“Outro mundo é possível”

Escrito Por Antonio Marcos na domingo, junho 30, 2013 1 comment
Ângela Linhares é professora universitária

Viver; tocar o sonho do amor coletivo com o violino singular de cada um de nós. Ah, que língua falava esse grito do asfalto, que se dava no coração dos dias? Onde aquele canto coletivo das ruas estaria a buscar o coração das coisas da vida?

O futuro para as culturas juvenis não parece ser algo tão tranquilo. As juventudes - chamam-se assim, no plural, pelas diferentes formas como os grupos juvenis vivem seus percursos de vida, definindo-se menos pela fase etária e mais pelas formas de vida social - se encontram às voltas com a necessidade de transformações no mundo, não só na esfera das produções industriais, mas, sobretudo, na esfera da distribuição de bens sociais e oportunidades, vividas como acesso às políticas públicas e qualidade de vida pessoal e coletiva.

As lutas sociais, então, não são apenas de socialização de bens, embora isso também seja fundamental, como se está a dizer, mas envolvem a produção de significados para a vida, procuram auscultar sensibilidades, busca de direitos e não privilégios, laborando novas dimensões do cuidado com o outro e o ambiente. Dessa maneira é que as populações vão às ruas na tentativa, também, de sair da esfera da representação do mundo, onde se lida com signos e simulacros, para tentar tocar o cotidiano coletivo com sua presença em movimento. Altera-se, assim, as redes de conversações, e o modo de conquistas de igualdade nas diferenças de gênero, etnia, territórios, poder social e simbólico, enfim. As pessoas buscam viver a esfera pública de outro modo menos longe de si. Quase se toca o fluido desejo de acessar as possibilidades de erigirmos novas formas de conviver socialmente no cotidiano. Podemos deixar a flor da esperança dar o tom dessa música que se escuta no convulso grito das ruas?

Sabe-se que a economia, ao tentar se erguer como esfera autônoma - dependendo de Bancos Mundiais e FMIs, e também de um punhado de empresas de mídia e de guerra, de produtos de consumo e de políticas globais, e não dos anseios de humanidade de todos -, resulta por deixar insatisfeitas as pessoas, às voltas com seu cotidiano e vida comum. O princípio do mercado e do estado parecem não conseguirem conter o desejo do princípio de comunidade e solidariedade de erguer-se e dar visibilidade à esfera mais próxima da vida, que envolve o cotidiano e o mundo das relações concretas entre pessoas. É como se as pessoas que vão às ruas dissessem: quero sentir o mundo de outro modo, buscar as particularidades sensíveis da vida, as dimensões humanas, que estão sendo ofuscadas pela abstração generalizante de uma racionalidade assentada nas razões de mercado. E assim, sem saber bem ao certo a profundidade dessas razões e sensibilidades, a multidão irrompe como força que quer um contato inteiro e pessoal com novas formas de ação coletiva de transformação.

Ao deixarmos a realidade ser secundária em relação à imagem e à produção simbólica das mídias, abre-se uma imensa fenda. A produção de signos do consumo e de imagens da realidade fazem um abismo entre o que é simulado e o contentamento real que se vai tendo dia a dia. A ferida das faltas – do amor, também – fica exposta. Desse modo, ao se substituir experiências com o mundo cotidiano e o amor, a partilha e a solidariedade real por representações ou imagens produzidas por uma visão de mundo materialona, perde-se de escutarmos dimensões chaves da sensibilidade e do devir humano.

O objetivo das lutas das ruas, então, não parece ser conquistar o poder e modificar a esfera governamental – o que é difícil para os políticos compreender -, mas transformar as diversas faces do poder conforme ele está comparecendo nas instituições e nas sociabilidades onde convivemos. Parece que se traz de volta uma democracia participativa que tenta buscar princípios de igualdade – direito a transporte, cultura, saúde, educação, etc. – dentro de um reconhecimento tácito das diferenças étnicas, de gênero, de partidos, de condições de classe, entre outras. E, é certo, embora irrupções de violência tenham acontecido, o movimento das ruas foi deixando ver seu caráter pacífico, embora firme, já que parece ser consenso a necessidade de não voltarmos a nenhum tipo de luta armada – aspecto que é um dos grandes consensos do grande encontro do Fórum Social Mundial, cujo lema é “outro mundo é possível”, onde se vai fazendo valer uma ética diferente da que a lógica de mercado torna dominante.

Evidente que desesperados adoecidos de violência fizeram-se presentes, e alguns tentaram rasurar o esforço democrático de tantos, daí o risco. A risca: pedaço que delimita o mar que se tem concreto, visível, com a linha do horizonte imponderável.

Marcuse falava que na modernidade se tem uma dessublimação repressiva, e referia-se a uma forma de liberação que mais reprime que liberta, já que deixa aberto o erotismo com a condição de que nele se deposite toda a experiência de felicidade humana. O desejo de felicidade, reduzido à experiência erótica, vivida de modo redutor, segundo Marcuse, tornaria as outras esferas da vida campos de insatisfação crescentes. Veja-se a metáfora.

A experiência com a afetividade, a solidariedade, em bases mais amplas e profundas capazes de fazer mais inteiro o ser, deixando comparecer de maneira mais integrada as várias dimensões da vida, solicita lugar. É importante, contudo, pensarmos que fazer a crítica da razão do modo como ela se tem posto não significa jogar as possibilidades da razão e do diálogo. Pensarmos fazer valer a esfera da vida junto ao mundo administrado pela lógica de mercado não deve significar nunca o desprezo pelas construções da cultura, em sua diversidade. É preciso ter cuidado para que a crítica à razão instrumental, à globalização dos mercados não seja um giro que nos faça cair no fosso da irracionalidade.

Quando Kardec perguntou aos espíritos, na longa entrevista com o plano espiritual contida em O Livro dos Espíritos: “Onde está escrita a lei de Deus?” A resposta não foi a de que a lei de Deus estivesse no Alcorão, na Bíblia, na Torá etc. Não que nestes livros não houvesse parcelas de saberes válidos, mas é que os espíritos responderam de outro modo: “A lei de Deus está escrita na consciência de cada pessoa”. Cada um de nós pode movimentar suas energias e forças criadoras de mundos e realidades na direção que quisermos – mas colheremos o resultado das realidades criadas. Como disse André Luiz, por Chico Xavier: “Todos somos senhores de nossas criações e, ao mesmo tempo, delas escravos infortunados ou felizes tutelados”. Quer dizer, “a responsabilidade é princípio divino a que ninguém poderá fugir”.

Neste momento em que as nossas ruas são povoadas de protestos, então, lembremos o desafio de pensarmos como modificar o mundo tecendo uma cultura de vida, como gosto de dizer. Uma cultura de paz que vê conflitos e tenta superá-los, aposta nas transformações e cuida para que o trajeto dessas conquistas e lutas pessoais e coletivas seja de nossa responsabilidade e atente para a amorosidade necessária às evoluções da vida. Vamos?

Fonte: Jornal O Povo (Espiritualidade), “Risco, risca e possibilidades” -  Fortaleza, 30 de junho de 2013.