O menino que deseja – muito – ver a lua

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, julho 06, 2012 1 comment

Regina Ribeiro, editora das Edições Demócrito Rocha

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, faz 10 anos em 2012. Mesmo sendo a sexta vez que venho aqui as coisas têm o prazer de me surpreender, como se fosse tudo desconhecido. Tudo bem que desorientada especialmente como sou, o mapa da cidade é sempre uma incógnita. Também sempre conheço autores de quem nunca tinha ouvido falar, nem havia lido nada deles. De repente, tudo se faz novo.

Ontem, um menino me fez chorar. Numa atitude simples, coisa mesmo de menino. Durante a fala do escritor Louis Baum para lançar o livro Eu quero ver a Lua, o ilustrador Alarcao decidiu contar um segredo do livro: “se você colocar o livro no sol e levar ele a um quarto escuro, a capa ficará iluminada”. Silêncio. As crianças ficaram de boca aberta, literalmente. Foi aí que um menino saiu da plateia e, paft, tomou o livro da mão do ilustrador. A produção, tão rápida quanto, recuperou o exemplar. O que me deixou emocionada foi o fato de o menino ficar tão arrebatado pelo livro que na sua infância de uns três ou quatro anos, ser absolutamente urgente e necessário ver e ter na mão o livro com uma lua que brilha.

Uma bobagem, você vai dizer. Pode até ser. Mas às vezes é chato demais ser adulto e toda hora ter de se comportar com uma pessoa de quem se espera o máximo de controle, pouca viagem mental, uma apreciação rigorosa dos custos de cada tomada de decisão etc, etc e etc. No entanto, tudo o que se quer é ser aquele menininho que foi lá e pegou o livro da mão do ilustrador.

Uma das vantagens da ficção pode ser justamente esta, a de nos arrebatar, de nos envolver numa história que só vale a pena pela linguagem com a qual chega e nos dá impulsos. Sem ela - no caso, a literatura - somos apenas gente adulta cheia de regras e burocracias.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião/Artigos), Fortaleza, 06 de julho de 2012.