: Homilia da canonização dos beatos João Paulo II e João XXIII
Praça São Pedro – Vaticano, Domingo, 27 de abril de 2014

No centro deste domingo, que encerra a Oitava de Páscoa e que João Paulo II quis dedicar à Misericórdia Divina, encontramos as chagas gloriosas de Jesus ressuscitado.

Já as mostrara quando apareceu pela primeira vez aos Apóstolos, ao anoitecer do dia depois do sábado, o dia da Ressurreição. Mas, naquela noite, Tomé não estava; e quando os outros lhe disseram que tinham visto o Senhor, respondeu que, se não visse e tocasse aquelas feridas, não acreditaria. Oito dias depois, Jesus apareceu de novo no meio dos discípulos, no Cenáculo, encontrando-se presente também Tomé; dirigindo-Se a ele, convidou-o a tocar as suas chagas. E então aquele homem sincero, aquele homem habituado a verificar tudo pessoalmente, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28).

Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé, são também a verificação da fé. Por isso, no corpo de Cristo ressuscitado, as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade. Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: «pelas suas chagas, fostes curados» (1 Ped 2, 24; cf. Is 53, 5).

João XXIII e João Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado trespassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão (cf. Is 58, 7), porque em cada pessoa atribulada viam Jesus. Foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo, e deram testemunho da bondade de Deus, da sua misericórdia, à Igreja e ao mundo.

Foram sacerdotes, bispos e papas do século XX. Conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas. Mais forte, neles, era Deus; mais forte era a fé em Jesus Cristo, Redentor do homem e Senhor da história; mais forte, neles, era a misericórdia de Deus que se manifesta nestas cinco chagas; mais forte era a proximidade materna de Maria.

Nestes dois homens contemplativos das chagas de Cristo e testemunhas da sua misericórdia, habitava «uma esperança viva», juntamente com «uma alegria indescritível e irradiante» (1 Ped 1, 3.8). A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. Estas são a esperança e a alegria que os dois santos Papas receberam como dom do Senhor ressuscitado, tendo-as, por sua vez, doado em abundância ao Povo de Deus, recebendo sua eterna gratidão.

Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém, de que nos falam os Atos dos Apóstolos (cf. 2, 42-47). É uma comunidade onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade.

E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano II teve diante de si. João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e atualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos. Não esqueçamos que são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja. Na convocação do Concílio, João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado. Este foi o seu grande serviço à Igreja; foi o Papa da docilidade ao Espírito.

Neste serviço ao Povo de Deus, João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família. Apraz-me sublinhá-lo no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a família e com as famílias, um caminho que ele seguramente acompanha e sustenta do Céu.

Que estes dois novos santos Pastores do Povo de Deus intercedam pela Igreja para que, durante estes dois anos de caminho sinodal, seja dócil ao Espírito Santo no serviço pastoral à família. Que ambos nos ensinem a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama.

Fonte: Boletim da Santa Sé (Rádio Vaticano).



2014-04-21

Uma vida ressuscitada: eis a Páscoa de que o mundo precisa!

Estando a refletir o mistério da Ressurreição de Jesus, da sua Páscoa gloriosa, da sua vitória sobre a morte e o pecado, sentido da nossa vida e razão da nossa fé, debrucei-me sobre as Sagradas Escrituras, especialmente sobre o Evangelho do Domingo de Páscoa, Livro de João 20, 1-9, e desse texto me veio uma pequena compreensão que aqui partilho.

O texto fala que Maria Madalena, no primeiro dia da semana, quando ainda estava escuro, foi ao túmulo de Jesus e percebeu que haviam retirado o corpo. Ela então retorna depressa e relata o fato ao apóstolo Pedro e ao discípulo que Jesus amava: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram” (Vers. 2). O primeiro impacto da pedra removida e da ausência do corpo para Maria Madalena não foi a certeza da ressurreição, mas o constrangimento de não encontrar o falecido no seu sepulcro, o que é assustador e, é claro, quando se trata de uma pessoa querida há motivos maiores para tristeza e indignação.

O evangelho relata que o discípulo amado chegou primeiro, mas só entrou no sepulcro depois de Pedro que, uma vez tendo constatado que o corpo de Jesus não se encontrava mais lá, acreditou. E conclui o evangelho: “De fato, eles não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (Vers. 9). Os fatos bíblicos não são frutos do acaso, não são ações sem sentido, desencontradas, mas estão dentro de uma conexão de inspiração e da condução do Espírito Santo para fazer cumprir o desígnio de Deus. As Escrituras Sagradas são o centro do que realmente Deus reserva para nós, ainda que os fatos sejam embaraçosos e que a nossa compreensão do texto sagrado seja tão limitada, porém, precisamos nos aproximar do texto bíblico com fé, disposição para acolher e compromisso em anunciar.

Os contextos atuais na sociedade em geral, como na nossa família, nos nossos grupos de convivência e na nossa própria vida refletem, muitas vezes, essa obstinação pelo “ver para crer”. Os discípulos cresceram na experiência com Deus e na fé. Foram aos poucos largando suas certezas humanas e se deixando conduzir pela providência divina. Só o Espírito Santo pode descortinar diante dos nossos olhos a realidade da ressurreição de Jesus, da sua vitória sobre toda e qualquer forma de morte e nos revelar o plano de felicidade que Deus reservou para nós a partir da recriação que a fé e acolhida à ressurreição proporcionam em nós. Enquanto a vida de Jesus não impactar nossas consciência e o profundo do nosso ser ficaremos sempre dependendo do que os outros pensam e falam.

A ressurreição de Jesus é o grande choque de amor numa vida crente. Impossível pensar uma continuidade de vida sem esta realidade. Porém, há sempre aqueles que nos ajudam a ir outra vez ao túmulo e constatar que de fato Jesus não mais se encontra entre os mortos. Quero dizer que há verdades de fé das quais jamais podemos nos desfazer, mas isso não significa que elas não sejam provadas. O mundo frio e descrente no qual nos encontramos duvida amargamente que por trás da fé cristã exista uma razão de felicidade e sentido. No entanto, este mesmo mundo tem necessidade do testemunho de “vidas ressuscitadas”. Todos nós um dia fomos ao Sepulcro de Jesus e lá, pessoalmente e em comunidade, a nossa mente e o nosso entendimento se abriram. Foi esta a experiência de Madalena que também compreendeu com os discípulos que Jesus havia ressuscitado. Porém, o anúncio de Madalena foi fundamental para Pedro e João. 

Não precisamos ter medo das realidades temporais, muito menos das provas ou dos tempos de secura e até mesmo de nossas perdas, pois tudo tem um propósito se assim nos deixarmos guiar pela ação do Espírito Santo. Ele torna a Palavra de Deus atual e operante em nós para que não guardemos conosco, mas a anunciemos por meio de uma vida ressuscitada. Aqui está o segredo de tudo o que celebramos nesses dias: a Páscoa é uma realidade na minha vida porque Jesus ressuscitou em mim. Vamos levar isso aos outros e juntos compreenderemos melhor o sentido da Páscoa.

Ant. Marcos


2014-04-19

Deus quer nos salvar sempre!

A Sexta-feira Santa já passou, hoje vivemos o Sábado Santo, último dia do Tríduo Pascal, dia de espera e silêncio na terra, mas dia de encontro de Jesus vivo com os nossos primeiros pais, na Mansão dos Mortos. Cristo desce para buscar os justos. Logo mais à noite viveremos com a Comunidade de fé a grande Vigília de Páscoa, a mãe de todas as vigílias, já celebrando a Ressurreição do Senhor.

Pois bem, mesmo vivendo a graça deste dia, quero aqui ainda partilhar algo que Deus colocou no meu coração durante a celebração da Paixão do Senhor e da Adoração de Cristo na Cruz. Trata-se do “ato de querer”, da ação da vontade humana diante de nossas escolhas pelo que é reto, e que, evidentemente, requer a participação da sã consciência e do dom da liberdade.

Tive a oportunidade de meditar no ato da vontade do Pai em querer enviar o Seu Filho e a Sua resposta generosa como expressão da comunhão de vontades na Santíssima Trindade. Comunhão esta nunca contrariada, pois disse Jesu: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30); E disse a Filipe: “Quem me vê, vê o Pai. Crede: eu estou no Pai e o pai em mim” (cf. Jo 14, 9-11).

Dois personagens centrais do Mistério da Paixão de Jesus nos ajudam a meditar sobre como o ato da vontade humana pode ser iluminado pela verdade e ofuscado por nossos enganos e paixões. De um lado a figura de Judas que “quis” entregar Jesus aos soldados romanos acreditando apenas nas suas boas intenções. Sua capacidade de crer e de compreender o outro estava manchada pela sua não abertura à verdade que vem de Deus. Do outro lado temos a pessoa de Maria, Mãe de Jesus, quando quis acompanhar a via sacra do Filho e com Ele permaneceu diante da cruz, presenciando aquele horror. Maria, no entanto, exerceu o “ato de querer” permanecer presente e em silêncio, com o coração cheio de dor, mas também cheio de fé e esperança.

E chegamos ao centro de nossa meditação do ato da vontade humana em Jesus em perfeita harmonia com a vontade divina, porém, isso não ofuscou a reação da natureza humana em Jesus de reclamar ao Pai sobre o seu “ato divino de querer” aquela oferta: “Pai, por que me abandonaste? (Mt 27, 46). Mas logo manifesta a comunhão de vontade: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Uma só vontade de amor, uma só comunhão, um ato de querer iluminado pelo amor e pela verdade.

Queridos amigos e amigas, concluo esta meditação crente que Deus nos salvou definitivamente em Jesus quando quis fazer a vontade do Pai e foi fiel a ela, mas continua a querer nos salvar, sobretudo desta “vontade doentia” que vivemos e presenciamos em muitos ao nosso redor. Precisamos do exercício da vontade humana iluminado pela fé e movido pela graça de Deus. Somente a graça pode nos mostrar a verdadeira realidade do Mistério da nossa salvação e fazer das nossas escolhas sinais e frutos desta redenção.

“Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43), disse Jesus a um dos ladrões que estavam ao seu lado. Hoje é o dia da salvação, o dia de retornar para Deus, como expressou o jovem Agostinho de Hipona quando fora visitado pela ação da Palavra de Deus. Que a graça da entrega de Jesus, do seu ato de querer fazer a vontade de Deus, inteiramente movido pela força do Espírito Santo, ajude-nos nas nossas decisões por uma vida redimida. Que a espera vivida neste Sábado Santo seja também um sinal da nossa decisão e confiança no amor fiel de Deus por nós. 

Ant. Marcos

2014-04-18

Semana Santa: experiência de vida nova

Razões demais teria para falar dos pontos negativos quando se trata de como – em grande parte do Brasil e do mundo – se vive hoje a Semana Santa, e me refiro, é claro, a nós cristãos católicos. No entanto, prefiro brevemente falar daqueles gestos de vida e celebração que ainda vemos e que nos tocam a vida profundamente, onde quer que estejamos ou celebremos.

Particularmente testemunho o quão é bom estar perto e vivenciar o Mistério da nossa Salvação, atualizado cada ano pelo Tríduo Pascal e pela Ressurreição de Jesus, a Páscoa das Páscoas. Estar junto da comunidade de fé, seja ela qual for, faz-se oportunidade de também sermos renovados e transformados, revigorados para continuarmos a nossa missão de batizados: missão de cruz e ressurreição.

O que celebramos nestes dias é mais que memória como efeito de lembrança, mas atualização da oferta de Deus, mediante a vida do Filho, pela nossa salvação. Tudo só pode ser explicado pelo amor: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, diz o evangelista João (cf. 13,1). Só o amor torna a vida uma oblação. Só o amor é capaz de se ofertar generosamente pelo próximo, pela causa do bem. Só o amor transforma a  cruz em mistério de salvação.

Os católicos que lutam para evitar todo esfriamento na vivência do Mistério da Páscoa do Senhor sabem que deixar-se atingir pela graça da Semana Santa nos faz dar um salto sobre todas as formas de mortes que enfrentamos. Somente a fé nos faz tocar o lado aberto de Jesus e reconhecer que esta nuvem que encobre muitas consciências não é a verdade dos fatos. Deus tem um propósito quando faz da sua permissão amorosa um desígnio de salvação.

A sexta-feira santa, de forma especial, parece-me a fenda para a qual todos devemos olhar e penetrar. “O lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”, como reza a liturgia neste dia, é o lenho que recebe a nossa vida, nossas dores, fracassos e infidelidades. O sangue que banhou este lenho é o que redime a nossa vida e a torna Páscoa, obra nova. Portanto, amigos e amigas de fé, tudo só faz sentido junto da comunidade de fé. Vamos nos aproximar e adorar o Mistério, vamos ao encontro desta unidade e assim sinalizar a nós mesmos e aos distantes que a Semana Santa é, por excelência, experiência de vida nova.

Ant. Marcos

.

2014-03-23

Temos sede, Senhor!

Há uma sede visível e gritante nos nossos dias, de forma especial. Não simplesmente "uma sede de água", mas uma sede de sentido, de rumo, de vocação, de descoberta de si mesmo, descoberta da missão pessoal, da identidade como pessoa, como filho de Deus e cidadão do céu. 

O contexto do deserto se repete em muitas vidas, talvez na minha, talvez na sua: onde estão as promessas? Será que morremos aqui? E surgem outros sentimentos: desespero, murmuração, contestação... Está tudo errado com os outros, com o mundo, comigo mesmo. As dificuldades do caminho, elas nunca desaparecem, pois são provas que podem se tornar em degraus. 

A luta interior, quem não passou ou há de passar? E, também visível, mais do que nunca, é a sede de justiça, de paz, de solidariedade, de tolerância, de amor pela qual passa a humanidade. Tudo nos pede oração e ação: Senhor, dá-nos de beber. Dá-nos a água capaz de gerar sentido e salvação. Dá-nos a água da transformação e da missão. Temos sede do encontro verdadeiro com o Deus de Jesus Cristo. 

Ant. Marcos 

Ir. Cristina trouxe um pouco de “redenção”...

Não consideremos que agora vale tudo pela evangelização, ignorando o bom senso e o discernimento, claro que não. A evangelização continua pedindo prudência, mas sem jamais intimidar a ousadia, a criatividade e a confiança em Deus que nos envia e nos capacita. O Espírito Santo é o artífice de toda e qualquer ação em prol do Evangelho. 

Uma questão curiosa me chama a atenção com a apresentação da Ir. Cristina no The Voice, versão italiana. É o fato de sua atitude não ter sido muito diferente de alguns padres e irmãs aqui no Brasil, nem preciso citar nomes. Uns mais de acordo com os fiéis, outros menos aceitáveis, faz parte. O fato é que eu percebo que as coisas mudaram muito, graças a Deus. Eu mesmo presenciei durante os anos de vida missionária alguns irmãos que simplesmente ignoravam os membros de outras religiões e, o pior, eram profundamente céticos e críticos da evangelização por parte de alguns em certos ambientes da mídia secular.

Os tempos estão mudando, ou melhor, a consciência, e isto é mesmo maravilhoso. De certa forma o que acontece no mundo midiático (ou não), como a apresentação da Ir. Cristina, infelizmente ainda choca muita gente que se esconde na “caricatura de santo”, mas que não passam de puritanos, de religiosos do próprio umbigo, do culto às próprias ideias arcaicas, descontextualizadas e não transformadas pelo Evangelho. A Igreja continua sensata, reconhecedora e respeitadora do seu limite, consciente da sua missão no mundo secular, mas cada vez mais cheia de Parresia.

Evidentemente, não preciso falar do papa Francisco. Para o “desespero de muitos” é bem provável mesmo que o Papa ligue para a Ir. Cristina e lhe parabenize pela coragem de colocar – criativamente e profeticamente – os dons que recebeu do Senhor numa evangelização diferente, exatamente como o mundo precisa. Como diz o velho e sábio Pe. Zezinho: "Muita gente não sabe as virtudes e os dons que têm". E ainda existem aqueles que sabem desses dons e se deixam intimidar, não os colocam a serviço: cantar, dançar, falar, escrever, pintar, ser presença, sorrir..., tudo deve ser colocado em prol do anúncio do Evangelho.

A ação evangelizadora da Ir. Cristina, The Voice italiano, vem, de certa forma, trazer um pouco de redenção aos que foram até hoje acusados de banalizar a missão da evangelização. Confesso que o vídeo e a repercussão me deixaram inquieto e desejoso de também continuar a dar de graça tudo o que recebi do Senhor. Que a sua graça no ajude a vencer todo medo e omissão. Assim seja.

Ant. Marcos


2014-03-08

Minhas orações às Mulheres

Neste dia especial, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, nossas intenções de oração estejam, de forma especial, voltadas às Mulheres. Certamente somos todos testemunhas da força e da fecundidade da vida e missão de uma mulher feliz, que se deixa cada dia moldar pelos valores que enobrecem, pelo Bem e pelo Bom. Creio que a família e a humanidade em geral precisam outra vez fazer a experiência da ternura de Deus, tão viva e eficaz na expressão da vida feminina. Num mundo de grandes contrastes, de tanta desvalorização da mulher, de contextos que violentam a identidade e a missão da mulher, faz-se necessário o empenho de todos, sobretudo de nós, homens, para que as mulheres se configurem ao coração de Deus e assim estejam sempre focadas na grande missão lhes confiada pela providência divina na humanização do homem e deste mundo, como nos falou um dia o Beato João Paulo II, papa. Que a Virgem Maria, mulher exemplo na vivência das virtudes cristãs, interceda sempre. O homem e a mulher são dons de Deus, são parceiros na construção de si e do outro, da sociedade e da humanidade. Minhas orações às Mulheres, minha gratidão a tantos testemunhos, exemplos de vida digna, virtuosa, santa e heroica de tantas mulheres, e tantas vezes em meio a lágrimas e desafios. Minhas intenções na esperança de que vocês nunca desistam de perseguir o amor e a verdade, o serviço, a ternura e a caridade de Deus. Parabéns!

Ant. Marcos


2014-03-05

Quarta-feira de Cinzas: “Vivendo num país de falsos-selves” – Uma reflexão.

Texto de FLÁVIO PAIVA

Primeiro dia após o Carnaval, a quarta-feira de cinzas é um bom momento para pensarmos em questões da nossa essência. As cinzas, na tradição cristã, compõem uma mensagem de que “do pó viemos e ao pó voltaremos”. Somos nada e somos tudo. Por isso mesmo, forçar o que sobrou da fantasia ou do retiro do feriadão é cair na armadilha da saudade do que passou, enquanto há um ir para frente que pede passos seguintes.

Particularmente, tenho andado com uma certa dificuldade de aceitar relações com personalidades artificiais. Prezo demais o valor da palavra e do respeito ao combinado para me submeter aos caprichos do falso-self. Tenho a esperança de que muita gente também pense assim. Não me sinto só. Apenas fico indignado quando deparo com situações de falta de compromisso estandardizadas em pessoas perdidas nos labirintos da falsidade e do narcisismo.

Quando isso acontece, fico a me perguntar quem são essas pessoas de mentira, que se acham poderosas simplesmente porque são capazes de aplicar golpes baixos nos outros. Dá para notar que são pessoas que sempre aparecem esbanjando incapacidade de serem elas mesmas em deformações de criatividade, imaturidade para a independência e desejos de se afirmarem por algum tipo de autorrepresentação.

Por não acreditarem em si, escondem o que poderiam ser e não se enxergam. Se não dá para saber o que buscar, fica difícil pensar em para quê. Eis o mantra da quarta-feira de cinzas. Passado o Carnaval, não se chega a um caminho contrário. A inversão da festa não tira a qualidade do que temos a fazer. Não existe ressaca que nos impeça de nos apresentarmos como realmente somos, mostrando a cara, assumindo nosso jeito de viver, integrando experiências e descobrindo o que tendemos a ocultar.

À frente dos nossos impulsos individuais e coletivos, como espécie humana e como indivíduos transcendentais, tudo pode até parecer igualmente aniquilado e despedaçado, mas o que vale é não perdermos a potencialidade de ser alguém. Nessa situação, não temos o direito de ceder espaço aos mecanismos de defesa próprios das pseudo constituições das pessoas que falam da boca para fora, com o intuito de agradar à própria ausência.

Não podemos desanimar nem perder a coragem de ser diante da ameaça invasiva do não-ser. Em “Vivendo num país de falsos-selves” (Casa do Psicólogo, SP, 2003), o psicanalista pernambucano Júlio de Mello Filho aborda aspectos da realidade sócio-política-cultural à luz do tema do falso-self descrito por Donald W. Winnicott (1896 – 1971). Para o pensador inglês, o falso-self é aquele indivíduo que tem a tendência de sempre se adaptar ao ambiente e de exibir uma falsa existência, de poucos valores e plena de futilidades.

Entendo que a quarta-feira depois da folia ou do descanso não é dia de reparação, já que a vida continua em sua rotina nem mais nem menos verdadeira. Mello Filho diz que “o sucesso profissional é o campo privilegiado do falso-self (...) a realização pessoal fica para trás. E há uma ciranda das profissões, as do momento, as que não têm um lugar no mercado e na mídia” (p. 175). Assim, passado o feriado, em muitos fica a sensação de experiência irrecuperável.

No Brasil temos um sério problema de cultura do falso-self em idealizações consumistas travadoras do fluir das possibilidades de sermos o que gostaríamos de ser enquanto comunidade de destino, e não apenas o que somos na larga utilização de processos de imitação e hipertrofia das intervenções de uma realidade sempre exterior.

O caso dos jovens que compram aparelhos de dentes de camelôs, com a finalidade de se sentirem sorrindo com o riso dos que podem pagar um tratamento de ortodontia, é emblemático na tradução do que significa uma sociedade ascender ao mundo do consumo, sem, no entanto, ter a oportunidade de acesso à cultura que não a do sistema de entretenimento e de promoção da felicidade nos objetos.

Antes do carnaval, rolou uma polêmica com relação às camisetas de duplo sentido lançadas pela Adidas para a Copa do Mundo 2014, realizada pela Fifa no Brasil. As blusas sugerem amor ao Brasil com, digamos, inspiração sexual. A camiseta com a estampa “I loveBrazil” (Amo o Brasil) traz um coração verde e amarelo em forma de bunda com biquíni fio dental. Em outro modelo, a imagem de uma moça de biquíni em frente ao morro do Pão de Açúcar abre os braços para receber a frase: “Lookin’to score” (em busca de fazer gols), em uma insinuação barata de “cópula”, e não de copa.

É realmente lamentável ver um país com a diversidade cultural e natural do Brasil ser resumido a estereótipos como esse do apelo sexual. Mas não dá para culpar o olhar estrangeiro por isso. A própria ministra da cultura, Marta Suplicy, ficou conhecida na sua passagem pelo Ministério do Turismo (2007) pela célebre frase “relaxa e goza”, pronunciada como sugestão do que se deveria dizer aos turistas de outros países diante das dificuldades dos nossos aeroportos. Fica difícil de ser respeitado quando tratamos as coisas assim. Não nos damos respeito e queremos ser respeitados.

Fonte: Jornal O Povo (Jornal de Hoje / Vida e Arte), Fortaleza, 5 de março de 2014.




Quaresma 2014: Mensagem do Papa Francisco


Confira a Mensagem do Papa Francisco para a QUARESMA 2014:   http://migre.me/i9FM6 

2014-03-04

CF 2014: A precarização do trabalho e o tráfico humano

Pe. Luiz Carlos Dias, Secretário-executivo da CF

Nas sociedades sob o regime de economia de mercado, a competição e a obsessiva busca por lucros geram injustiças que excluem a maioria do acesso aos bens produzidos e a relegam à marginalização, sem o mínimo para uma vida saudável. Na raiz dos grandes lucros encontram-se situações de exploração de pessoas. O fenômeno de precarização das condições de trabalho, com terceirização e retrocesso de direitos anteriormente assegurados, é consequência dessa exploração do sistema produtivo. Mas o ambiente de competição e lucro dá margem a explorações ainda mais drásticas – por exemplo, o trabalho escravo no campo e na indústria.  

No Brasil, são fartas as notícias de trabalhadores escravos em determinados ramos da agropecuária e em indústrias do ramo têxtil – situação não exclusiva a essas áreas. Hoje  existe até um  cadastro que impõe sanções a empresas flagradas fazendo uso dessa prática ou a produtos advindos de trabalho escravo ou de condições análogas às de trabalho escravo. A população, mesmo sem o saber, contribui para tal exploração ao comprar esses produtos. Por isso, é bom desconfiar de ofertas de produtos de grife com preços muito abaixo da média do mercado, de produtos piratas ou importados de certas procedências. Pode-se, com isso, estar cooperando com o tráfico de pessoas para a produção em condições sub-humanas de trabalho e de vida.

Desse contexto aproveitam-se os aliciadores para ofertar o que muitos estão a desejar: trabalho e boa estrutura para viver. Assim, de repente, alguém que se encontra em condições de marginalização e sem horizontes e se vê diante de uma “oportunidade” para mudar radicalmente sua história. Essa dura realidade que anima muitos a acreditar em falsas promessas, deixar sua gente e até sua terra e empreender longas viagens em busca da sonhada melhoria das condições de vida. No entanto, a realidade com a qual deparam é bem outra. Quando chegam ao  destino, são informados da dívida contraída, têm os documentos apreendidos e se veem obrigadas a atividades forçadas
.
Fonte: Folheto Litúrgico O Domingo, nº 10, 2/3/20014 – Texto VIII.


O jejum que salva

A quarta-feira de cinzas e a sexta-feira santa são os únicos em que é pedido a todos os adultos que jejuem (isto é, que renunciem a uma das refeições importantes do dia) em sinal de disponibilidade e solidariedade. Disponibilidade à escuta de Deus, demonstrando dar mais valor à sua palavra que ao bem-estar imediato, sinal de conversão do coração; isto é que significa o jejum dos cristãos, como o do Mestre no início da sua missão. Um e satisfações jejum mais sensível neste dia, mas que se prolongará por todo o tempo da Quaresma, com outras iniciativas pessoais de desapego, renúncia às comodidades e satisfações mesmo legítimas, para maior liberdade interior. Assim o jejum ritual, feito com interioridade e não por mero formalismo, se torna sinal de fé e caminho de salvação para todo o nosso ser.

Por outro lado, sofrendo um pouco de privação, saibamos unir-nos de algum modo aos homens para os quais é habitual a privação de alimento, de meios econômicos, de bens culturais e de possibilidades concretas de desenvolvimento; o jejum se torna um gesto simbólico, de núncia profética da injustiça que nasce do egoísmo, solidariedade com os mais pobres. Assim, a preparação para a Páscoa se torna “Campanha da Fraternidade”, e a ceia do Senhor um gesto de pobreza, contrição, esperança, anúncio. Quem participa seriamente da paixão do Senhor, ainda hoje viva nos pobres da terra, sabe que a volta do Pai (tanto a sua como a da comunidade) já começou, e que a mortificação da carne pode florescer o Espírito  da ressurreição e da vida.

Fonte: Missal Dominical da Assembleia Cristã, Quarta-feira de cinzas, 1995.


Quaresma: maravilhoso é crer e ver as luzes de cada testemunho de vida

Chegam os dias da Quaresma de 2014 e outra vez reúno as forças do meu coração para continuar o meu caminho de fé, sempre na esperança de que a luz não desapareça dos meus passos. Assim me faço canal de Deus para muitos quando escolho o bem e o bom. Estes são dias diferenciados exatamente pelo que a Igreja nos proporciona como reflexão para uma boa preparação ao mistério da Páscoa do Senhor, a ser celebrado daqui a 40 dias. 

Os contextos da cotidianidade exigem muito de nós, sobretudo quando procuramos balizar a nossa vida pelos valores cristãos. A Quaresma é uma estação que remete ao coração do homem de hoje, ao coração do mundo que precisa mais do que nunca fazer um caminho de retorno ao racional, ao bom, à justiça, ao amor de Deus. No entanto, é maravilhoso crer e ver as luzes acesas em cada testemunho de vida, do nosso lado ou não, mas que continuam a manter os passos da esperança firmes no coração de muitos. Que esta luz permaneça acesa na vida da Igreja, na nossa família e em cada consciência de boa vontade.

Vamos com os irmãos, vamos com a Igreja ao encontro do Mistério Pascal, fazendo o retorno necessário na conversão, procurando ser um pouco melhor cada dia. Os desertos da vida são degraus e as provas são estações de maturação da fé e da vida. Sejamos gratos a Deus pelo dom da vida e celebremos nossas estações quaresmais e pascais no amor de Deus, único sentido do ontem, do hoje e do amanhã.

Feliz Quaresma!
Ant. Marcos 


2014-03-02

A memória providencial de Deus

O tema breve não trata de psicologia ou biologia, mas de um aspecto da própria teologia: “a memória de salvação”. E para isso me inspiro nos textos bíblicos do 8º Domingo do Tempo Comum, Ano A, nos quais podemos destacar a expressão do profeta Isaías ao se queixar do abandono por parte de Deus (cf. Is 49,14-15). Este drama nós cristãos o conhecemos bem. Todos já passamos, de uma forma ou de outra, pela experiência da solidão, da inutilidade, do esquecimento, deixando-se perturbar pelo medo de que a providência de Deus não nos assista ou pela sensação de que não terá valido a pena o caminho, os esforços e até mesmo a própria fé.

Não é fácil percorrer o caminho da maturação na confiança em Deus, sobretudo quando nos encontramos dentro de realidades desafiantes pessoais, familiares, profissionais etc. O Salmista nos pede para “esperar no Senhor e abrir diante dele o coração” (cf. Sl 61). É isso que nós desejamos, apesar de nossas falhas: dar o coração a Deus e deixar que Ele realize a sua obra de salvação em nós. Obra esta que passa, inevitavelmente, pela espera na providência de Deus.

É o apóstolo Paulo quem nos ajuda a compreender que o mais importante diante das vicissitudes humanas é mantermos o coração aguardando o Senhor. Ele continua vindo, agindo, transformando. Ele virá definitivamente e manifestará o projeto dos corações (cf. ICor 4,1-5). Tudo isso deve repercutir dentro de nós, sobretudo quando necessitamos dar os passos na fé em dias e contextos obscuros. Deus cuida dos detalhes porque a sua memória de salvação se faz providência quando não abandonamos a confiança e a fé.
 
Concluo olhando para dentro da janela do Evangelho (cf. Mt 6,24-34) quando fala do perigo de querermos usufruir erroneamente do dinheiro e do serviço a Deus. Infelizmente o dinheiro tem sua força sedutora capaz de roubar nossas melhores intenções, caricaturando a verdadeira felicidade. Somos administradores dos mistérios de Deus e dos bens terrenos e é bom lembrarmos que tudo passa. Podemos fazer do dinheiro justo e honesto oportunidade de serviço e missão, mas não é ele que nos redime, não é ele o responsável pela nossa memória de salvação. Esta somente a fé e a confiança em Deus pode operar em nós. Fica para nós a  sabedoria patrística: “Trabalha como se tudo dependesse de seu trabalho, e confia em Deus como se tudo dependesse de sua intervenção”.

Ant. Marcos


2014-02-24

“O Cardeal entra na Igreja de Roma, não entra numa corte”, diz papa Francisco aos novos Cardeais



Homilia do Papa Francisco com os novos Cardeais, Basílica Vaticana, Domingo, 23 de Fevereiro de 2014.

«A vossa ajuda, Pai misericordioso, sempre nos torne atentos à voz do Espírito» (Pração da Coleta).

Esta oração, pronunciada no início da Missa, convida-nos a uma atitude fundamental: a escuta do Espírito Santo, que vivifica a Igreja e a anima. Com a sua força criativa e renovadora, o Espírito sustenta sempre a esperança do povo de Deus que caminha na história, e sempre sustenta, como Paráclito, o testemunho dos cristãos. Neste momento, todos nós, juntamente com os novos Cardeais, queremos ouvir a voz do Espírito que nos fala através das Escrituras proclamadas.

Na primeira Leitura, ressoou este apelo do Senhor ao seu povo: «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo» (Lv 19, 2). E faz-lhe eco, Jesus, no Evangelho: «Haveis, pois, de ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48). Estas palavras interpelam-nos a todos nós, discípulos do Senhor; e hoje são dirigidas especialmente a mim e a vós, queridos Irmãos Cardeais, de modo particular a vós que ontem começastes a fazer parte do Colégio Cardinalício. Imitar a santidade e a perfeição de Deus pode parecer uma meta inatingível; contudo, a primeira Leitura e o Evangelho sugerem os exemplos concretos para que o comportamento de Deus se torne a regra do nosso agir. Lembremo-nos, porém, todos nós…, lembremo-nos de que o nosso esforço, sem o Espírito Santo, seria vão! A santidade cristã não é, primariamente, obra nossa, mas fruto da docilidade – deliberada e cultivada – ao Espírito do Deus três vezes Santo.

O Levítico diz: «Não odieis um irmão vosso no íntimo do coração (...). Não vos vingueis; não guardeis rancor (...). Amai o vosso próximo» (19, 17-18). Estas atitudes nascem da santidade de Deus. Nós, porém, habitualmente somos tão diferentes, tão egoístas e orgulhosos... e no entanto a bondade e a beleza de Deus atraem-nos, e o Espírito Santo pode purificar-nos, pode transformar-nos, pode moldar-nos dia após dia. Fazer este trabalho de conversão, conversão no coração, conversão que todos nós – especialmente vós, Cardeais, e eu – devemos fazer. Conversão!

No Evangelho, também Jesus nos fala da santidade e explica a nova lei – a sua. Fá-lo através de algumas antíteses entre a justiça imperfeita dos escribas e fariseus e a justiça superior do Reino de Deus. A primeira antítese do texto de hoje tem a ver com a vingança. «Ouvistes que foi dito aos antigos: “Olho por olho e dente por dente”. Pois Eu digo-vos: (...) se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra» (Mt 5, 38-39). Não só não devemos restituir ao outro o mal que nos fez, mas havemos também de esforçar-nos por fazer o bem magnanimamente.

A segunda antítese refere-se aos inimigos: «Ouvistes que foi dito: “Hás-de amar o teu próximo e odiar o teu inimigo”. Pois Eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem» (5, 43-44). A quem quer segui-Lo, Jesus pede para amar a pessoa que não o merece, sem retribuição, a fim de preencher as lacunas de amor que há nos corações, nas relações humanas, nas famílias, nas comunidades e no mundo. Irmãos Cardeais, Jesus não veio para nos ensinar as boas maneiras, as cortesias; para isso, não era preciso que descesse do Céu e morresse na cruz. Cristo veio para nos salvar, para nos mostrar o caminho, o único caminho de saída das areias movediças do pecado, e este caminho de santidade é a misericórdia, aquela que Ele usou e usa cada dia connosco. Ser santo não é um luxo, é necessário para a salvação do mundo. Isto é o que o Senhor nos pede.

Queridos Irmãos Cardeais, o Senhor Jesus e a mãe Igreja pedem-nos para testemunharmos, com maior zelo e ardor, estas atitudes de santidade. É precisamente neste suplemento de oblatividade gratuita que consiste a santidade de um Cardeal. Por conseguinte, amemos aqueles que nos são hostis; abençoemos quem fala mal de nós; saudemos com um sorriso a quem talvez não o mereça; não aspiremos a fazer–nos valer, mas oponhamos a mansidão à prepotência; esqueçamos as humilhações sofridas. Deixemo-nos guiar sempre pelo Espírito de Cristo: Ele sacrificou-Se a Si próprio na cruz, para podermos ser «canais» por onde passa a sua caridade. Este é o comportamento, esta é deve ser a conduta de um Cardeal. O Cardeal – digo-o especialmente a vós – entra na Igreja de Roma, Irmãos, não entra numa corte. Evitemos todos – e ajudemo-nos mutuamente a evitar – hábitos e comportamentos de corte: intrigas, críticas, facções, favoritismos, preferências. A nossa linguagem seja a do Evangelho: «Sim, sim; não, não»; as nossas atitudes, as das bem-aventuranças; e o nosso caminho, o da santidade. Rezemos mais uma vez: «A vossa ajuda, Pai misericordioso, sempre nos torne atentos à voz do Espírito».

O Espírito Santo fala-nos, hoje, também através das palavras de São Paulo: «Sois templo de Deus (…); o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós» (1 Cor 3, 16-17). Neste templo que somos nós, celebra-se uma liturgia existencial: a da bondade, do perdão, do serviço; numa palavra, a liturgia do amor. Este nosso templo fica de certo modo profanado, quando descuidamos os deveres para com o próximo: quando no nosso coração encontra lugar o menor dos nossos irmãos, é o próprio Deus que aí encontra lugar; e, quando se deixa fora aquele irmão, é o próprio Deus que não é acolhido. Um coração vazio de amor é como uma igreja dessacralizada, subtraída ao serviço de Deus e destinada a outro fim.

Queridos Irmãos Cardeais, permaneçamos unidos em Cristo e entre nós! Peço-vos que me acompanheis de perto, com a oração, o conselho, a colaboração. E todos vós, bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e leigos, uni-vos na invocação do Espírito Santo, para que o Colégio dos Cardeais seja cada vez mais inflamado de caridade pastoral, cada vez mais cheio de santidade, para servir o Evangelho e ajudar a Igreja a irradiar pelo mundo o amor de Cristo.

Fonte: http://www.vatican.va (O grifo do texto é nosso).

2014-02-14

Leis dos homens e lei de Deus



Dom Alberto Taveira Corrêa reflete sobre as leis e o comportamento das pessoas e afirma que "o cristão há de ser exemplar no cumprimento dos próprios deveres de cidadania"

A vida em sociedade se torna cada vez mais complexa, exigindo uma série de leis e normas para regular o comportamento das pessoas e dos grupos. Não é novidade saber que um emaranhado de leis tantas vezes confunde os cidadãos, dificultando-lhes até manter-se em dia com suas obrigações. Para dar um exemplo, basta conversar com as pessoas que devem estar atualizadas quanto à legislação tributária e ver o quanto lhes é trabalhoso saber das ultimíssimas mudanças. Que se preparem os que devem preparar suas declarações de renda!

E podemos ir além, ao tomar consciência de que vivemos num estado laico, no qual todos os setores da sociedade, incluindo as diversas convicções religiosas, devem encontrar seu espaço, na superação de eventuais privilégios. Curioso é que a crescente laicização do Estado encontra meios e verbas para eventos no mínimo duvidosos, considerados manifestações culturais, relegando ao espaço privado a relação com Deus, da qual o ser humano não pode fugir, sob pena de perder o rumo e o sentido de sua existência. Nem é necessário fazer uma lista dos gastos correntes em nosso país, nos quais bilhões de reais são despendidos, inclusive com obras cuja utilidade prática posterior aos eventos programados é altamente questionável. Entende-se assim a revolta que jovens e menos jovens manifestam em nossas ruas, mesmo se os métodos e gritos se confundam com grupos violentos infiltrados em suas ações.

Bastam as leis e o laicismo do Estado? Quais serão as consequências do alijamento dos grupos religiosos da educação ou do cuidado com a saúde, pelas dificuldades encontradas para manter obras sociais correspondentes às convicções cristãs que os movem? Pode ficar tudo aparentemente certo, mas o que está por trás? E uma sociedade que perdeu as estribeiras quanto à moralidade dos atos públicos ou a exposição contínua de atos de esperteza ou de corrupção, para onde vai? Para onde foi a moral familiar? E as leis, podem ser simplesmente acolhidas, mesmo quando é patente sua iniquidade?

Jesus, Senhor e Salvador, enfrentou uma sociedade repleta de leis e mandamentos, sendo diante de muitos um violador das normas vigentes. No entanto, seu comportamento e seu ensinamento realizam e superam toda a lei. “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir. Antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar os outros, será considerado o menor no Reino dos Céus. Quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus. Eu vos digo: Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 17-20).

Nasce então a pergunta: como superar as normas dos escribas e dos fariseus, ou como ir além das constituições, leis, normas técnicas ou regulamentos existentes em cada época? “Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do ser humano. Não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença para pecar” (Eclo 15, 20-21). Começamos com radicalidade! Acomodar-se com a maldade e ajeitar a consciência é princípio de desastre! Ninguém foi destinado ao crime ou à corrupção, ninguém foi feito para andar errado ou afundar-se na lama da impureza! Não há um destino cego que obrigue à iniquidade. Acreditar que fomos feitos para o bem e para o que é certo e não admitir qualquer relaxamento de consciência é primeira resposta.

O grande Apóstolo São Paulo (Rm 13, 1-10) ajudou a enfrentar estas questões, ensinando que todos se submetam às autoridades que exercem o poder, pois não existe autoridade que não venha de Deus. Fez até uma pergunta provocante, com a correspondente resposta: “Queres não ter medo da autoridade? Pratica o bem, e serás por ela elogiado... É preciso obedecer, não somente por medo do castigo, mas por motivo de consciência. Pela mesma razão, pagais impostos. Dai a cada um o que lhe é devido: seja imposto, seja taxa, ou, também, o temor e o respeito”. O cristão há de ser exemplar no cumprimento dos próprios deveres de cidadania!

Entretanto, o caminho de superação das leis é justamente o cumprimento da lei maior, o amor, “pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei... O amor é o cumprimento perfeito da Lei”. (Rm 13, 8.10). O mesmo apóstolo, escrevendo aos Gálatas, numa frase breve, estupenda e lapidar, diz outra vez que “toda a lei se resume neste único mandamento: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5,14). É verdade! Quem ama não rouba, não mata. E não só evita o mal, mas se abre aos outros, deseja o bem, pratica o bem, sabe doar-se, chega a dar a vida pela pessoa amada. Por isso Paulo escreve que, amando o próximo, não só se cumpre a lei, mas se cumpre “toda a lei”. Os outros mandamentos são meios para nos iluminar e guiar a fim de sabermos encontrar, nas complexas situações da vida, o caminho para amar os outros. E por que o Apóstolo não fala também do amor a Deus? É que o amor a Deus e o amor ao próximo não competem entre si. Um deles, o amor ao próximo, é até mesmo expressão do outro, do amor a Deus. Com efeito, amar a Deus significa fazer a sua vontade, e a sua vontade é que amemos o próximo (Cf. Chiara Lubich, Comentário à Palavra de Vida, Roma, 25 de maio de 1983).

Enfim, faz ainda parte da vida cristã saber lutar contra as leis injustas, denunciar o mal. Nos dias que correm, uma das mais importantes bandeiras dos cristãos, ainda que venham leis ou normas contrárias, é a da valorização da vida. Mesmo que sejam leis civis a permitir práticas abortivas ou outras violações da absoluta dignidade humana, não seremos obrigados a cumpri-las. Nasce a corajosa objeção de consciência, que vem também a ser praticada quando se recusa a sujar as mãos e o coração com a corrupção e o roubo. Em ano eleitoral, aqui se encontram preciosas referências para engajamento político, participação e voto! Se necessário, trata-se de nadar contra a correnteza, para vencer a torrente de maldade existente também em nosso tempo.

Fonte: ZENIT.org. Belém do Pará, 13 de Fevereiro de 2014 - © Innovative Media Inc.

2014-02-09

Quando o amor acontece

Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Outro dia escutei uma música de João Bosco que dizia... “O amor quando acontece a gente logo esquece que sofreu um dia”, e é verdade, como mudamos nossa forma pessimista de ver o amor assim que nos apaixonamos novamente, e já não lembramos que um dia proclamamos o fim para este sentimento. Por que isso acontece? Porque nascemos para amar e sermos felizes, simples não? Nem sempre, porque também aprendemos a complicar e encher-nos de sentimentos negativos contra nós mesmos e contra os outros, difícil não?

Tenho observado que os amores vão aumentando de intensidade na medida em que amadurecemos, parece que o acúmulo de experiências faz com que desejemos algo que nunca tivemos e quando acontece esse novo, temos a doce e bela ilusão que agora é especial e que esta sensação será para sempre. É neste momento que é possível ampliar nossa capacidade prazerosa e tornar o viver um ato de prazer, não importando em qual fase da vida estejamos. Ora estamos extasiados ante as fantásticas possibilidades da emoção, ora ficamos acuados ante a própria incompletude e a inevitável angústia com que a temporalidade nos confronta. A felicidade sexual é uma construção. Somos responsáveis por cada instante, por cada “agora” de que dispomos para tornar a vida preciosa, especial, significativa. Ninguém pode fazê-lo por nós. Temos todos responsabilidade sobre nossa própria felicidade, não importa em que idade, circunstância ou lugar estejamos. Não podemos aguardar que nos façam felizes.

Sou uma incansável defensora do amor e em cada tentativa enxergo a possibilidade de um relacionamento mais maduro, que vai dando-nos a certeza íntima do ser que interiormente somos e, assim, podemos nos relacionar com o outro. Somente aquele que possui o bastante para si mesmo pode se oferecer generosamente ao outro. Isso elimina de uma vez toda dependência patológica e toda confusão misturada com o amor. Então, a sexualidade eclode junto com as imagens profundas, com as vivências imateriais e com a liberdade das relações inteiras e globais. Não restam dúvidas de que o encontro amoroso, para ser verdadeiro, remete o ser humano ao outro na tentativa, porém, de uma revelação da própria alma.


Acredito que a sexualidade para ser considerada adulta, terá de ir amadurecendo na direção da partilha cada vez mais intensa, na reciprocidade de entregas possibilitadoras da experiência do individuo de ser ele mesmo, na capacidade de perder-se no outro para reencontrar-se depois acrescido, somado. Um tempo em que se descobre a necessidade de democratizar o prazer e as emoções, em que cada um cuida da própria felicidade, mas presta atenção à felicidade do outro, porque agora, ser feliz é também saber que o outro está feliz nessa parceria.

Quando as pessoas de fato estão adultas, maduras, não apenas se colocam à disposição, ao serviço do prazer do outro de um modo submisso, mas buscam e querem para si uma partilha generosa e igualitária. Partilha do corpo e do espírito de ambos, democraticamente, porque segundo A. Távola “O amor é um exercício de felicidade, não de poder”.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 09 de fevereiro de 2014.