"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2012-11-19

Essa tal solidão



Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga.

Em plena explosão das redes sociais e das facilidades dos contatos físicos, emocionais e sociais, o que mais escuto é o lamento de que seu mal é a solidão. Que ficar só dói, fere, humilha, incomoda, abate a autoestima. Afinal ter alguém com quem partilhar a vida é, inegavelmente, muito bom. Só que, existem algumas parcerias em que se fica verdadeiramente solitário, sem trocas, sem comunhão, e onde se instala uma “solidão a dois”. Há parceiros que apenas emprestam seus corpos a um gozo tão econômico de afeto, que nem deixa saudades para um próximo contato. Há ainda outros pares que se maltratam, desrespeitam-se, e até se destroem. Pouco se lembra de que é possível partilhar algo de si, da vida, de modo muito agradável, simplesmente com uma pessoa amiga. É preciso desfazer o mito de que a solidão só se quebra tendo uma parceria dita “amorosa”.

Na verdade o sentimento de solidão fica intolerável quando o outro não nos alcança, não quer, não pode nos ouvir, ou não entende o que queremos dizer, seja de dor ou de alegria. Ou quando nós mesmos não sabemos fazer isso, não sabemos nos escutar, acolher-nos, considerar-nos. Somos uma cultura sem esse exercício de partilha e escuta.

Estudos atuais vem ressignificando à solidão, ao apontar as dimensões positivas que a experiência pode guardar. Não se trata necessariamente de uma situação desesperada e sofrida. “A solidão não é um tempo de abandono”, diz Phillis Hobe, “É, ou pode ser um tempo de ser ou tornar-se”. Pode ser, portanto, um lugar de confronto e de conforto, de diagnóstico e de cura. Os nossos acontecimentos interiores merecem todo o nosso afeto. Neste sentido também, a solidão torna-se uma aventura e até serve para nos lembrar de nosso destino relacional, nossa vontade de buscar o outro. Isso é diferente do isolamento em que nos colocamos, às vezes, de modo ofensivo.

Para Amparo Caridade, a solidão negativa é a marca do divórcio entre o indivíduo e sua própria existência. Enquanto expressão de insuficiência, ela emerge em meio às frustrações por falta de satisfação nos diversos campos da vida privada e coletiva. A capacidade de o indivíduo ficar só é um dos maiores sinais de amadurecimento emocional. Ter a capacidade de estar sozinho, refletir e deliberar sozinho, é inevitável e necessário para nos mantermos como seres singulares, como sujeitos morais, e em última instância como sujeitos políticos.

Solidão faz mal? Não. Se dela fizermos o caminho de crescimento e singularidade pessoal. Se for vista como condição humana, não como condenação, pode ser nosso lugar de construção e amadurecimento. Existencialmente falando, a questão vai mais além. Na verdade, nem temos como escapar da solidão, se nos permitirmos amadurecer, se nos permitirmos experienciar a falta de respostas às nossas indagações e aos nossos anseios. Ficamos assim, muitas vezes de mãos vazias, na solidão da falta de respostas porque, em última análise, sobretudo para o essencial, estamos sós. O essencial tem uma fundura própria, que só se alcança numa proximidade muito especial com o próprio eu. Isso se alcança na solidão. Na bendita solidão.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 18 de novembro de 2012.

Os avessos do perdão, entre a razão e a cura



Samuel Vagner,  pastor na Comunidade Cristã Videira.

A decepção com o melhor amigo, a traição de um irmão e o adultério de um cônjuge são apenas algumas das mais difíceis situações em que podemos nos deparar. O desafio de liberar perdão, ao invés de abrigar a mágoa. Esquecer a dívida, ao invés de cobrar a questão.

Ser traído pelas pessoas em quem você mais confia, certamente é algo que ninguém deseja passar. Mas é algo que fatalmente acontece ao menos uma vez no decorrer de nossas vidas. Quantas vezes nos vemos passando por situações em que a razão é nossa e cheios de justiça própria queremos agir com arrogância e fúria, negando ao outro o direito do perdão, tentando assim atormentá-lo eternamente por um erro cometido, mas que o acusado por diversas vezes até já se arrependeu.

De acordo com a profundidade do amor que sentimos pela pessoa, mais profunda ainda será a intensidade da dor que sentiremos no caso de uma traição. Se não for bem administrada ela causa danos ainda maiores comprometendo toda uma vida. Pais e filhos que não se falam. Irmãos que se tornam verdadeiros inimigos e melhores amigos que se transformam em concorrentes que dariam tudo para ver o fim e o mal daqueles que um dia foram tão próximos.

Imagino que enquanto você lê esses relatos, involuntariamente deve recordar de alguma situação parecida que você enfrentou ou quem sabe está enfrentando. Nomes aparecem em letras garrafais na sua mente, histórias são relembradas e quem sabe até recorde as noites que passou em claro sem acreditar na traição que estava vivendo. Algumas pessoas se revoltam a tal ponto, que não sossegam enquanto não materializam esses sentimentos negativos através de uma das ações que a mágoa provoca - a prática covarde e inútil da vingança.

O fato é que uma vez que se escolhe seguir pelo caminho dessas atitudes vingativas, se entra em uma montanha- russa de sentimentos que não vai nos levar a lugar algum, a não ser ao fundo do poço. Pois enquanto fomos traídos, a culpa repousa apenas sobre os nossos ofensores. Mas a partir do momento em que nos vingamos, nos assemelhamos a eles e diante de Deus e dos homens nos tornamos réus do mesmo pecado.

O livro de Provérbios traz verdades assustadoras acerca do que as manutenções desses sentimentos nocivos podem causar ao coração humano. Ele nos mostra que um sentimento não curado em uma situação de mágoa não resolvida, pode até se materializar desenvolvendo doenças em nosso corpo físico.

A falta de perdão é uma das principais causadoras de tristeza e doenças psicológicas, psíquicas e físicas nos seres humanos. Ela nos impede de ver o lado bom da vida, voltando os nossos olhos para algo ruim que aconteceu e nos prende a um passado que já se foi. Acabamos então por alimentar o ressentimento que é, em outras palavras, apertar repetidas vezes o botão replay do controle remoto da nossa história.

Mas a pergunta que não quer calar é: - Como agir diante de uma traição? -Como se livrar do peso dessa dor que corrói os nossos ossos? É quase que óbvia a atitude que um ofendido deve tomar após o acontecimento de tais fatalidades, das quais nenhum de nós está imune. Somos instruídos através da Bíblia que já há tanto tempo foi escrita a agirmos de acordo com o ensino eternizado em um dos pilares morais por Cristo proferido: A Oração do Pai Nosso...

Em que num determinado momento da oração, Jesus desafia o orador a receber perdão de acordo com a sua capacidade própria para perdoar. Ele diz: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” Mateus 6 : 12,14 e 15.

E chegando a esse ponto, já fica explicito que o perdão é uma característica comum na vida de pessoas que foram perdoadas. Afinal, se você já foi traído, eu lhe desafio a refletir acerca de algum momento da sua história em que você se viu em algum relacionamento em que você não foi o correto.

Se ficamos tão revoltados ao sermos rejeitados, porque não tentamos recordar algum amigo que também foi tão importante em nossa vida, e em um momento de necessidade em que ele mais precisou de nós, da mesma maneira o abandonamos por estarmos ocupados demais com os nossos próprios problemas?

Como ofendidos, sempre guardamos a mágoa, como a prova de que fomos feridos. E tentamos explicar as nossas razões lançando aos quatro ventos a situação na qual fomos prejudicados, esquecendo que toda história possui no mínimo três versões. Que são a versão do ofensor, a versão do ofendido e a versão de Deus que é o único que vai até a profundidade das juntas e medulas e pela sua palavra discerne os pensamentos e as intenções do coração.

Coloque em uma balança o erro daqueles que você acusa e ao olhar para trás perceba os erros que Deus apagou da sua história, pagando as suas dívidas e perdoando todos os seus pecados. Os avessos do perdão sempre serão colocados em questão durante a nossa vida.

Liberar perdão não é uma alternativa e sim uma obrigação na vida de todo aquele que também teve seus pecados perdoados e seus erros passados esquecidos. “O perdão é como a cicatriz de uma queimadura. Lembramos como fomos queimados, porém ao olharmos para ela não sentimos mais dor alguma.”

Se diante de tudo o que você acaba de ler, já chegou à conclusão de que vai perdoar quem lhe traiu, decepcionou ou ofendeu...

Parabéns... Você fez a escolha certa!

Fonte: Jornal O Povo (Espiritualidade). Fortaleza, 18 de novembro de 2012.