2013-07-29

Trajetória amorosa

Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Na trajetória amorosa, queremos, como em tudo, a felicidade. Mas ela não é previsível, controlável, não a possuímos, dela não nos apropriamos. Ela não é do tamanho do nosso sonho. O sonho é sempre maior. Na verdade, não podemos pensá-la concretamente como algo objetivo, que está ali e pode ser definitivamente alcançado. Ela não está nas coisas, no outro ou nos nossos projetos. Realisticamente, a felicidade não existe em si mesma. O que dela conhecemos são os momentos felizes que conseguimos viver.

O movimento da felicidade procede de dentro para fora da pessoa e a insere no contexto do sentido da vida. Dessa forma, entendo que a felicidade como o sentido da vida são buscas internas. Perdemos tempo em buscá-las fora de nós. O que está fora apenas acorda o que existe dentro. Nessa perspectiva, não encontramos a felicidade em si, mas razões para sermos felizes. Penso que estas razões estão em nós e à nossa volta, mas frequentemente as desperdiçamos ou nem as percebemos. Permanecemos na utopia de uma felicidade avassaladora. Os motivos que nos fazem felizes podem ser muito pequenos e, no entanto, preciosos. Talvez tenhamos que revitalizar a grandiosidade do sonho e encontrar os motivos simples que viabilizem felicidades.

Retalhos de prazer são bem vindos ao existir, mesmo que não nos bastem. Seria miséria erótica se nos bastassem. Contudo, valem enquanto prazer e expressão de busca. Na idealização de se viver apenas o amor extraordinário, perdem-se ocasiões de vivências importantes, ou mantém-se num estado de pobreza, de miséria amorosa. Não podemos é nos deter ante as máximas do “até que a morte os separe” ou que seja “pelo resto da vida”. Na verdade, “resto da vida” é tudo aquilo que se vive ao fim de cada etapa. Assim, atravessamos muitos “restos da vida”, porque ela se sucede em estágios que nascem desses finais.

Idealizamos muito porque ansiamos pelo maravilhoso, o melhor e o mais bonito. Sonho legítimo. Mas não podemos esquecer que o maravilhoso se esconde nas coisas simples. É o olhar interno que inventa o extraordinário e o descobre nas mais diversas circunstâncias. Um olhar, um afago, a roupa que o outro veste para agradar, a inteligência, a graça com que conduz à vida, o jeito próprio de amar, a flor que se abre sobre nossa janela, o sol que brilhou depois da chuva, tudo pode acordar o extraordinário em nós, quando estamos abertos aos gestos dos outros, aos movimentos da vida.

Estagnamos a relação se nos detivermos na ilusão da perfeita unidade, na utopia da completude, se não pudermos suportar e amar o outro como ele é: insuportável e maravilhoso. Diria que a relação amorosa é uma busca inquietante e que isso promove um “desassossego” que nos faz permanecer num devir constante. É no contexto de dores e alegrias que experienciamos o que há de mais denso emocional e sexualmente.

O difícil é admitirmos que a realidade amorosa tem essas duas faces. Qualquer parte dela negada, nos torna mais pobres experiencialmente. Porque assim é a vida, a existência, o sexo, a música, o universo, as pessoas em relação.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 28 de julho de 2013.

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