"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2012-08-31

A dança: expressão mais genuína da alegria humana


O filósofo Nietzsche chegou a afirmar que “deveríamos considerar perdido o dia em que não dançamos nenhuma vez”. Este pensamento pode parecer estranho, especialmente para alguém tão atormentado como Nietzsche. No entanto, muitos daqueles que se aproximam do abismo da existência se elevaram antes a alturas esplêndidas.

A dança talvez seja a expressão mais genuína da alegria humana. Na verdade, nas tribos antigas, se dançava para evocar espíritos, atrair a chuva e também preparar o terreno para uma caçada.

Os estudos atuais de terapia pela dança demonstram que essa atividade, em qualquer de suas formas, tem várias aplicações curativas:
  • Ao dançar, aumentamos a consciência do próprio corpo e entendemos melhor como ele se relaciona com as outras;
  • A dança ativa a espontaneidade e a confiança em si mesmo. É especialmente indicada para pessoas tímidas, pois serve como uma forma alternativa de comunicação.
  • A dança nos permite conhecer nossos sentimentos ao expressá-los como movimento no espaço.
Fonte: Nietzsche para estressados, 2011.

2012-08-29

Que a verdade nos salve no amor!


A celebração do martírio do profeta João Batista, como consequência da sua coragem em escolher a verdade e denunciar a mentira, é ocasião que proporciona reflexão salutar, salvífica. Todos nós, de alguma forma, sabemos por experiência pessoal o preço da escolha da verdade e as conseqüências quando a mentira e a hipocrisia nos sufocam, ou nos roubam a liberdade, a felicidade e até ideais, pessoas e sentimentos.

O “crime não compensa” por mais que ele seja sedutor, esta é a verdade. Se a correção fraterna é um desafio hoje, muito mais a “denúncia”. Novas vidas continuam sendo ceifadas porque as trevas reagem diante da luz que a denunciam. Uma vida virtuosa, um testemunho de retidão, honestidade, de palavra dada e de vida coerente é, para muitas consciências inebriadas pelo mal, como que uma das piores ameaças. A verdade tem sua cadência, sua força, seu tempo, seu ritmo... porém, ela cumpre sua missão, ainda que não vejamos os resultados, ou os mesmos aparentem apenas resultados negativos, querendo assim nos convencer de que talvez “seja a verdade a não compensar”, o que não é verdade. Infelizmente o contexto social, sobretudo na política brasileira e em todos os meios envolvidos na corrupção e nos escândalos éticos e morais, a sensação é mesmo a de que a mentira vai deixando de ser vergonhosa. Perde-se qualquer estranheza com a falta de honra diante de si mesmo e da sociedade. Isto é lamentável e um abismo profundo.

Também a nossa consciência nos denuncia, como a vida dos que nos cercam, mesmo quando silenciosa. Não vale a pena viver na mentira! Nunca valerá! A mentira tem um preço e suas consequências podem sem irrevogáveis.  Deus não exige mudança de vida como “mágica”, mas nos convida e nos conquista cada dia a darmos passos, razão e fé, para a conversão. Esta é a nossa felicidade: caminhar para a luz da verdade, não obstante nossas resistências, trevas e quedas. É preciso se deixar atrair pela verdade, ainda que ela nos chegue em forma de denúncia de nossas trevas. Que a verdade nos salve no amor!

Marcos de Aquino

2012-08-22

Quando terminamos é então que Deus começa!


“Eis que faço uma obra nova, não a vedes?” (Is 43,19), diz o Senhor na Sua Palavra. Obra generosa a do seu amor quando cremos e nos dispomos à sua graça, não obstante nossas fraquezas e miopias do coração e da alma para enxergar. Na verdade a fé nos concede além de alegria, uma nova visão da realidade sobre nós e sobre os contextos que nos cercam. É fato que nem sempre compreendemos o percurso da graça de Deus no fio de nossa história pessoal, mas cremos e provamos que há um desígnio, o que não nos permite pensar que seja um determinismo, podendo ainda gerar acomodação ou imaginar que Deus seja um mágico, não, Deus leva em conta nossas decisões porque respeita incondicionalmente nossa liberdade, reconhece conosco nossas ruínas, ajuda-nos a perceber onde caímos e fracassamos, mas não o faz como juiz, mas como Deus, como Aquele que é todo amor e misericórdia. O amor pede a coragem de reerguimento e estimula a uma determinada determinação. É isso o que mais importa. A graça de Deus faz novas todas as coisas, junta os pedaços da vida, refaz a obra que arruinou e dá continuidade ao projeto inacabado. Faço memória de muitas pessoas que me falam de suas ruínas, sobretudo no amor, no casamento, na família, nos negócios, nos projetos de realização e felicidade. Não é fácil, nós o sabemos, mas a maior infelicidade é não acreditarmos nas novas oportunidades. Na prática, quando se quebra um vaso a gente o joga fora, mas sua simbologia na vida humana e espiritual é diferente, comporta a certeza absoluta de que Deus não nos criou para a infelicidade e é sempre o primeiro a recomeçar conosco. Sua graça pode nos reconstruir! É isto que diz sua Palavra: “Quando terminamos é então que Ele começa!”. Sim, é a própria  Palavra redentora de Deus que junta os pedaços e remodela o novo vaso. Assim eu creio e sempre desejo. É isso que de melhor posso comunicar a uma pessoa que precisa juntar com Deus seus pedaços sem perder a esperança e a dignidade de filho, de filha de Deus.

Marcos de Aquino
Imagem: Letícia Frota (Facebook)

2012-08-21

Evangelização: ponte entre o desmoronamento e a força do amor


Neste tempo tenho lido e refletido o Documento da Igreja “A Nova Evangelização para a Transmissão da Fé Cristã”, que é o Instrumentum Laboris, 28, para o Sínodo dos Bispos (XIII Assembleia Geral Ordinária), que se realizará em Roma, de 7 a 28 de outubro de 2012, por ocasião da abertura do Ano da Fé, declarado pelo Papa Bento XVI, comemorativo aos 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II. Este documento de trabalho traz linhas de reflexão para toda a Igreja, fruto de sugestões coletadas das diversas Conferências Episcopais do mundo, no intuito de se preparar melhor as discussões do Sínodo.

O centro da temática é mesmo a evangelização nesses tempos tão desafiantes que qualquer um, crente e não crente, pode perceber. Trata-se, sobretudo, de se trabalhar o despertar da missão batismal dos fiéis católicos como a primeira e mais importante ação de evangelização da Igreja hoje. Isto vem a ser, de certo modo, uma grande compreensão de que nada adianta avolumar gente em nossas paróquias e movimentos se isto não gera conversão e, consequentemente, engajamento e compromisso.  O papa Bento XVI, quando ainda cardeal fez esta declaração no livro “O Sal da Terra”: Não se pode partir do pressuposto de que um cristianismo que no ano zero começa como grão de mostarda no fim teria que ter a forma de uma árvore enorme e que se poderia ver como foi melhorando de um século para o outro.

O papa falava, na verdade, que o cristianismo terá sempre a marca do grão de mostarda, ou seja, sua identidade é a pequenez que muitas vezes parece fracassado, mas tem sua força em Deus. O Espírito Santo opera maravilhas, apesar dos horrores dos homens e de suas abnegações. A obra pode até desmoronar-se porque Deus respeita a liberdade do homem, mas também é verdade que o cristianismo volta sempre a libertar grandes forças de amor. Nós, os cristãos, temos uma compreensão diferente do amor, e este amor comporta, especialmente, o compromisso com a evangelização. Não basta crer, é preciso transparecer. Reconhece-se o fosso existente entre o Evangelho e a vida, o que vem a ser um desafio para todos. As ações da fé parecem caminhar a passos lentos e as ações do Mal, como todas as suas seduções, parecem caminhar a passos largos. No entanto, não desanimados, porque o Senhor Ressuscitado caminha com o seu povo.

“Num tempo em que a escolha da fé e do seguimento de Cristo é menos acessível e pouco compreensível pelo mundo, senão mesmo contrastada e hostilizada, aumenta a missão da comunidade e dos cristãos individuais em serem testemunhas intrépidas do Evangelho. A lógica de semelhante comportamento é sugerida pelo apóstolo Pedro quando nos convida a darmos as razões, a responder a quem nos pede razões da esperança que está em nós” (cf. IPd 3,15) – (Instrumentum Laboris, 28). Nesse sentido, compreendo com a Igreja que Evangelização é a ponte entre o desmoronamento e a força do amor. Aconteça em nós a efusão de um batismo operante, um nascer outra vez a partir do despertar do graça de Deus em nós para então comunicarmos o tesouro da vida de Deus. E isto é hoje, não amanhã, como dizia Agostinho de Hipona.

Marcos de Aquino

2012-08-20

IURD, 35 anos: “glórias e trevas”


Certamente milhares de telespectadores assistiram na noite de ontem (Domingo Espetacular, TV Record) e nesta manhã de segunda-feira, 20 de agosto, o documentário que a IURD produziu comemorativo aos 35 anos de fundação. Um material longo e com imagens impactantes, produzido ao longo de 4 meses, mostrando a ação da Igreja Universal no âmbito espiritual e social nos diversos países do mundo, inclusive no Continente Africano.

Eu assisti e até me impressionei com algumas cenas, como a ação dos missionários em Moçambique. Claro, mais que um “raio x”, trata-se também de uma "campanha publicitária", visto que os 35 anos de Igreja Universal tiveram "glórias" e "sombras", o que é normal. Inclusive, constata-se que apenas os Templos Maiores ainda concentram muita gente, porque os templos dos bairros estão vazios, ou seja, geralmente são salões espaçosos, mas se vê nas reuniões um pingado de gente.

A IURD tem seus méritos, como seu mistério e graça, sem dúvida. Embora a IURD não seja considerada pelo CONIC uma Igreja da tradição pentecostal, e para outros mais críticos até chamam-na de "SEITA", sabemos que ela tem causado um bem para tanta gente. Não discuto a intenção dos pastores e de seus dirigentes maiores, embora haja uma "filosofia" e uma “teologia hermenêutica bíblica-cristã" que distoam radicalmente da tradição cristã. A IURD sempre foi acusada de "superfaturamento religioso", enriquecimento vistoso e toda uma organizada e cativante "teologia da prosperidade" capaz de movimentar fortunas. Fala-se que o céu nunca foi tão negociado como em nossos dias, quando se acusa tanto a Igreja Católica pelas indulgências. Bem, sinceramente, eu creio que Deus age também na IURD e que "Jesus Cristo é o Senhor" na vida de muitos fiéis que buscam felicidade, consolo, prosperidade, saúde, salvação.

Sou Católico, amo minha Igreja e acredito, sobretudo, em suas ações de salvação no Brasil e no mundo, na história de ontem e de hoje. Não tenho o direito e o poder, graças a Deus, de colocar "os outros no inferno", os que creem diferente, apenas posso ponderar, discordar, criticar e até não acreditar, mas preciso respeitar e não engessar a ação de Deus. Que o Amor e o Bem prevaleçam e Deus julgue as ações e consciências. Quanto a nós, Igreja Católica, nossa missão é amar e evangelizar, tornar o nome de Jesus conhecido e amado e fazer com que o seu projeto seja acolhido. Devemos ser luz para a vida das pessoas, integrá-las ao corpo de vida e salvação da Igreja e promover a dignidade humana em todas as suas dimensões.

Marcos de Aquino

2012-08-15

Virgem da Assunção: por Ti o abismo galga o céu!


Nova estrela do céu, gáudio da terra,
Ó Mãe do Sol, geraste o Criador;
estende a tua ao que ainda erra,
levanta o pecador.

Deus fez de ti escada luminosa:
por ela o abismo galga o próprio céu;
dá subirmos contigo, ó gloriosa,
envolva-nos teu véu!

Os anjos agregoam-te Rainha,
e apóstolos, profetas, todos nós:
no mais alto da Igreja estás sozinha,
da Divindade após.

Louvor rendamos à Trindade eterna,
que a ti como rainha hoje coroa.
Toma o teu cedro, pois, reina e governa,
Mãe que acolhe e perdoa!

(I Vésperas – Hino/Liturgia das Horas –
Solenidade da Assunção de Nossa Senhora)

2012-08-11

“Os grandes olhos de Cristo tornaram-se o espelho de Clara”


CARTA DO PAPA BENTO XVI AO BISPOS DE ASSIS-NOCERA UMBRA-GUALDO TADINO  POR OCASIÃO DO “ANO CLARIANO” 

Ao Venerado Irmão Domenico Sorrentino, Bispo de Assis-Nocera Umbra-Gualdo Tadino

Foi com alegria que tomei conhecimento de que nessa Diocese, assim como entre os Franciscanos e as Clarissas do mundo inteiro, se está a recordar santa Clara com um “Ano Clariano”, por ocasião do VIII centenário da sua «conversão» e consagração. Tal evento, cuja datação oscila entre 1211 e 1212, completava, por assim dizer, “o feminino” a graça que tinha alcançado poucos anos antes a comunidade de Assis com a conversão do filho de Pietro de Bernardone. E, como acontecera para Francisco, também na decisão de Clara se escondia o rebento de uma nova fraternidade, a Ordem clariana que, tornando-se uma árvore frondosa, no silêncio fecundo dos claustros continua a espalhar a boa semente do Evangelho e a servir a causa do Reino de Deus.

Esta feliz circunstância impele-me a voltar idealmente a Assis, para meditar com Vossa Excelência, venerado Irmão, com a comunidade que lhe foi confiada e, igualmente, com os filhos de são Francisco e as filhas de santa Clara, sobre o sentido deste acontecimento. Com efeito, ele fala também à nossa geração, e tem um fascínio sobretudo para os jovens, aos quais dirijo o meu pensamento carinhoso por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, celebrada este ano, segundo a tradição, nas Igrejas particulares precisamente neste dia do Domingo de Ramos.

É a própria Santa que fala, no seu Testamento, da sua escolha radical de Cristo em termos de “conversão” (cf. FF 2825). É a partir deste aspecto que me apraz começar, quase retomando o discurso feito em referência à conversão de Francisco no dia 17 de Junho de 2007, quando tive a alegria de visitar esta Diocese. A história da conversão de Clara centra-se na festa litúrgica do Domingo de Ramos. Com efeito, o seu biógrafo escreve: “Estava próximo o dia solene dos Ramos, quando a jovem foi ter com o homem de Deus para lhe perguntar sobre a sua conversão, quando e de que modo devia agir. Padre Francisco ordena que no dia da festa, elegante e ornamentada, vá aos Ramos no meio da multidão do povo, e depois na noite seguinte, saindo da cidade, transforme a alegria mundana no luto do domingo da Paixão. Portanto, quando chegou o dia de domingo, no meio das outras mulheres, a jovem, resplandecente de luz festiva, entra com as outras na igreja. Ali, com prenúncio digno, aconteceu que, enquanto os outros corriam para receber os ramos, Clara, por pudor, permaneceu imóvel e então o Bispo, descendo os degraus, chegou até ela e depôs o ramo nas suas mãos” (Legenda Sanctae Clarae virginis, 7: FF 3168).

Tinha passado cerca de seis anos desde que o jovem Francisco empreendera o caminho da santidade. Nas palavras do Crucifixo de São Damião — “Vai, Francisco, repara a minha casa” — e no abraço aos leprosos, Rosto sofredor de Cristo, ele tinha encontrado a sua vocação. Disto brotara o gesto libertador do “despojamento” na presença do Bispo Guido. Entre o ídolo do dinheiro que lhe fora proposto pelo pai terreno, e o amor de Deus que prometia encher o seu coração, não teve dúvidas, e com ímpeto exclamara: “De agora em diante poderei dizer livremente: Pai nosso, que estais no Céu, e não já pai Pietro de Bernardone” (Segunda Vida, 12: FF 597). A decisão de Francisco tinha desconcertado a Cidade. Os primeiros anos da sua nova vida foram caracterizados por dificuldades, amarguras e incompreensões. Mas muitos começaram a meditar. Também a jovem Clara, então adolescente, foi sensibilizada por este testemunho. Dotada de um acentuada sentido religioso, foi conquistada pela “mudança” existencial daquele que tinha sido o “rei das festas”. Achou o modo de o encontrar e deixou-se envolver pelo seu fervor por Cristo. O biógrafo faz um esboço do jovem convertido, enquanto instrui a nova discípula: “Padre Francisco exortava-a ao desprezo pelo mundo, demonstrando-lhe com uma palavra viva que a esperança deste mundo é árida e traz desilusão, e instilava nos seus ouvidos a dócil união de Cristo” (Vita Sanctae Clarae Virginis, 5: FF 3164).

Segundo o Testamento de Santa Clara, ainda antes de receber outros companheiros, Francisco tinha profetizado o caminho da sua primeira filha espiritual e das suas irmãs de hábito. Com efeito, enquanto trabalhava pela restauração da igreja de São Damião, onde o Crucifixo lhe tinha falado, anunciara que aquele lugar teria sido habitado por mulheres que glorificariam Deus com o seu santo teor de vida (cf. FF 2826; cf. Tomás de Celano, Segunda Vida, 13: FF 599). O Crucifixo original encontra-se agora na Basílica de Santa Clara. Aqueles grandes olhos de Cristo, que tinham fascinado Francisco, tornaram-se o “espelho” de Clara. Não é por acaso que o tema do espelho lhe será tão querido e, na iv carta a Inês de Praga, escreverá: “Fixa todos os dias este espelho, ó rainha esposa de Jesus Cristo, e nele perscruta continuamente o teu rosto” (FF 2902). Nos anos em que se encontrava com Francisco para aprender dele o caminho de Deus, Clara era uma jovem atraente. O Pobrezinho de Assis mostrou-lhe uma beleza superior, que não se mede com o espelho da vaidade, mas desenvolve-se numa vida de amor autêntico, nas pegadas de Cristo Crucificado. Deus é a beleza verdadeira! O coração de Clara iluminou-se com este esplendor e isto incutiu-lhe a coragem de deixar que lhe cortassem os cabelos e de começar uma vida penitente. Para ela, como para Francisco, esta decisão foi marcada por muitas dificuldades. Se alguns familiares a compreenderam sem dificuldade, e a mãe Ortolana e duas irmãs até a seguiram na sua escolha de vida, outros reagiram violentamente. A sua fuga de casa, na noite entre o Domingo de Ramos e a Segunda-Feira Santa, teve aspectos aventurosos. Nos dias seguintes foi perseguida nos lugares onde Francisco lhe tinha preparado um refúgio e tentaram em vão, até com a força, fazê-la renunciar ao seu propósito.

Clara preparara-se para esta luta. E se Francisco era o seu guia, um apoio paterno vinha-lhe também do Bispo Guido, como vários indícios sugerem. Explica-se assim o gesto do Prelado que se aproximou dela para lhe oferecer o ramo, como que para abençoar a sua escolha corajosa. Sem o apoio do Bispo, dificilmente teria sido possível realizar o projeto idealizado por Francisco e levado a cabo por Clara, quer na consagração que ela fez de si mesma na igreja da Porciúncula na presença de Francisco e dos seus frades, quer na hospitalidade que recebeu nos dias seguintes no mosteiro de São Paulo das Abadessas e na comunidade de “Sant’Angelo in Panzo”, antes da chegada definitiva a São Damião. A vicissitude de Clara, como a de Francisco, demonstra assim uma característica eclesial particular. Nela encontram-se um Pastor iluminado e dois filhos da Igreja que se confiam ao seu discernimento. Instituição e carisma interagem maravilhosamente. O amor e a obediência à Igreja, tão acentuados na espiritualidade franciscano-clariana, afundam as raízes nesta bonita experiência da comunidade cristã de Assis, que não só gerou para a fé Francisco e a sua “plantinha”, mas também os acompanhou com a mão pelo caminho da santidade.

Francisco tinha visto bem a razão para sugerir a Clara a fuga de casa, no início da Semana Santa. Toda a vida cristã, e portanto também a vida de consagração especial, constituem um fruto do Mistério pascal e uma participação na morte e na ressurreição de Cristo. Na liturgia do Domingo de Ramos, dor e glória entrelaçam-se, como um tema que depois se desenvolve nos dias seguintes, através da obscuridade da Paixão, até à luz da Páscoa. Com a sua escolha, Clara revive este mistério. No dia dos Ramos recebe, por assim dizer, o seu programa. Depois, entra no drama da Paixão, cortando os seus cabelos e com eles renunciando inteiramente a si mesma para ser esposa de Cristo na humildade e na pobreza. Francisco e os seus companheiros já são a sua família. Depressa chegarão irmãs de hábito também de terras distantes, mas os primeiros rebentos, como no caso de Francisco, despontarão precisamente em Assis. E a Santa permanecerá para sempre vinculada à sua Cidade, demonstrando-o especialmente em certas circunstâncias difíceis, quando a sua oração poupou a Assis violência e devastação. Então, disse às irmãs de hábito: “Caríssimas filhas, desta cidade recebemos todos os dias muitos bens; seria muito ímpio se não lhe prestássemos socorro, como podermos no tempo oportuno” (Legenda Sanctae Clarae Virginis 23: FF 3203).

No seu significado profundo, a «conversão» de Clara é uma conversão ao amor. Ela já não terá as vestes requintadas da nobreza de Assis, mas a elegância de uma alma que se despende no louvor a Deus e no dom de si mesma. No pequeno espaço do mosteiro de São Damião, na escola de Jesus-Eucaristia contemplado com afeto esponsal, desenvolver-se-ão no dia-a-dia as características de uma fraternidade regulada pelo amor a Deus e pela oração, pela solicitude e pelo serviço. É neste contexto de fé profunda e de grande humanidade que Clara se faz intérprete segura do franciscano ideal, implorando aquele “privilégio” da pobreza, ou seja, a renúncia a possuir bens, mesmo só em comunidade, o que deixou perplexo durante muito tempo o próprio Sumo Pontífice, que no final se arrendeu ao heroísmo da sua santidade.

Como não propor Clara, como Francisco, à atenção dos jovens de hoje? O tempo que nos separa da vicissitude destes dois Santos não diminuiu o seu fascínio. Pelo contrário, é possível ver a sua atualidade no confronto com as ilusões e as desilusões que muitas vezes marcam a hodierna condição juvenil. Nunca uma época fez sonhar tanto os jovens, com os milhares de estímulos de uma vida em que tudo parece possível e lícito. E no entanto, quanta insatisfação está presente, quantas vezes a busca de felicidade, de realização, acaba por fazer empreender caminhos que levam rumo a paraísos artificiais, como os da droga e da sensualidade desenfreada! Também a situação atual, com a dificuldade de encontrar um trabalho digno e de formar uma família unida e feliz, acrescenta nuvens no horizonte. Mas não faltam jovens que, também nos nossos dias, aceitam o convite a confiar-se a Cristo e a enfrentar com coragem, responsabilidade e esperança o caminho da vida, inclusive fazendo a escolha de deixar tudo para O seguir no serviço total a Ele e aos irmãos. A história de Clara, juntamente com a de Francisco, é um convite a meditar sobre o sentido da existência e a procurar em Deus o segredo da alegria verdadeira. É uma prova concreta de que quantos cumprem a vontade do Senhor e confiam nele não só nada perdem, mas encontram o verdadeiro tesouro capaz de dar sentido a tudo.

A Vossa Excelência, venerado Irmão, a esta Igreja que tem a honra de ser o lugar de nascimento de Francisco e de Clara, às Clarissas, que mostram quotidianamente a beleza e a fecundidade da vida contemplativa, em prol do caminho de todo o Povo de Deus, e aos Franciscanos do mundo inteiro, a tantos jovens à procura e necessitados de luz, confio esta breve reflexão. Faço votos por que ela contribua para fazer redescobrir cada vez mais estas duas figuras luminosas do firmamento da Igreja. Com um pensamento especial para as filhas de santa Clara do Protomosteiro, dos demais mosteiros de Assis e do mundo inteiro, concedo de coração a todos a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 1 de Abril de 2012, Domingo de Ramos

BENEDICTUS PP. XVI

Fonte: Vatican.va

2012-08-06

O MEU DIA DO PADRE...


Publico aqui este testemunho sobre o perdão, partilhado pelo Pe. Ítalo Arcanjo (perfil pessoal no Facebook), o que chamou de “um pensamento, um experiência de vida que trago hoje na alma”. Vale a pena ler e meditar!

Hoje pela manhã, ao rezar as Laudes em Memória à São João Maria Vianey, lembrei do testemunho de confessor que era este santo homem, de suas experiências no confessionário, assim como temos as nossas. Imaginei quantas vezes ergueu as mãos sobre seus fiéis para pedir o perdão de Deus sobre eles, e quantos foram os que saíram dali aliviados e motivados pela misericórdia de Deus a se tornarem homens novos. Pensei também na sinceridade da confissão, no estado humilde de contrição dos penitentes e no propósito de mudança que cada um apresentava ao Santo Cura d’Ars, que os ouvia, se compadecia e os ajudava a ser melhores, os conduzindo à presença de Deus. Tudo isso me fez refletir o momento presente de minha vida, a experiência que trago no coração neste dia do Padre!

Certa vez lendo Rubem Alves, me saltaram aos olhos, dentre tantos, um pensamento intrigante, porém, o mais significativo dos que poderiam me servir, e que ainda hoje o guardo na memória. Uma lição simples, contundente e paradoxal, uma experiência para explicar uma situação constrangedora, a qual tem se repetido no hoje de minha vida.

Dizia o Filósofo: “HÁ PEDIDOS DE PERDÃO QUE SÃO MALDITOS, NÃO DEVERIAM SER FEITOS”. Pensemos, então: o que o autor estava querendo dizer com isso? Como pensar o perdão, sendo em si um ato nobre, vir a tornar-se maldito? O que poderia desgastar o valor desse gesto que abre as portas para a reconciliação, para a amizade, para o amor? O que fazer para que em nossa vida, em minha vida, o perdão seja sempre um bem, e não um mal a ser partilhado? Hoje, no dia do Padre, essas perguntas instigam o meu ministério, me fazem pensar nas confissões e pedidos de perdão que já expressei e os que já ouvi.

Dos pedidos de perdão que já manifestei, quero fazê-los novamente, na incerteza de não tê-los feito do modo correto, no ambiente certo, na hora certa. Quero fazê-los com a mais profunda verdade de minha alma, com a mais sincera consciência de querer ver curadas as feridas que eu poderia ter causado, mesmo que inconsciente. Quero fazê-los, sem justificativas e explicações que poderiam diminuir o valor que traz o sentido desse pedido, assumindo, mesmo que em pensamento, a dor e os constrangimentos que tenham sido casados indevidamente. Aos que eu possa ter ofendido, por graves ou leves faltas, peço-lhes novamente que me perdoem e consciente de vossa liberdade, acreditem que um dia vou ser melhor. Não lhes peço que aceitem meus atos, ou até a mim mesmo, mas que não desistam pelo menos de rezar e pensar na possibilidade que ainda poderei lhes dá o que esperam de mim.

Neste dia, queridos irmãos, quero ainda confessar-lhes uma dor, talvez a mesma que possam ter sentido por alguns de meus pedidos de perdão malditos, ou de outros que lhes fizeram.

Por duas vezes em minha vida fui surpreendido por este tipo de perdão mal-dito, aquele que machuca e rompe os elos da unidade. Que nos fere por dentro, por que não saiu de dentro. Pedidos de perdão, que pareciam mais uma explicação, uma chamada de atenção, uma fala disfarçada de agressão e julgamento. Um perdão que quebra pontes, desfaz encontros e por instantes nos faz perder o rumo. Um ato que em vez de ser nobre e belo, se torna mesquinho e fugaz, por que é vazio de sentido, ríspido, desonesto e não se preocupa com o outro. O modo como se é verbalizado tal pedido, não importa muito, nem o ambiente, nem o momento, nem os sentimentos do outro, por que a sua finalidade também é outra.

É desse tipo de perdão, que não quero mais proferir e também não quero mais ouvir, mesmo sabendo que o contrário do que agora penso pode acontecer.
SENHOR, DÁ-NOS A GRAÇA DE SABER PEDIR PERDÃO E DE PERDOAR, AFIM DE QUE O PERDÃO SEJA SEMPRE UM BEM PARA A NOSSA VIDA! AMÉM!

SÃO JOÃO MARIA VIANEY, ROGAI POR NÓS!