2012-09-12

A dor do homem é também a dor do cristão



A gente escuta, assiste, presencia os fatos dramáticos de nossa cidade e do estado, do país e do mundo e fica como que chocado, triste, pensativo e muitas vezes temeroso, cheio de interrogações. A violência ecoa nos quatro cantos do mundo, a sedução do crime parece um muro intransponível e a sensação de uma terra sem lei, ou com tantas leis, mas com uma capacidade de eficácia praticamente estéril, com uma banalidade da vida em tons de crueldade como nunca se viu antes, nem mesmo em épocas bizarras, fazem com que nos sintamos impactados pela barbárie social. Pelo menos é a sensação que tenho.

Enquanto isso, aqui dentro de nós há uma luta desproporcional - pelos menos é o que acontece naqueles que ainda não perderam a sensibilidade diante da dor do próximo e do mundo - para não cedermos ao pessimismo ou, pior ainda, ao faz de conta de que nada diz respeito ao eu individual. Infelizmente, é assim que acontece em muitos de nós: lavamos as mãos pela indiferença ou pela revolta estéril. Vivemos uma crise antropológica, crise de valores, de fé, de "engajamento nos ideais de altruísmo", como pensava o filósofo Emanuel Mounier na sua luta para encontrar o equilíbrio de um existencialismo cristão frente aos extremos do marxismo e do existencialismo ateu de Sartre, que dizia: "Temos de abolir a necessidade religiosa, que já não convém ao nosso tempo. Temos de deixar de lado a busca de Deus, temos que 'esquecer' Deus". Na verdade, vemos um "raio X" no pensamento do filósofo Heidegger: "Sem Deus esta nossa geração perambula na noite e como que reside no inferno".

O mais impactante e convincente é mesmo o pensar da Igreja quando não apenas emite um diagnóstico, mas se declara compromissada com o homem: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes, 1, Concílio Vaticano II). A dor do homem é também a dor do cristão. Uma das mais belas declarações desta compreensão tem sido dita por Moysés Azevedo, fundador da Comunidade Católica Shalom: "Quanto mais me aproximava de Deus pela oração, mais me sentia impulsionado a dedicar-me aos outros. Na medida em que crescia em minha intimidade com Deus, ia descobrindo que o sofrimento da humanidade não era algo distante de mim" (Escritos Shalom, Carta à Comunidade 2005, n. 130).

Os sofrimentos presentes são desconcertantes, sem dúvida, mas, como cristãos, não temos o direito de desertar, não faz parte de nossa identidade e missão. Necessário e vital é a construção de uma cultura de paz e de solidariedade, sobretudo uma campanha de engajamento pela propagação da semente da vida, o Evangelho, tornando assim a pessoa de Jesus conhecida e amada, um compromisso de todos os cristãos, afinal, diz o apóstolo: "A criação anseia pela manifestação dos filhos de Deus" (Rm 8,19).

Os dramáticos contextos não podem nos desanimar, não devem ser ocasião de covardia. O Bem é mais forte do que o Mal, o Amor venceu a morte. Mas o bem e o amor precisam ser concretos em nossas vidas. Deus não nos deixou entregues às nossas próprias mãos, mas, pela fé operante caminhamos na Sua providência. Ele, o Vivente, está conosco, por isso temos "a grande esperança" e o antídoto para toda esta barbárie, como nos ensina Bento XVI (Spe Salvis). Deus nos ajude sempre! Assim seja.

Marcos de Aquino

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