2013-11-25

Entrevista: o cotidiano amoroso



Zenilce Bruno, terapeuta sexual e articulista do O POVO

Todos nós temos a capacidade de nos apaixonar. Para alcançar a felicidade em um relacionamento amoroso, no entanto, é necessário competência. A afirmação é da terapeuta sexual e articulista do O POVO, Zenilce Bruno. Para a terapeuta, que lança o seu Patrimônio Afetivo – Amorosidade e prazer nas relações do cotidiano (Armazém da Cultura) no próximo dia 6 de dezembro de 2013, “o amor de todas as formas influencia muito a nossa vida, seja de uma forma positiva ou negativa”. Nesta entrevista realizada por email, Zenilce – que, desde criança, se considera uma “menina romântica” – fala sobre amores, paixões e, é claro, felicidade.

O POVO - Em Patrimônio Afetivo, você aborda o amor como tema central de reflexão. Como o amor influencia nossas relações do cotidiano?

Zenilce Bruno - O amor de todas as formas influencia muito a nossa vida, seja de uma forma positiva ou negativa, e, muitas vezes, determina até o nosso estilo de viver. Mas amar não é fácil e vivenciar o amor é mais difícil ainda, porque não depende somente de quem está amando, mas de toda uma estrutura que envolve esse amor. Isto acontece em todas as relações amorosas e entre amigos, família e casais, sejam hétero ou homossexuais. Alguns indícios são capazes de demonstrar quão saudável uma pessoa está em um relacionamento amoroso: o humor, a saúde, o trabalho, o cuidado consigo. Afinal, amar e ser sentir amado é um ótimo motivo para existir. Tenho pensado e conversado com amigos e pacientes sobre o amor e a paixão. É grande, hoje, a “evitação” do envolvimento amoroso, o descompromisso com a emoção e com a pessoa e, em troca, elegem-se experiências passageiras e sem sentimento. Percebemos a insatisfação de não haver um encontro. Muitos vivem na tristeza e solidão, revelada através de doenças, somatizações, depressões e desencantos pela vida. Quem ama, gosta de se sentir amado, o que faz de nós pessoas mais afetivas, gentis e sociáveis. 

OP - Todos nós somos capazes de nos apaixonar?

Zenilce - E muito, o que não temos é competência. Em todos os tempos e em todas as culturas, controles se exercem sobre a paixão das pessoas, porque, ao estarmos apaixonados, somos corajosos, invencíveis, sem limites e sem juízo. Desejamos ficar acordados, pensando, planejando, recordando e procurando a todo custo viver essa paixão. Tudo é motivo de felicidade e encantamento. O mais interessante da paixão é essa estranha sensação de que nunca vai acabar. Como disse no início, o que nos falta é competência para viver estas sensações encantadoras inerentes do estar apaixonado. Desistimos, fugimos, evitamos e, por muitas vezes, a exterminamos de nosso coração e de nossas vidas. Quem já teve a sorte de senti-la, sabe que o apaixonado torna-se capaz de viver o agora com sabor de infinito e errar com toda e sincera convicção.

OP - O que faz com que uma pessoa se apaixone por outra?

Zenilce - Não é tarefa simples, porque, muitas vezes, os sentimentos vão se transformando e se confundido com paixão e amizade. No entanto, o que nos torna mais alerta é a erotização desse relacionamento. O desejo de estar junto, a vontade de ver, de falar. Ou seja, o outro nos é necessário. Dependendo da idade, sexo e cultura, o que vai despertar a paixão são coisas diferentes. Até para a mesma pessoa, a afinidade, o comportamento e os ideais podem ter uma importância muito grande em um momento e, em outro, a pele, o cheiro e a voz serem fundamentais para o apaixonamento. Portanto, não existem regras para os sentimentos. O que conseguimos ter como unanimidade é o desejo e a abertura de se apaixonar, mesmo que inconsciente. Não acredito em perfis determinados, mas tenho percebido que hoje estão em alta pessoas que gostam de si mesmas e não se deixam abusar por ninguém, que não mendigam afeto e não são narcisistas, que cuidam de seus parceiros como gostam de ser cuidadas. Essas são características que têm a ver com gente capaz de desenvolver verdadeiras parcerias na relação amorosa. Se encontrarem alguém assim por aí, não deixem escapar.

OP - Homens e mulheres buscam a mesma coisa em um relacionamento amoroso?

Zenilce - Por muito tempo, pensei que queríamos coisas diferentes, mas, hoje, percebo que muitos dos problemas dos casais é porque queremos as mesmas coisas, só que de formas diferenciadas. Garcia Rosa (Luis Alfredo Garcia Rosa, psicanalista) diz “o que o desejo humano deseja é possuir o desejo do outro, é ser desejado ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu valor humano”. Todos as pessoas sentem prazer em se sentirem amadas e de compartilharem suas necessidades. A grande dificuldade é praticar a amorosidade, ou seja, que se possa olhar para as atitudes do outro como reflexo da sua história e que não pode levar tudo para o pessoal. Se o outro não me abraça tanto, pode ser que não esteja acostumado a reconhecer e dar amor dessa maneira, e isso não quer dizer que não me deseje ou não me queira bem. É preciso entender que nem todas as pessoas estão alinhadas em sua caminhada amorosa: o casal pode estar em fases diferentes, e isso, certamente, pode gerar conflitos na relação. É interessante que, geralmente, quando somos mais jovens, buscamos nos completar no outro e as diferenças nos atraem. Já mais maduros, as semelhanças é que contam: quanto mais parecidos na maneira de amar e no projeto de vida, melhor!

OP - Qual o papel que o sexo ocupa dentro de um relacionamento?

Zenilce - Existe uma diferença entre genitalidade e sexualidade. O coito é importante sim, mas o contato sexual é imprescindível para a manutenção de um relacionamento, porque é nele que existe uma troca de energia que nos alimenta, nos encanta e nos emociona. Quanto de liberdade sentimos no momento de tomar decisões a respeito de nossa vida íntima, amorosa e erótica? A resposta é um importante indicador sobre o nível de autonomia que temos. O uso criativo de habilidades, que podem ser aprendidas, ajuda a manter viva a paixão, à medida em que a intimidade se aprofunda.

OP - Amor é garantia de felicidade?

Zenilce - Enquanto se ama, sim. Mas é importante entender que o amor é nosso e não de quem amamos. Os amantes cometem seus equívocos: em alguns momentos idealizam a parceria como um lugar único de construção de felicidade, em outros, idealizam apenas o que é vivido como um amor extraordinário, e, com isso, perdem ocasiões significativas de pequenas vivências muito importantes. Na trajetória amorosa, queremos a felicidade do tamanho do nosso sonho, que é sempre maior do que a realidade. Para além do tempo da paixão, há um outro, que é o tempo de amar o parceiro como ele é. Sem ilusões e sem esse fogo que queima e encandeia até os mais racionais. Acredito no amor, sou sua defensora, mas defendo que o maior de todos é o que sentimos por nós mesmos, esse sim, vai nos ajudar a entender de amor, matéria essa tão difícil de ser ensinada, mas tão fácil de ser vivenciada. Portanto, concordo com o refrão da música de Milton Nascimento: “Qualquer maneira de amor vale a pena”.

OP - É possível ser feliz sozinho?

Zenilce - Primeiro, o que é ser feliz? E, segundo, o que é estar sozinho? Ninguém faz ninguém feliz. Ninguém tem o dever de nos fazer feliz. A felicidade é uma construção pessoal e responsável, que cada um tem de assumir. O outro pode até estar inadequado à parceria que queremos, na construção de nossa felicidade, mas a responsabilidade de ser feliz é absolutamente pessoal. Para as pessoas que se submetem aos valores sociais impostos, a possibilidade de viver bem sem uma relação amorosa romântica parece impossível. Entretanto, ninguém consegue ser feliz sozinho sem desenvolver a autonomia pessoal, por isso que homens e mulheres procuram um par amoroso, pagando qualquer preço para mantê-lo. Não se é feliz ou se fica feliz simplesmente por um decreto. O ideal é aprendermos a dar mais atenção ao que somos e querer ser feliz com isso, onde cada um procure a felicidade que carrega em si. Que a vida seja de festa e alegria interna e externa para todos. 

Fonte: Publicado o Jornal O POVO (Caderno Ciência e Saúde), Fortaleza, 24 de novembro de 2013.

Serviço: Lançamento do livro Patrimônio Afetivo – Amorosidade e prazer nas relações do cotidiano - Quando: 6 de dezembro, às 19h - Onde: Livraria Cultura, avenida Dom Luís, 1010 – Aldeota, Fortaleza/CE.

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