Nelson Mandela alcançou as raízes da misericórdia

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, dezembro 06, 2013 Sem Comentários


Fábio de Melo, Sacerdote Católico, Cantor, Compositor e Escritor.

Mandela é o homem que, diante da possibilidade de ganhar, fazer justiça à sua raça, resolveu lutar para que as diferenças não prevalecessem. Aos olhos incautos, ele perdeu a oportunidade de vingar o sofrimento que ele mesmo carregou na carne. Poderia muito bem ter revidado, criando um regime de governo que desse aos negros a oportunidade de virar o jogo, mas não.

Mandela preferiu ganhar de outro jeito. Iluminou o seu pódio com luzes que não são convencionais. O motivo é simples. Mandela é pessoa. Possui o que é. Administra todos os atributos que lhe são próprios, e por isso é capaz de alcançar as raízes da misericórdia. Ele compreendeu que perdoar é ganhar. O poder que o fascinava não passava pela vingança, nem tampouco estava pautado sobre os princípios mesquinhos da vingança e da revanche.

A história pessoal o encaminhou para uma opção muito mais elaborada de exercício de poder. Mandela aprendeu com a vida. Ao ver de perto a dor que doeu na honra de seu povo, esse homem descobriu que era possível assumir um papel determinante na história da África do Sul. Ele não negligenciou o segundo desdobramento do conceito pessoa. O primeiro ele já exercia bem. Ele era dono de si. Não estava alienado nas mãos de seus opressores. Não assimilou os sentimentos que justificavam a segregação que o vitimava. Não permitiu que os ódios de seus oponentes encontrassem abrigo em sua alma. Mesmo sendo odiado, nunca permitiu que o ódio achasse repouso em suas entranhas. 

Só pode resistir ao ódio, sem a ele sucumbir, aquele que o possui. A primeira grande revolução que Mandela precisou realizar foi dentro de si mesmo. Ele foi o primeiro território que necessitou ser conquistado. Tudo mais foi consequência (...). 

Fonte: “Cartas entre amigos 2” (Oitava Carta), 2010.