2013-06-30

(Des) humana violência

Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Não posso negar a minha preocupação com o que vem acontecendo em nosso país nas últimas manifestações. Como a grande maioria, sou também a favor delas, mas, sinceramente, o meu olhar desviou para o que mais me impressionou: a violência! Somos seres naturalmente agressivos. É como seres de cultura que nos controlamos. Em O Mal Estar na Civilização, Freud refere que está em todo ser humano tanto uma pulsão de vida, que é construtiva, como uma pulsão destrutiva. Ele considera que, se a esta nos entregarmos, poderemos ser capazes de destruir a própria civilização que a tanto custo construímos. Por aí podemos compreender, que é função da cultura, educar os cidadãos quanto ao controle de seus impulsos, o que tornará possível a construção do bem-estar.

É dever do estado proteger seus filhos. Tais medidas visam o ato cometido ou a sua evitação. Contudo, não depende só do estado o controle da violência. Faz-se necessário que outros tipos de ações e intervenções pessoais e sociais corram em paralelo, mobilizando nas pessoas a sua humanidade. Faz-se urgente uma mudança de atitude na internalidade de cada pessoa. O primeiro caminho de paz é pessoal, é construído por cada indivíduo em seu modo de estar no mundo. As normas, leis e limites postos são modos culturais de controle da pulsão destrutiva em nós.

É dever do estado proporcionar condições básicas de sobrevivência e fontes de satisfação que sejam adequadas ao cidadão e à coletividade. Mas é função também do cidadão de cuidar de si e de sua pulsão agressiva. Quando não é possível dar conta desse controle sozinho, é importante pedir ajuda a família, amigos e profissionais.

Em nenhum momento questionei a importância dos movimentos sociais, pelo contrário, em muitos deles já estive presente, e com o fervor da multidão, meu espírito revolucionário também esquentou minha alma e meu corpo. Mas algo diferencia um dos outros no momento do discernimento do certo e errado, do adequado e inadequado, do necessário e supérfluo. E principalmente o que é meu, do outro e nosso! A agressividade não é uma força má que carregamos. Ela faz parte de nossa personalidade.

Contudo, pode e deve ser orientada para fins construtivos, autodefesa, força de trabalho, criação, coragem de ser. Embora seja parte integrante de nós mesmos, isso não nos autoriza a utilizá-la para a destruição do outro, da natureza, do bem-estar social. O respeito e a valorização das pessoas são valores fundamentais, são base da convivência sustentável entre os homens e as nações.

Na cultura narcisistas em que vivemos, onde “é proibido proibir”, produzem-se sujeitos intolerantes, exigentes de um prazer sem limites e incapazes de suportar a mínima frustração. “A perversidade não provém de uma perturbação psíquica e, sim, de uma fria racionalidade, combinada a uma incapacidade de considerar os outros como seres humanos”, diz Hirigoyen. A sociedade, a família, os adultos compõem o grande espelho onde os jovens refletem suas condutas.

A violência na juventude é apenas um reflexo da violência social, somado à força das pulsões adolescentes e ao vazio de valores que desnutre a dimensão humana. O “primata agressivo” que existe em nós traz em si a potencialidade do humano sensível, capaz de transformar a mais turva realidade. Precisamos urgentemente de projetos que humanizem o homem. Se não cuidarmos de estancar o projeto violento do modo de viver que se instalou, o futuro da humanidade se fragilizará sob nossos olhares inertes.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 30 de junho de 2013.

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