2013-03-24

O papa quer um mundo mais franciscano




Geovane Saraiva, Padre da Arquidiocese de Fortaleza e pároco da Igreja de Santo Afonso.

O nosso querido papa Francisco, nas suas primeiras palavras encantadoras, “Os cardeais me buscaram dos confins do mundo”, e depois: “Quero uma Igreja pobre, para os pobres”, nos ajude a compreender que temos que optar por uma Igreja mais coerente com o Evangelho, na simplicidade e na ternura franciscana, num mundo que concentra e exclui, produz riqueza e miséria, constrói torres e palácios, em confronto com favelas, casebres, palafitas e mocambos.

Por isso, eu tinha razão quando escrevi em 2012, que toda civilização necessita figuras exemplares, modelo e referenciais, que mostrem concretamente ao mundo, os grandes sonhos e utopias, numa palavra, mostrem os valores últimos, no sentido de sustentar as motivações dos seres humanos, na sua relação e ação com seus semelhantes, com a natureza e o meio ambiente. Parece até que estava antevendo a novidade incomensurável, que foi chegada entre nós do papa Francisco, apresentando sinais evidentes de quem sonha com a renovação da Igreja, através de gestos e atitudes, vindos de corações sensibilizados e convertidos, uma Igreja pobre e servidora, no dizer de dom Helder Câmara.

E citava o Hartmut Koschyk, vice-ministro da Economia Alemã, que, ao visitar em 5/5/2012 a Basílica de São Francisco de Assis – Itália, pronunciou as seguintes palavras: “Seria melhor uma Europa mais franciscana”. Segundo aparece no site www.sanfrancesco.org, o vice-ministro alemão teria afirmado que “o pensamento franciscano é caracterizado pela fraternidade, bondade e solidariedade, virtudes que podem contribuir para uma nova ordem ética e econômica”.

Com o novo papa Francisco, somos chamados ainda mais a olhar para vida do pobrezinho de Assis, que não significou um abandono do mundo, do seu mundo de então, nas relações entre as pessoas; ao contrário, podemos ver na sua radical opção de vida, de um modo claro e explícito, uma dura crítica às forças dominantes do tempo por ele vivido, apontando para uma nova sociedade, baseada na solidariedade, com oportunidade para todos.

Francisco de Assis, na sua “loucura” por Deus e suas criaturas, iniciava uma nova forma de convívio humano, fazendo entender que qualquer privilégio em relação aos bens deste mundo, que são dons de Deus, só se justifica, quando se destina a favorecer os empobrecidos, indefesos, fracos e sofredores de toda sorte.

Lembrava também que o Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorando em 5 de junho, no mundo inteiro, nos faz pensar em um Francisco de Assis, que “chamava irmãos e irmãs as criaturas, mesmo as últimas, sabendo com clareza que todas e todos procediam de uma mesma e única fonte” – Deus. Daí na sua primeira relação com a natureza, ser não de domínio e posse, mas de fraterno e terno convívio.

Deus infinitamente bom, que nos deu o papa Francisco, nos dê a graça de sempre e cada vez mais compreender a vida humana na face da Terra, aqui posta em questão no seu sentido último, a partir de Francisco de Assis, a nos dizer que temos que ter força, no sentido colocar nossos valores e projeto de vida como um todo, acima dos nossos interesses, num grande mutirão de solidariedade em favor do planeta.

Portanto, diante do clamor e de gemido da natureza, à beira do abismo, a humanidade é chamada e não tem alternativa para evitar sua própria autodestruição, a não ser fazer sua parte, tendo na mente, nos olhos e no coração, a vida do planeta como algo sagrado, inspirados no sonho e na força desta figura humana, que abraçou o projeto de Deus Pai com uma comovedora ternura, tornando-se fascinado por Deus e por suas criaturas e foi exatamente este fascínio que o tornou extremamente humano.

Que a lição de otimismo, herança inestimável, deixada por Francisco de Assis, agora abraçada pelo papa, Servo dos Servos de Deus, nos encoraje no nosso desejo de edificar o reino, grande sonho do Pai.

Fonte: Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 24 de março de 2013.

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