2012-07-13

O morador de rua e o senador


Regina Ribeiro, Editora das Edições Demócrito Rocha

Caso você ainda não tenha assistido ao filme Sombras da Noite, de Tim Burton, seria algo interessante de fazer neste fim de semana. A história é simples e põe na tela um vampiro, personagem tão apreciado nos últimos anos e que se tornou best-seller com a saga Crepúsculo que dispensa comentário. O vampiro Barnabas Collins (Johnny Depp) é disparado muito, mas muito mais interessante. A trama começa 196 anos antes, quando um rapaz filho de família tradicional e rica se transforma na paixão exagerada de Angelique, uma bruxa. Barnabas encontra seu verdadeiro amor em Josette.

Angelique decide se vingar de Barnabas matando Josette e transformando-o num vampiro acorrentado num túmulo. Em dois séculos, a família Collins perde riqueza, prestígio, sobrando apenas a velha mansão que mais parece uma catedral gótica mal-assombrada.

A história começa pra valer assim que Barnabas é reencontrado por trabalhadores durante umas escavações. O vampiro sedento retoma à vida no ano de 1972 e vai em busca do que restou da família. A partir daí, a crítica mal humorada que me perdoe, o filme se transforma em pura diversão. A ambientação da década de 1970, com seus personagens e valores, é o estranho mundo onde Barnabas tentará se equilibrar. A família – ou que sobrou dela - é um perfeito desastre e exibe aqueles ingredientes da nobreza falida: todos têm apego ao dinheiro e ao que restou da fase áurea, mas há em perspectiva o desonesto por opção, os sobrinhos no limite da falta de juízo, a psiquiatra louca e uma espécie de matriarca que tenta juntar as pontas do tempo.

Burton parece gostar das sombras. Elas sempre refletem o real, mas deformando, criando ilusões e brechas para a mais completa irrealidade. Afinal de contas, o mundo da década de 1970 era estranho até mesmo para quem nele vivia. E Barnabas é semelhante a qualquer um que não entende, em qualquer época da vida, o que está acontecendo em sua volta. Que tem em comum aquela sensação de estranheza, de sobressalto quando se depara com situações improváveis. Por exemplo: que mundo tão doido é este onde um morador de rua encontra dinheiro e devolve e, no dia seguinte, um senador da República, que se deixa chafurdar no submundo do dinheiro ganho a qualquer custo, é cassado? Burton fez, sem dúvida, um filme ótimo. E hoje é sexta.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 13 de julho de 2012 (O Grifo é nosso).

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