À flor da pele




Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Gostaria de começar esclarecendo que o artigo escrito por mim Homossexualidade: peso da diferença, publicado no domingo dia 7/4, não saiu com o texto original. O que foi anexado era de um artigo passado, que tinha como título Contingência do desejo. Solicitei que fosse feita a correção, justificando que o erro foi do jornal e publicando o artigo original por mim enviado, o que foi feito na segunda-feira seguinte. Quem não teve a oportunidade de ler o texto correto pode vê-lo na internet. Aproveito o momento para enviar, em meu nome e do jornal, nosso pedido de desculpas pelo ocorrido.

O fato me fez pensar sobre nossos erros e como nos sentimos diante dos erros dos outros, até que ponto sobre tolerantes e usamos o velho ditado “Ter razão ou ser feliz”. Para Amparo Caridade, a história dessas relações tem sua base na construção pessoal de cada indivíduo. Ela se inicia na família. É lá que se torna a confiança básica, o núcleo de segurança pessoal que possibilita uma identidade. A partir dela, da certeza do que somos, torna-se possível conviver com os outros. Nosso destino inevitável é ir em direção aos outros, mas sem perceber quem somos.

Cada um de nós tem o dever de empenhar-se na melhoria de si, da própria vida e da vida em seu redor, do mundo que se faz em seus dias, do outro com quem vive, da cultura que se constrói a partir do que se planta. Se cumpríssemos esse dever, já teríamos um grande resultado na convivência humana. Contudo, uma transformação maior exige mais de nós. Essa só será viável quando nos juntarmos, e não mais tivermos vergonha de querer bem ao outro. Por que tanto medo de pedir amor e perdão? Ser rejeitado, criticado, ignorado ou simplesmente amado, desejado e admirado. Vou pela segunda opção, mesmo que a resposta seja não, já houve um sim de uma parte, e isso é equilíbrio.

“O inferno são os outros” dizia Sartre, mas o inferno pode ser também sua ausência, a falta de desafios que ele provoca, a impossibilidade de crescimento e enriquecimento pessoal quando ele nos falta. Pode ser também nossa ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma insuficiência tola que nos faz prescindir das parcerias da vida. Pode ser os arranhões que fazemos aos relacionamentos, o sentimento sem expressão, a cortina de ferro entre os corações. O espetáculo do mundo nos distrai, sobretudo, de atentarmos para a importância que o outro tem em nossa existência.

Na contraface disso tudo, sinto uma nova preocupação masculina por essas questões em nosso consultório, onde os homens estão tentando desenvolver sua capacidade de amar, de serem ternos, amigos e partilhadores. Entendendo que isso em nada pode ameaçar sua masculinidade. Pelo contrário, isso faz deles espécimes raros, que podem reunir força, coragem, beleza e expansividade do ser. A sociedade muito se beneficiará, com novos modelos de convivência, se houver o resgate do humano, do sensível nos homens. Outro dia um paciente cantarolou com muita emoção a canção do Zeca Balero, “Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”... e choramos juntos!

Fonte: O Povo (Opinião), Fortaleza, 05 de maio de 2013.