“Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar”

Escrito Por Antonio Marcos na quarta-feira, junho 06, 2012 Sem Comentários

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
(Artigo Publicado na Revista Shalom Maná – maio de 2008)

A Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor Jesus Cristo (Corpus Christi) é uma das Festas mais importantes do calendário litúrgico. Isso se dá pelo fato de que, sendo a Eucaristia um dos sete sacramentos da Igreja, ela é o próprio Deus ali presente com todo o seu esplendor, envolvido em mistério, mas real. Portanto, digno de toda a nossa adoração, todo o nosso louvor e ação de graças.

Foi o Senhor quem disse aos seus apóstolos: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Assim confessa a Igreja esta mesma verdade de fé com toda alegria quando diz: “A Santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa” (CIC, 1324).

Para todos nós católicos temos a Sagrada Eucaristia como o “Mistério da Fé”. O grande milagre da atualização do sacrifício do Senhor acontece diariamente em cada Santa Missa, exatamente na hora da consagração das espécies do pão e do vinho, transformando-se no verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor (transubstanciação), realizada pela imposição das mãos do sacerdote. Embora continue com a aparência do pão e do vinho, a Fé da Igreja – sustentada primeiramente pelas Sagradas Escrituras e depois pela Sagrada Tradição – nos ensina que já não o são mais. Podemos contemplar o verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o “Mistério da na nossa Fé e cremos com todas as forças da alma”!

Desta verdade nasceu a necessidade de conservar as hóstias consagradas nos tabernáculos (sacrários), também chamada de “Sagrada Reserva Eucarística”, para que se pudesse levar Jesus Eucarístico para os doentes (viático) e pudesse dispor para a adoração. É bom lembrar que o Senhor permanece presente enquanto as aparências de pão e do vinho se conservarem intactas, mesmo que no menor fragmento e na menor quantidade.

No entanto, houve um tempo (transição do séc. XII para o séc. XIII) em que heresias e disseminações de doutrinas contrárias a esta verdade se pôs dúvida a Jesus Eucarístico. Foram tempos de contradições em torno da Eucaristia. Além do descuido com os tabernáculos, havia dúvidas sobre a presença real de Jesus na Eucaristia, sobretudo fora da celebração, ou seja, nas “espécies eucarísticas” guardadas nos sacrários.

Dentro desse ambiente hostil à Eucaristia, uma religiosa agostiniana, a Beata Juliana de Cornillon (1193-1258), na diocese de Liége, na Bélgica, teria tido uma visão de Jesus em que Ele pedia uma festa pública ao seu mistério eucarístico. Santa Juliana levou o caso ao Bispo local que, em 1258, instituiu a festa do Corpo do Senhor na sua Diocese. Passados alguns anos outros bispos fizeram o mesmo, até que se tornou festa nacional na Bélgica. Em 1264, o Papa Urbano IV (Bula Transiturus), estendeu a festa para toda a Igreja com o nome de Corpus Christi e adornou a celebração com belíssimos textos de conteúdo teológico de São Tomás de Aquino.

É da autoria de Santo Tomás o canto “Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar”. (1)  Praticamente todos os católicos conhecem este tão belo hino de honra e adoração ao Senhor, cantado sempre que acontece adoração pública breve e no momento da benção do Santíssimo Sacramento. Diante da incredulidade da parte de alguns em relação ao mistério da Festa de Corpus Christi, escreveu este santo: “Quão solene a festa, o dia, que da santa Eucaristia nos recorda a instituição (…) Faz-se carne o pão de trigo, faz-se sangue o vinho amigo: deve-o crer todo cristão. Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela fé”. (2)

O Concílio Vaticano II dá uma denominação mais completa à solenidade quando chama não apenas do Corpo, mas também do Sangue de Cristo, o mistério eucarístico por excelência. Já o código de Direito Canônico (Cânon 944) prescreve o “testemunho público de veneração para com a Santíssima Eucaristia” e “onde for possível, haja procissão pelas vias públicas”. Neste sentido, na solene Missa do Corpus Christi, o padre consagra duas hóstias grandes, uma para consumir e a outra para ser colocado no “ostensório” para a procissão e benção do Santíssimo Sacramento.

A Igreja nos diz que “o mundo precisa muito do culto eucarístico. Jesus nos espera neste sacramento do amor”. Portanto, amados irmãos e irmãs, não podemos deixar de acorrer à presença de Jesus eucarístico. Diante de um mundo que cultua tantas imagens que afetam os sentidos e induzem à pornografia, à violência e ao consumo desenfreado, precisamos convidar a todos para olharem Jesus, pois somente ele é a nossa verdadeira felicidade e somente nele há salvação. Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não nos retiraremos, pois a quem iríamos, Senhor?

Queremos ficar com a Verdade que é o Senhor, que nos disse: “Minha carne é verdadeira comida e meu Sangue, verdadeira bebida”. “Felizes aqueles que creem sem ter visto” (cf. Jo 21, 29). Com todo o nosso ser digamos juntos: “Graças e louvores se deem a todo o momento, ao Santíssimo, Diviníssimo Sacramento”, amém!     

Notas do Texto:
 1 – Liturgia das Horas. Hino das I Vésperas da Solenidade de Corpus Christi.
 2 – Missal Dominical. Solenidade de Corpus Christi. Canto Seqüência.

Fontes:
 - Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 1377 – 1381;
 - Augusto Bergamini. Cristo, Festa da Igreja, Paulinas, 2004;
 - Leo J. Trese. A fé explicada, Quadrante, 1999.

Antonio Marcos