"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2013-03-31

Para quem conhece a Cristo se acende uma luz inapagável





Trecho da Homilia de dom José Antonio Aparecido Tosi, Arcebispo Metropolitano de Fortaleza, na Solene Vigília Pascal, 30 de março de 2013.

Queridos irmãos e irmãs, chegamos ao máximo do mistério celebrado, a Vigília de Páscoa. Nós passamos com Cristo na sua sepultura e com ele ressuscitamos. Esta é a grande novidade que celebramos nesta noite, a grande novidade que temos para anunciar ao mundo. 

Bem sabemos que as novidades do mundo são superáveis, logo ficam desatualizadas e há necessidade de outras. A novidade da Ressurreição de Jesus, esta não passa, não envelhece, não perde sua atualidade, sua novidade. Ressuscitando Jesus tirou a nossa vida da realidade terrena, o lado de cá, e a levou para a realidade da vida divina, o lado de lá. Cristo uniu definitivamente  a nossa vida à vida de Deus.

A celebração desta noite é solene.  Ainda na parte externa começamos com a bênção do fogo para recordarmos que nós nascemos fora da Igreja, fora da filiação divina e fora da fé. O batismo, a luz do Espírito Santo nos enxertou em Cristo e nos congregou aos irmãos de fé, a Igreja. A luz do Círio Pascal é o símbolo de uma realidade da qual jamais podemos nos desfazer: para quem conhece a Cristo se acende uma luz inapagável. É a luz da fé em Cristo – e estamos no Ano da Fé – que nos faz conhecer o sentido de nossa vida, do mundo e de toda a Criação.  Depois do batismo toda a nossa vida passa a ser marcada definitivamente por Cristo.

Todas as leituras meditadas nesta noite solene nos ajudaram a percorrer a história que preparou a vinda do Salvador, a história da nossa salvação. Tudo o que meditamos nesta noite é ação concreta do Mistério a nos recordar as maravilhas de Deus. Por isso somos chamados a proclamar o novo. Este novo é a nossa vida transformada por Jesus Cristo.

Queridos irmãos e irmãs, não esqueçamos as maravilhas de Deus, as antigas e as novas e definitivas operadas em Jesus para a nossa felicidade. Eu desejo que todos saiam desta celebração ressuscitados em Cristo e que acolham definitivamente a novidade de Sua vida e de Seu Evangelho, nossa luz, nossa felicidade. Assim seja. 

Por: Antonio Marcos

2013-03-24

O papa quer um mundo mais franciscano




Geovane Saraiva, Padre da Arquidiocese de Fortaleza e pároco da Igreja de Santo Afonso.

O nosso querido papa Francisco, nas suas primeiras palavras encantadoras, “Os cardeais me buscaram dos confins do mundo”, e depois: “Quero uma Igreja pobre, para os pobres”, nos ajude a compreender que temos que optar por uma Igreja mais coerente com o Evangelho, na simplicidade e na ternura franciscana, num mundo que concentra e exclui, produz riqueza e miséria, constrói torres e palácios, em confronto com favelas, casebres, palafitas e mocambos.

Por isso, eu tinha razão quando escrevi em 2012, que toda civilização necessita figuras exemplares, modelo e referenciais, que mostrem concretamente ao mundo, os grandes sonhos e utopias, numa palavra, mostrem os valores últimos, no sentido de sustentar as motivações dos seres humanos, na sua relação e ação com seus semelhantes, com a natureza e o meio ambiente. Parece até que estava antevendo a novidade incomensurável, que foi chegada entre nós do papa Francisco, apresentando sinais evidentes de quem sonha com a renovação da Igreja, através de gestos e atitudes, vindos de corações sensibilizados e convertidos, uma Igreja pobre e servidora, no dizer de dom Helder Câmara.

E citava o Hartmut Koschyk, vice-ministro da Economia Alemã, que, ao visitar em 5/5/2012 a Basílica de São Francisco de Assis – Itália, pronunciou as seguintes palavras: “Seria melhor uma Europa mais franciscana”. Segundo aparece no site www.sanfrancesco.org, o vice-ministro alemão teria afirmado que “o pensamento franciscano é caracterizado pela fraternidade, bondade e solidariedade, virtudes que podem contribuir para uma nova ordem ética e econômica”.

Com o novo papa Francisco, somos chamados ainda mais a olhar para vida do pobrezinho de Assis, que não significou um abandono do mundo, do seu mundo de então, nas relações entre as pessoas; ao contrário, podemos ver na sua radical opção de vida, de um modo claro e explícito, uma dura crítica às forças dominantes do tempo por ele vivido, apontando para uma nova sociedade, baseada na solidariedade, com oportunidade para todos.

Francisco de Assis, na sua “loucura” por Deus e suas criaturas, iniciava uma nova forma de convívio humano, fazendo entender que qualquer privilégio em relação aos bens deste mundo, que são dons de Deus, só se justifica, quando se destina a favorecer os empobrecidos, indefesos, fracos e sofredores de toda sorte.

Lembrava também que o Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorando em 5 de junho, no mundo inteiro, nos faz pensar em um Francisco de Assis, que “chamava irmãos e irmãs as criaturas, mesmo as últimas, sabendo com clareza que todas e todos procediam de uma mesma e única fonte” – Deus. Daí na sua primeira relação com a natureza, ser não de domínio e posse, mas de fraterno e terno convívio.

Deus infinitamente bom, que nos deu o papa Francisco, nos dê a graça de sempre e cada vez mais compreender a vida humana na face da Terra, aqui posta em questão no seu sentido último, a partir de Francisco de Assis, a nos dizer que temos que ter força, no sentido colocar nossos valores e projeto de vida como um todo, acima dos nossos interesses, num grande mutirão de solidariedade em favor do planeta.

Portanto, diante do clamor e de gemido da natureza, à beira do abismo, a humanidade é chamada e não tem alternativa para evitar sua própria autodestruição, a não ser fazer sua parte, tendo na mente, nos olhos e no coração, a vida do planeta como algo sagrado, inspirados no sonho e na força desta figura humana, que abraçou o projeto de Deus Pai com uma comovedora ternura, tornando-se fascinado por Deus e por suas criaturas e foi exatamente este fascínio que o tornou extremamente humano.

Que a lição de otimismo, herança inestimável, deixada por Francisco de Assis, agora abraçada pelo papa, Servo dos Servos de Deus, nos encoraje no nosso desejo de edificar o reino, grande sonho do Pai.

Fonte: Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 24 de março de 2013.

2013-03-12

IGREJA: Simbologia do momento


A presença dos cardeais brasileiros no Pontifício Colégio Pio Brasileiro em Roma

Padre Geraldo Maia, sacerdote da Arquidiocese de Uberaba e doutorando em teologia.

A Igreja Católica vive um momento simbólico. A renúncia do Papa e a realização do Conclave, diante de desafios surpreendentes, sinalizam que não estamos em ritmo comum, ordinário. Penso que só daremos conta de interpretar satisfatoriamente este momento histórico com o passar dos anos, assim como acontece com os acontecimentos importantes da história.

Morar em Roma, mais especificamente no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, constitui uma graça especial. Além de ser ambiente para padres estudantes de pós-graduação em várias dimensões das ciências humanas e religiosas, por aqui passam muitos bispos e lideranças da Igreja. Nesses dias de preparação ao Conclave três dos cardeais eleitores do Brasil estão hospedados conosco. É interessante conviver com eles, observá-los, escutá-los. Tomamos refeições juntos e rezamos juntos. Numa noite dessas, eles se reuniram conosco, não para violarem o estado de silêncio a que estão submetidos, mas para dialogarmos de maneira fraterna. Naturalmente não expuseram conteúdos dos debates das Congregações gerais. Apresentaram-nos a repercussão dos acontecimentos eclesiais no Brasil e suas experiências no serviço prestado à Igreja. Pudemos também apresentar nossos questionamentos em busca de esclarecimentos. Assim, estamos tendo a oportunidade de sentir mais de perto a atmosfera dos preparativos para a escolha do novo Papa.

Sinalização sintomática é a presença de expressivo número de profissionais da imprensa mundial cadastrada para cobrir esses eventos. Há alguns dias falava-se em mais de cinco mil. Certamente esse número vem crescendo. O mundo inteiro está voltado para o Vaticano. Suspeito que nunca uma porta foi fechada diante de tantas câmaras como o foi no crepúsculo do dia 28 de fevereiro, em Castel Gandolfo. Não menor será o número de câmaras apontadas para a chaminé instalada nos telhados da Capela Sistina, na expectativa de capturar os primeiros sinais da fumaça branca que comunicará ao mundo a eleição do novo Papa. Dali essas câmaras terão seus focos dirigidos para a Loggia di San Pietro, o balcão da Basílica de São Pedro, no qual surgirá a figura do Pontífice eleito, ao anúncio do “Habemus papam”.

Pois bem, essa expressiva presença da mídia sinaliza que a Igreja não está convalescendo, muito menos morta, como profetas do mau agouro insistem em anunciar. A Igreja está viva! Portadora da mensagem evangélica, ela tem uma palavra importante para dirigir ao mundo. E este diálogo, assumido pelo Concílio Vaticano II, é imprescindível e inadiável. Este é o “diálogo da salvação”, como acentuava o papa Paulo VI, em favor do ser humano, travado com as várias denominações cristãs, com as diversas religiões e com os não-crentes; com o mundo das ciências, das filosofias e das variadas culturas; com a sociedade, a política e a economia. Todos esperam, ansiosos, não só a palavra de vida e de esperança, mas a capacidade acolhedora do saber escutar e de ser acolhido pela Mãe Igreja, que é, “como que sacramento universal de salvação” (LG 1).

Aqui na Europa atravessamos longo e rigoroso inverno. Eis que agora se despontam os primeiros sinais da primavera. Na aurora, os pássaros cantam alegremente saudando o tempo novo que se irrompe. As plantas começam a revestir-se com sua roupagem de festa e alegria, cobrindo, com folhas e flores, o despojamento da nudez invernal... Gradativamente, as temperaturas vão aumentando, tornando os dias menos frios e mais calorosos. Acolhemos estes sinais de esperança da mãe natureza para anunciar ao mundo que esta é nossa esperança para os tempos novos da Igreja. É a vida nova da Páscoa que já se desponta no horizonte próximo para delinear, no rosto do ser humano, o fascínio e a alegria de quem acolheu a salvação daquele que é o Encarnado-crucificado-ressuscitado, na ação do Espírito Santo que sopra onde quer.

Fonte: ZENIT.org - Roma, 11 de Março de 2013 

Contingência do desejo


"Quando se perde um amor, perde-se o desejo do outro por nós. Por isso é tão intensa a ferida narcísica", diz a Dra. Zenilce Vieira Bruno, psicóloga, sexóloga e pedagoga.

É paradoxal a ideia de escrever sobre o desejo, porque dele é dito que é algo sobre o qual não se sabe. Melhor dizendo, não sabemos o que desejamos. Mesmo assim, são muitas as falas sobre o tema e não se esgotam as peripécias linguísticas para esboçar essa face humana. Escrevemos e falamos sobre algo obscuro, sobre essa força intensa que move o espírito humano. A ânsia de escrever sobre isso corresponde à vontade de escrutinar em nós próprios os caminhos do que ainda não alcançamos, não experienciamos, numa fome de saber e sentir o que se esconde mais além do ponto até então conhecido, vivido, experimentado. Falamos da contingência do desejo. E é desse desejo que surgimos. Não somos filhos do necessário, mas do desejo.

Sob o signo do maravilhamento, nós enxergamos belos, grandes, fantásticos mesmo. Escutamos o discurso das estrelas, fazemos o gesto cósmico de apanhar a lua para oferecê-la ao ser amado como quem oferta algo muito além de si mesmo. Envelhecemos quando não somos mais capazes desses gestos, razão porque alguns adultos irritam-se com a mente enluarada dos adolescentes. Ante o universo enlouquecido de emoções desencadeadas, quando duas pessoas se buscam, se atraem, se tocam, se gostam, somos tentados a exercer controles. Interrogamo-nos quais os limites do permitido e do proibido nesse avanço de toques e descobertas inevitáveis. É preciso não impedir os gestos espontâneos do desenvolvimento, porque o importante não é tanto o que fazemos à pessoa, mas o que não lhe retiramos. O acerto em nós estará nessa capacidade de acompanhar o fenômeno da vida e evitar interferências desnecessárias.

Realizar o desejo implica tornar realidade aquilo que está na fantasia. Mas o fantástico é sempre muito maior que a realidade. O que o desejo humano deseja é possuir o desejo do outro, é ser desejado ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu valor humano. Por isso, quando se perde um amor, o que se perde mesmo é o desejo do outro por nós. Por isso também é tão intensa a ferida narcísica que a perda provoca. Desejamos porque não nos bastamos, porque uma agonia íntima de ser só quer alívio. Acuados, buscamos esse outro, um sujeito que também não se contém em sua inquietação desejante. É interminável o universo de reflexões que se pode tecer acerca do desejo, como intermináveis são suas expressões, como ilimitados são os objetos que tentam satisfazê-lo, como infinita é a ânsia do outro que ele provoca.

Fascina-me transpor o real para tentar encontrar dimensões mais reveladoras do humano. Talvez seja pouco útil meu discurso para quem busque apenas aplicações de ordem prática. Mas penso como Bachelar: “O homem é uma criação do desejo, não uma criação do necessário”. Gosto da emoção de cascavilhar a coisa simples, complexa e fantástica que é a descoberta do sexo e do amor como alquimia, algo misturado à vida, magia da sensação que dormita a nossa pele, no aguardo do nosso próprio acordar sensório-existencial. Fascina-me dizer que a sexualidade que se ensaia no adolescente, ou esta que vivemos como adulto, será plena, e plena em sua metáfora suprema: a sedução do outro, o encontro com seu mistério, sem jamais desvendá-lo.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 10 de março de 2013.