A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2013-02-27

CHOREI ESCUTANDO O PAPA


Frei Patrício Sciadini é integrante da Ordem Carmelita Descalça (OCD). Nasceu na Itália, mas foi por décadas diretor da OCD e OCDS (Seculares) da Região Sudeste do Brasil. Atualmente, dirige a Congregação da OCD sediada na capital Cairo, no Egito. Com estas palavras descreve seus sentimentos quanto ao discurso de despedida de Joseph Ratzinger, 85 anos - Bento XVI - como Sumo Pontífice da Igreja Católica.

Despedida de Bento XVI - Praça de São Pedro, 27 de fevereiro de 2013

Não sou fácil para chorar e nem para admiti-lo, mas não posso esconder que escutando o discurso de despedida do Papa Bento XVI, hoje na praça São Pedro, não consegui resistir em dar vazão aos sentimentos como tem feito o próprio papa. O seu discurso foi marcado por uma extrema simplicidade, doçura paterna de alguém que não vai embora, mas somente vai rezar para nós e deixa o lugar para alguém mais jovem, mais em forma para poder dirigir a barca de Pedro em tempos de bonança e em tempos de tempestades.

O papa disse palavras que não podem ser esquecidas: “Trago todos no coração e rezarei para todos. Um papa não está sozinho na condução da barca de Pedro... nunca me senti sozinho... sempre soube que naquela barca está o Senhor, a barca da Igreja não é minha... estou verdadeiramente comovido, sinto a Igreja viva e vocês que estão aqui nesta audiência são a prova da vida da Igreja... não fujo da cruz, vou permanecer no recinto de Deus, rezando... Rezemos pelo novo papa (...)”.

Palavras que não podemos esquecer; é um testamento espiritual, uma palavra de entusiasmo para cada um de nós, para caminharmos com amor, esperança e fé. O Papa Bento recordou o início do seu pontificado quando aceitou por amor a Deus e a Igreja; fez uma bela síntese do seu pontificado e nos convida a todos a olharmos com esperança para o futuro.

Obrigado novamente Papa Bento XVI, também nós cremos que a Igreja não é do papa nem dos cardeais nem de ninguém, ela é de Cristo e Ele vai guiá-la sempre em todos os momentos. Quero oferecer ao Santo Padre as minhas lágrimas de amizade filial e de pobre carmelita descalço para que todas as lágrimas do mundo fecundem o deserto em que vivemos.

Que Santa Teresinha nos envie do céu uma chuva de rosas e bênçãos.

Frei Patrício Sciadini, ocd. (Abuna Batrik – Nome que recebi aqui no Egito como delegado geral da Ordem Carmelita)

Fonte: Perfil pessoal no Facebook

2013-02-24

Subir ao monte não significa abandonar a Igreja



Papa Bento XVI na Oração do Ângelus, Palácio Apostólico, Vaticano, 24 de fevereiro de 2012

Queridos irmãos e irmãs!

No segundo domingo da Quaresma, a liturgia sempre nos apresenta o Evangelho da Transfiguração do Senhor. O evangelista Lucas coloca especial atenção no fato de que Jesus foi transfigurado enquanto orava: a sua é uma profunda experiência de relacionamento com o Pai durante uma espécie de retiro espiritual que Jesus vive em um alto monte na companhia de Pedro, Tiago e João, os três discípulos sempre presentes nos momentos da manifestação divina do Mestre (Lc 5,10; 8,51; 9,28).

O Senhor, que pouco antes havia predito a sua morte e ressurreição (9,22), oferece a seus discípulos uma antecipação da sua glória. E também na Transfiguração, como no batismo, ouvimos a voz do Pai Celestial: "Este é o meu filho, o eleito; ouvi-o" (9, 35). A presença de Moisés e Elias, representando a Lei e os Profetas da Antiga Aliança, é muito significativa: toda a história da Aliança está focada Nele, o Cristo, que faz um novo "êxodo" (9,31), não para a terra prometida, como no tempo de Moisés, mas para o céu. A intervenção de Pedro: "Mestre, é bom para nós estarmos aqui" (9,33) representa a tentativa impossível de parar esta experiência mística. Santo Agostinho diz: "[Pedro] ... no monte... tinha Cristo como alimento da alma. Por que deveria descer para voltar aos trabalhos e dores, enquanto lá encima estava cheio de sentimentos de santo amor por Deus e que inspiravam-lhe uma santa conduta? "(Sermão 78,3).

Meditando sobre esta passagem do Evangelho, podemos tirar um ensinamento muito importante. Primeiro, o primado da oração, sem a qual todo o trabalho do apostolado e da caridade é reduzido ao ativismo. Na Quaresma aprendemos a dar o justo tempo à oração, pessoal e comunitária, que dá fôlego à nossa vida espiritual. Além disso, a oração não é um isolar-se do mundo e das suas contradições, como Pedro quis fazer no Tabor, mas a oração traz de volta para o caminho, para a ação. "A existência cristã - escrevi na Mensagem para esta Quaresma – consiste num contínuo subir o monte do encontro com Deus, para depois descer trazendo o amor e a força que provém dele, a fim de servir os nossos irmãos e irmãs com o mesmo amor de Deus "(n. 3).

Queridos irmãos e irmãs, sinto essa Palavra de Deus especialmente dirigida a mim, neste momento da minha vida. O Senhor me chama para “subir o monte”, para me dedicar ainda mais à oração e à meditação. Mas isto não significa abandonar a Igreja, pelo contrário, se Deus me pede isso é para que eu a possa continuar servindo com a mesma dedicação e o mesmo amor com o qual fiz até hoje, mas de um modo mais adequado à minha idade e às minhas forças. Invoquemos a intercessão da Virgem Maria: que ela sempre nos ajude a seguir o Senhor Jesus, na oração e nas obras de caridade.

Saudação do Papa aos peregrinos de língua portuguesa:

Queridos peregrinos de língua portuguesa que viestes rezar comigo o Angelus: obrigado pela vossa presença e todas as manifestações de afeto e solidariedade, em particular pelas orações com que me estais acompanhando nestes dias. Que o bom Deus vos cumule de todas as bênçãos.

Fonte: ZENIT.org

2013-02-21

Não produza provas contra você



Erika de Souza – Editora

Não se trata de provas criminais, mas de provas que, num momento ou outro, podem ser usadas contra você.

Faz parte da sabedoria popular, o “peixe morre pela boca”, e é por ela que muitos têm produzido conceitos e ideias ao próprio respeito que, em dada circunstância, poderão se voltar contra si mesmos. Por isso, fale um pouco menos, não saia por aí contando os seus apertos para todo mundo como se todo mundo, realmente, se importasse.

O desabafo, mesmo sendo um grande método de aliviar suas tensões, tem que ser comedido, cauteloso, prudente. As ideias que povoam sua mente podem se transformar em verdadeiras armas contra você. Então, organize-as antes de falar com alguém. Defina, com coerência, as pessoas com quem realmente você pode contar, pois muitas só se aproximam movidas por nada mais do que uma intensa e fútil curiosidade. Envolvidas por tais características, não vão ver grandes problemas em falar de você para quantas pessoas desejarem.

Entre esses “ouvintes”, não se iluda, há muitos que não dão a mínima para o seu bem-estar. Exercite o autocontrole e tente fazer uso mais frequente da razão que, apesar de parecer fria, tem grande potencial de poupá-lo de muitas e desnecessárias frustrações. Faça melhor uso de sua emoção, utilizando-a para ajudar o próximo, e não para falar desmedidamente com alguém em quem, sem fundamentos concretos, você pensa que pode confiar seu segredo, sua história, suas faltas.

Antes de falar de sua vida, lembre-se de que ela é um bem preciosíssimo e, como tal, não é prudente deixá-la exposta a ações de pessoas que desconhecem qualquer conceito simples de respeito e limite. Veja a vida sempre com bons olhos e não confunda a prudência com atitudes de impiedade, pouco caso e amargura. Achar que pode contar para todo mundo que você não está feliz sem sair profundamente machucado é, simplesmente, ingenuidade.

Mas cuidado, não generalize, ainda há, graças a Deus, muita gente boa, de bom coração e pronta para receber suas queixas de forma carinhosa, com largueza e uma boa dose de boa vontade. A essas não fale, apenas permita-se ouvi-las quando estiverem necessitadas e, assim como elas, abra bem o seu coração, pois pessoas assim são como tesouros de alto valor que devem ser muito bem-guardados e protegidos.

Fonte: Jornal O Estado – CE (Opinião), Fortaleza, 21 de fevereiro de 2013.(Grifo é nosso)

2013-02-13

Quaresma: Misericórdia e compreensão com os outros



 
Mons. Vitaliano Mattioli – Diocese do Crato

Dentre todas as solenidades cristãs o primeiro lugar é ocupado pelo mistério pascal. Devemos nos preparar para vivê-lo convenientemente.  É por isso que foi instituída a quaresma, um tempo de quarenta dias  para chegar  dignamente  à celebração do tríduo pascal.

A quaresma, como pratica obrigatória,  foi instituída no IV século.  Mas desde sempre os cristãos se preparavam para a Páscoa com uma oração intensa, jejum e penitência.  O número de quarenta dias tem um significado simbólico-bíblico: quarenta são os dias do dilúvio, da permanência de Moisés no monte Sinai, das tentações de Jesus.

Na verdade, se a quaresma é um tempo privilegiado para o nosso aperfeiçoamento, toda a nossa vida de cristãos deve  ser vivida como esforço para adquirir as virtudes e lutar contra o inimigo, o diabo. Já o apóstolo Pedro exortava os cristãos: “Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, fortes na fé” (I Pd., 5, 8-9a).

Este combate é um combate interior. O papa Leão Magno (440-461) numa sua pregação, disse: “É agora que os nossos corações devem se mover com maior fervor para a perfeição espiritual... Muitos combates acontecem dentro  de nós mesmos, os desejos da carne se opõem aos do espírito, e os do espírito aos da carne... Mas, aquele que está em nós é mais forte do que aquele que está contra nós”. O mesmo Papa, noutra homilia: “A quaresma é tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro. Convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossa vontade e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a Deus”.

A nossa vida está posta no meio das dificuldades e dos combates; se quisermos ser vencedores, é preciso combater. É por isso que precisa uma oração intensa e contínua.  Uma oração não limitada às praticas de oração, mas entendida como uma vida de profunda intimidade com o Deus Trindade que mora dentro de nós.  Um Autor do IV sec., o Pseudo-Crisóstomo, escreveu: “Não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas é preciso conservar sempre vivo o desejo e a lembrança de Deus. A oração é a luz da alma, alegra a alma e tranquiliza o coração”.

O jejum  é fundamental para a nossa purificação. Mas o fim não é tanto a abstinência das comidas,  quanto dos vícios. Ainda nos exorta o  papa Leão Magno: “Mortifiquemos um pouco o homem exterior para que o interior seja restaurado; perdendo um pouco do excesso corpóreo, o espírito robustece-se”.  É inútil o jejum se não se praticam as virtudes. Cuidados para não cair na repreensão de Deus feita pelo profeta Isaías  (58, 1-10)... Precisa cumprir a prescrição que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias; não somente reduzindo os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado... O sentido do jejum não reside somente na abstenção dos alimentos. Esta traz proveito se o coração se afasta da iniquidade e a língua se abstenha da calúnia e se pratica a mansidão e paciência... O jejum tem por objetivo suprimir os desejos corporais e ações desordenadas”.

O bispo São Pedro Crisólogo escreveu: “Homem, oferece a Deus a tua alma, oferece a oblação do jejum, para que seja uma oferenda pura, um sacrifício santo”.

Mas tudo isso não está completo se não se adianta um terceiro elemento: a penitência, no sentido de ter misericórdia e compreensão com os outros.  Por isso, São Pedro Crisólogo adianta: “Para que esta oferta seja aceita a Deus, deve acompanhá-la a misericórdia; o jejum só dá frutos se for regado pela misericórdia, pois a aridez da misericórdia faz secar o jejum”.

Entremos com muita alegria e boa vontade na quaresma de 2013 no dia 13 de fevereiro, mas lembremos que toda a nossa vida deve ter uma dimensão penitencial.

Fonte: ZENIT.Org - Crato, 12 de Fevereiro de 2013. (O grifo é nosso).

Continuem a rezar por mim, pela Igreja, pelo futuro Papa, que nos guiará




Palavras improvisadas do Santo Padre antes de começar a tradicional catequese da quarta-feira, 13 de fevereiro, na sua primeira aparição pública após anunciar a decisão pessoal de sua renúncia:

"Queridos irmãos e irmãs,

Como vocês sabem, decidi [aplausos]... Obrigado pela sua simpatia, decidi renunciar ao ministério que o Senhor me confiou no dia 19 de abril de 2005. Fiz isso com plena liberdade para o bem da Igreja, depois de ter rezado bastante e de ter examinado diante de Deus a minha consciência, bem consciente da gravidade de tal ato, mas bem consciente de não estar mais em condições de exercer o ministério petrino com aquela força que se requer. Me apoia e me ilumina a certeza de que a Igreja é de Cristo, o qual não a deixará nunca sem o seu guia e cuidado. Agradeço a todos pelo amor e a oração com que me acompanham. Obrigado, senti quase que fisicamente nestes dias, não fáceis para mim, a força da oração que o amor da Igreja, a oração de vocês, me traz. Continuem a rezar por mim, pela Igreja, pelo futuro Papa, que nos guiará”.


Fonte e tradução:
ZENIT.Org – Cidade do Vaticano (Foto: AFP)

2013-02-12

Pensando nos meus passos de vida e fé



Hoje eu acordei pensando na Igreja, pensando no papa Bento XVI, na sua atitude humilde e corajosa, na "loucura" de que só o amor é capaz de fazer: despojar-se, descer para permanecer apenas com a vontade de Deus, abaixar-se como sinal de que tudo passa e só Deus deve ser a razão e o sentido de nossas escolhas, custe o que custar. Acordei pensando nos desafios do mundo hodierno,  na sua corrida desesperada pela fama e poder, na lei ordinária do "tudo pode" se for para o benefício pessoal. Mas acordei pensando também, sobretudo, na providência de Deus que tudo faz concorrer para o bem dos que O amam.  E senti se fortalecer em mim a certeza de que Deus continua a nos conceder o seu Espírito Santo, inspirador e condutor dos passos e da missão da Igreja, nossa Mãe e Mestra na verdade. Portanto, não há motivos para alardes e medos, mas para reforçarmos o nosso espírito de comunhão eclesial, de oração e de fé. Nessas horas eu percebo de forma mais expressiva o quanto o corpo da Igreja necessita de Pedro, e é bem verdade que não queremos continuar sem ele. Deus nos dará um novo pastor segundo o seu coração porque o que nos acontece também é obra d’Ele, diz a nossa fé. Continuo pensando na Igreja e pensando nos meus passos de vida e fé, no que realmente deve contornar a minha vida. Os fatos me questionam a buscar o essencial, a viver a minha fé com coerência e compromisso de conversão e configuraçao a Jesus Cristo. “À Mãe de Deus, proclamada ‘feliz porque acreditou’ (cf. Lc 1,45), confiamos este tempo de graça”, assim encerra o Santo Padre a Carta PORTA FIDEI, assim meu coração se entrega confiante em seu poder intercessor. 

Antonio Marcos

2013-02-11

Eterna gratidão ao papa Bento XVI



A notícia da renúncia do Santo Padre, anunciada por ele para o dia 28 de fevereiro, surpreendeu a todos, sem dúvidas, sobretudo a Igreja do Brasil que o esperava aqui para celebrar a JMJ nos próximos meses. O carinho e o amor que a Juventude do Brasil criou por Bento XVI já era de tal modo sem medidas. Porém, apesar dessa notícia inesperada, somos pessoas de fé, confiamos em Deus e na sua providência.

Particularmente achei um ato de muita coragem e humildade de Bento XVI, que reconheceu diante de Deus que suas forças estavam minguando e já não era possível continuar à frente da Barca de Pedro. Os desafios são enormes e o papa precisa de disposições mentais, espirituais e também físicas. No final do pontificado de João Paulo II, Beato, a Igreja e o mundo se surpreenderam por sua decisão de viver o pontificado no seu direito vitalício, pois estava lúcido e consciente da missão. Bento XVI, amparado pela Lei Canônica, e dentro do mais sincero ato de liberdade e consciência, toma a decisão de renunciar.

Bento XVI deixou bem claro na sua carta de renúncia da gravidade da decisão, mas a toma com a graça de Deus pelo bem da Igreja e da missão do Evangelho. O papa Ratzinger é profeta de nossos dias e tem consciência que o “homem não é o autor da própria vocação”, mas qualquer chamado para servir ao povo é dom de Deus. No seu livro-entrevista com Peter Seewald, 2011, deixou claro admitir que em “algum momento em que o pontífice se encontrar sem condições físicas, mentais e espirituais de exercer o encargo que lhe foi confiado, tem o direito e o dever de pedir demissão” (Capítulo 2).

Minha gratidão ao papa Bento XVI que também foi até o fim na sua missão porque Deus é quem sabe a hora do início e do término. Sua coragem, profecia, amor, doação, sabedoria e humildade marcaram a vida da Igreja e a minha particularmente. Renunciar o pontificado consciente de que Deus é o autor da vocação e que lhe confere permissão e graça, isso é o suficiente pra gente ficar consolado, não obstante a dor. Minhas orações! Deus é fiel. Eterna gratidão ao papa Bento XVI.

Antonio Marcos

2013-02-02

Bendita espada a atravessar nossa vida


O mistério celebrado neste dia, sábado, 02 de fevereiro, a Igreja o chama de APRESENTAÇÃO DO SENHOR, exatamente como está no texto bíblico de São Lucas 2, 22-40. José e Maria levam o seu primogênito para consagrá-lo a Deus no Templo, para ofertá-lo como manda a lei do Senhor. E para isso levam um par de rolas e dois pombinhos, sinais da vida humilde, das poucas condições que tinha a família de Nazaré. Do ato litúrgico judaico podemos extrair diversos significados pela sua riqueza teológica e simbólica. Na verdade há como que uma manifestação do desígnio de Deus para aquele Menino. O coração humano, por mais virtuoso que seja, só pode alcançar tal desígnio mediante a fé.

A figura de Simeão e Ana, ambos dedicados ao serviço do Templo e que aguardavam a contemplação do Salvador, conforme a esperança e a fé nas revelações de Deus, é parte constitutiva para a riqueza de compreensão do desígnio de Deus, como assim atestam as palavras cheias de força e profecia que saem da boca de Simeão: “Agora, Senhor meu, segundo tua palavra, deixas livre e em paz teu servo; porque meus olhos viram teu Salvador, que dispuseste diante de todos os povos como luz revelada aos pagãos e como glória ao teu povo Israel” (Lc 2, 29-32).  E, olhando para Maria, continua a deixar o Espírito Santo falar:  “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (Lc 21, 34-35).

Eis o mistério: este menino é Deus, traz consigo um desígnio de salvação e para realizá-lo será necessário fazer eclodir tudo aquilo que não é luz, não é vida, não é salvação. Também é este o mistério do seguimento a Cristo mediante o santo Batismo e a vocação específica à vida consagrada, celebrada pela Igreja neste dia. Quando Deus nos chama a uma missão de salvação, tudo o que não é luz em nós precisa eclodir. A fé cristã – e hoje mais do que nunca – também faz abrir uma fenda no coração. Bendita espada a atravessar nossa vida para que o desígnio de Deus prevaleça. Que a fé operante que alimentou a vida de Simeão e Ana e que  sustentou José e Maria diante da perseguição, possa sempre ser a força e o segredo de nossa vida, vocação e missão.

Antonio Marcos

2013-02-01

Aprendendo com Platão


Quando Platão pensou o Estado dentro da sua obra “A República”, fecundou o imaginário com a utopia de uma cidade ideal, “possível” e feliz. Para isso destacou a mais importante de suas engrenagens, as virtudes éticas, a saber: a prudência ou sabedoria dos governantes, a coragem dos soldados e a temperança dos artesãos. Para o pensador tais virtudes precisam ser conhecidas e praticadas. Hoje se fala de ética e moral, de honra aos princípios democráticos e de honestidade diante da consciência pessoal e coletiva, porém, lamenta-se o descrédito a essas virtudes e a forma como vamos caminhando à insensibilidade para com os valores fundamentais. A lei do mais forte, do despudor ético e da banalidade dos valores parece prevalecer em detrimento do que se aprendeu na esfera do bem e do bom. 

Particularmente fico chocado em não perceber as mínimas reações de constrangimento em muitos quando as ações e as decisões feriram a consciência, o senso comum e a democracia. Platão entendeu bem que a estrutura do Estado se assemelha à estrutura do interior humano, pois a deficiência nas virtudes aqui em destaque é sinal da debilidade da alma. Daí que o pensador coloca a justiça como elo de harmonia entre todas as virtudes. Mas a justiça deve ser buscada não fora, mas dentro do homem. É a viagem ao interior que leva o homem ao núcleo fundamental da existência de qualquer ação ou virtude, o Bem, ou, a ideia de absoluto como pensou Platão. É ele, o Bem, e somente ele que pode capacitar o homem para conduzir com retidão a pólis, o Estado e a alma humana. 

Esta pequena reflexão maturada nesses dias me gerou tais linhas não apenas filosóficas, mas linhas de fé, linhas teologais, ou existenciais, porque me possibilitaram pensar naquilo que tem sido manifestado e reclamado pelo coração, seja de uma vida comum ou de uma vida em destaque na sociedade e instituições democráticas: o vazio de sentido, de valores e da consciência do Bem. Não vivemos uma crise de fé, muito menos de capacidade humana, mas a loucura  de não buscar o Bem Supremo como mestre de nossas ações e decisões, de não fazer a viagem interior cada dia e em cada contexto. É  ainda a loucura de querer crer desconsiderando suas implicações de vida e salvação.

Antonio Marcos