A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2012-06-25

Como se pode ensinar a compaixão?


Rubem Alves, escritor, teólogo e psicanalista.

“A boca fala do que está cheio o coração”: esse é um ditado da sabedoria judaica, que se encontra nas Escrituras Sagradas.  Bem que poderia ser a explicação sumária daquilo que a psicanálise tenta fazer: ouvir o que a boca fala para se chegar ao que o coração sente. Acontece comigo. Cada texto é uma revelação do coração de quem escreve.

Pois o meu coração ficou cheio com uma coisa que me disse minha neta Camila, de onze anos. O que ela falou fez meu coração doer.  Como resultado fico pensando e falando sempre a mesma coisa.

A Camila estava na sala da televisão sozinha, chorando. Fui conversar com ela para saber o que estava acontecendo. E foi isso que ela me disse: “Vovô, quando eu vejo uma pessoa sofrendo eu sofro também. O meu coração fica junto ao coração dela...”

Percebi que o coração da Camila conhecia aquilo que se chama “compaixão”. Compaixão, no seu sentido etimológico,  quer dizer “sofrer com”. Não estou sofrendo. Mas vejo uma pessoa sofrer. Aí eu sofro com ela. Ponho o outro dentro de mim. Esse é o sentido do amor: ter o outro dentro da gente. O apóstolo Paulo escreveu que posso dar tudo o que tenho aos pobres,  mas se me faltar o amor, nada serei. Porque  posso dar com as mãos sem que o coração esteja a sentir. A compaixão é uma maneira de sentir. E dela que brota a ética. Alguém foi se aconselhar com Santo Agostinho sobre o que fazer numa determinada situação. Ele respondeu curto e definitivo: “Ama e faze o que quiseres.” Pois não é óbvio? Se tenho compaixão nada de mal poderei fazer a quem quer que seja.

Fernando Pessoa escreveu um curto poema em que  descreve a sua compaixão. Por favor, leia devagar:  “Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo. Nem distingue a memória do que vi do que fui”. Compaixão por um arbusto... Ele explica esse mistério da alma humana dizendo que  “em tudo quando olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa passo...” Os olhos, movidos pela compaixão, o faziam participante da sorte do pequeno arbusto...
Eu já sabia disso. Mas nunca havia enchido o meu coração ao ponto de doer. Doeu porque liguei a fala da Camila a essa tristeza que está acontecendo no Brasil.

Os corruptos são homens que passaram pelas escolas, são portadores de muitos saberes. Tendo tantos saberes, o que lhes falta? Falta-lhes compaixão.

A falta de compaixão é uma perturbação do olhar. Olhamos, vemos, mas a coisa que vemos fica fora de nós. Vejo os velhos e posso até mesmo escrever uma tese sobre eles, se eu for um professor universitário. Mas a tristeza do velho é só dele, não entra dentro de mim. Durmo bem. Nossas florestas vão aos poucos se transformando em desertos mas isso não me faz sofrer. Não as sinto como uma ferida na minha carne. Vejo as crianças mendigando nos semáforos mas não me sinto uma criança mendigando num semáforo. Vejo os meus alunos nas salas de aulas, mas meu dever de professor é dar o programa e não sentir o que os meus alunos estão sentindo.

De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico. Parece que a inteligência dos maus é mais poderosa que a inteligência dos bons.

Sabemos como ensinar saberes. Há muita ciência escrita sobre isso. Mas não me lembro de nenhum texto pedagógico que se proponha a ensinar a compaixão. Talvez o livrinho de Janucz Korczak  Como amar uma criança . Mas Korczak é uma exceção. Ele sabia que para se ensinar algo a uma criança é preciso amá-la primeiro. Korczak era um romântico... Por isso o amo...

Aí fiz a mim mesmo uma pergunta pedagógica: “Como ensinar a compaixão? Conversando sobre isso com minha filha Raquel, arquiteta, ela se lembrou de um incidente dos seus primeiros anos de escola, quando menina de sete anos. Seria o aniversário da faxineira, uma mulher que todos amavam. A classe se reuniu para escolher o seu presente. Ganhou por unanimidade que, no dia do seu aniversário, as crianças fariam o seu trabalho de faxina. Disse-me a Raquel que a faxineira chorou...

Sei que as crianças aprendem com o olhar, o olhar das professoras. Elas sabem quando as professoras as olham com os mesmos olhos com que Fernando Pessoa olhava o arbusto. Sei também que as estórias provocam  compaixão, quando o leitor se identifica com um personagem.  Sei de um menininho que se pôs a chorar ao final da estória O patinho que não aprendeu a voar. Ele teve compaixão do patinho. Identificou-se com ele. Vai carregar o patinho dentro de si embora o patinho não exista. Lemos estórias para as crianças e para nós mesmos não só para ensinar a língua mas para ensinar a compaixão.

Mas continuo perdido. Preciso que vocês me ajudem. Como se pode ensinar a compaixão?

Fonte: Publicado no BLOG “Pró-Vocações, Missões Franciscanas” (Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil), 22 de junho de 2012 (o grifo é nosso).

2012-06-22

Com quem mesmo estamos conectados?


Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados (MS)

Há alguns meses, alguém perguntou a uma moça de Dourados: “Por que você só vive de baladas e bebedeiras em todos os finais de semana?”. A resposta foi tão rápida quanto provocadora: “Porque, até hoje, ninguém me ofereceu algo melhor!”

No dia 29 de abril, na cidade de Naviraí, uma adolescente de 16 anos se enforcou porque seu pai não lhe permitiu participar de uma festa. Na semana seguinte, os meios de comunicação informaram que o suicídio foi a principal causa de morte entre os jovens sul-coreanos em 2010, pelo terceiro ano consecutivo. Dos jovens que participaram da pesquisa, 8,8% confessou já ter pensado em dar fim à própria vida.

Diante destes fatos e de mil outros que, que todos os dias, falam de jovens que acabam vítimas ou autores de uma violência cada vez mais generalizada, perpetrada no trânsito, na escola, no trabalho, no esporte, nas festas e até em seus próprios lares – quando os têm! –, é inevitável perguntar-se: com quem estarão eles conectados?

Para a jovem de Dourados, até hoje ninguém conseguiu lhe oferecer algo mais atraente do que a bebida e as festas. É uma resposta que entristece e questiona a sociedade, a começar dos pais, educadores e Igrejas. Se viver é escolher e escolher é renunciar, ninguém consegue renunciar a nada se não recebe, em troca, algo melhor e superior. É o que já ensinava Santo Agostinho numa longa dissertação sobre o assunto. E concluía advertindo: “Ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom o que faz”.

Por isso, enquanto não se conseguir acolher e cativar os jovens com um “produto” que corresponda às suas necessidades mais profundas, eles continuarão buscando no mundo o que este não lhes pode oferecer. É o que reconhecia ainda Santo Agostinho, depois de ter caído, ele também, nos mesmos enganos e armadilhas: “O nosso coração foi feito para Deus, e ele anda inquieto e angustiado até não descansar em Deus”. E é também o que lembra o Papa Bento XVI, numa mensagem dirigida recentemente aos jovens: “Não esqueçamos: construir a vida ignorando a Deus e a sua vontade só pode levar à desilusão, à tristeza, à derrota. A experiência do pecado – recusando sua amizade e abandonando seu caminho –, obscurece os nossos corações".

Quanto ao recrudescimento do suicídio entre os jovens, a razão parece ser sempre a mesma. Para o mundo, o que conta é “vencer”. Quem pode mais, chora menos! Se, para Jesus, “o Espírito é que dá a vida, a carne para nada serve” (Jo 6,63), para a sociedade atual o contrário é que vale: a única “vitória” é a fama, a riqueza, o prazer. A pureza e a gratuidade dos relacionamentos são substituídas pela competição e pela rivalidade. Destruir para não ser destruído. Os outros existem enquanto são úteis...

“Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la. Mas quem a perder por mim e pelo Evangelho, salvá-la-á. Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se perde a si mesmo?” (Mc 8, 35-36). Pela insegurança e inferioridade que o acompanha, o ser humano se agarra perdidamente ao que nada resiste. Talvez pouco ou nada falte aos jovens da Coreia do Sul que tentam fugir das dificuldades – ou preencher o vazio existencial – no suicídio. Pelo que sei, o país asiático é um dos mais ricos do mundo. A solução é manter-se conectados com Cristo: “Quem permanece em mim, produz muito fruto. Sem mim, nada podereis fazer. Permanecei no meu amor, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,5.9.11). Palavras que foram assim traduzidas pelo Papa Bento XVI na mensagem há pouco citada: “Cabe a vocês, jovens discípulos de Cristo, mostrar ao mundo que a fé leva a uma felicidade e a uma alegria verdadeira, plena e duradoura. E se o modo de viver dos cristãos parece, às vezes, cansativo e chato, sejam vocês os primeiros a testemunhar a alegria e a felicidade que a fé lhes oferece. O Evangelho é a “boa nova” que Deus nos ama e que cada um de nós é importante para ele. Eis o que vocês precisam demonstrar ao mundo!” (...).

FONTE: CNBB, Articulistas, “www.jovensconectados.com... quem?”, 15 de junho de 2012.

2012-06-18

Permanece verdade que o nosso agir não é indiferente diante de Deus


Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi

Toda a ação séria e reta do homem é esperança em ato. É-o antes de tudo no sentido de que assim procuramos concretizar as nossas esperanças menores ou maiores: resolver este ou aquele assunto que é importante, para prosseguir na caminhada da vida; com o nosso empenho contribuir a fim de que o mundo se torne um pouco mais luminoso e humano, e assim se abram também as portas para o futuro. Mas o esforço quotidiano pela continuação da nossa vida e pelo futuro da comunidade cansa-nos ou transforma-se em fanatismo, se não nos ilumina a luz daquela grande esperança que não pode ser destruída sequer pelos pequenos fracassos e pela falência em vicissitudes de alcance histórico.

Se não podemos esperar mais do que é realmente alcançável de cada vez e de quanto nos seja possível oferecerem as autoridades políticas e econômicas, a nossa vida arrisca-se a ficar bem depressa sem esperança. É importante saber: eu posso sempre continuar a esperar, ainda que pela minha vida ou pelo momento histórico que estou a viver aparentemente não tenha mais qualquer motivo para esperar. Só a grande esperança-certeza de que, não obstante todos os fracassos, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto estão conservadas no poder indestrutível do Amor e, graças a isso e por isso, possuem sentido e importância, só uma tal esperança pode, naquele caso, dar ainda a coragem de agir e de continuar.

Certamente, não podemos “construir” o reino de Deus com as nossas forças; o que construímos permanece sempre reino do homem com todos os limites próprios da natureza humana. O reino de Deus é um dom, e por isso mesmo é grande e belo, constituindo a resposta à esperança. Nem podemos – para usar a terminologia clássica – “merecer” o céu com as nossas obras. Este é sempre mais do que aquilo que merecemos, tal como o ser amados nunca é algo “merecido”, mas um dom. Porém, com toda a nossa consciência da “mais valia” do céu, permanece igualmente verdade que o nosso agir não é indiferente diante de Deus e, portanto, também não o é para o desenrolar da história. Podemos abrir-nos nós mesmos e o mundo ao ingresso de Deus: da verdade, do amor e do bem. É o que fizeram os santos que, como “colaboradores de Deus” contribuíram para a salvação do mundo (cf. 1 Cor 3,9; 1 Tes 3,2). Temos a possibilidade de livrar a nossa vida e o mundo dos venenos e contaminações que poderiam destruir o presente e o futuro.

Podemos descobrir e manter limpas as fontes da criação e assim, juntamente com a criação que nos precede como dom recebido, fazer o que é justo conforme as suas intrínsecas exigências e a sua finalidade. Isto conserva um sentido, mesmo quando, aparentemente, não temos sucesso ou parecemos impotentes face à hegemonia de forças hostis. Assim, por um lado, da nossa ação nasce esperança para nós e para os outros; mas, ao mesmo tempo, é a grande esperança apoiada nas promessas de Deus que, tanto nos momentos bons como nos maus, nos dá coragem e orienta o nosso agir.

Fonte: Spe Salvi, 35: “Agir e sofrer como lugares de aprendizagem da esperança (II)”.

2012-06-17

A Palavra nos recorda os passos da salvação


Pe. Clairton Alexandrino, Pároco da Catedral Metropolitana de Fortaleza (Trecho da homilia)

A compreensão da Palavra de Deus neste dia, 17 de junho, 11º Domingo do Tempo Comum, nos permite chegar ao seu núcleo principal: o crédito e a adesão incondicional que devemos dar à Palavra de Deus, aos seus direcionamentos para a nossa vida. Ignorar isto é trilhar o caminho da desilusão e da infelicidade, feito o povo da Antiga Aliança que provou a amargura da escravidão no Egito porque quis caminhar com suas próprias forças. No entanto, hoje entendemos que Deus nos fala também através dos acontecimentos, e assim o faz para mostrar nossa fragilidade e nossa temporalidade. Deus, em sua misericórdia e sabedoria, cuida sempre de encontrar uma forma de nos fazer voltar para a sua vontade, para a luz. Sua Palavra acolhida e meditada, vivida e testemunhada, é certeza de retorno para nós e para aqueles que conosco convivem.

Necessário é que o nosso coração tenha sempre a consciência de que somos cidadãos do céu. Esta vida, portanto, é passageira. Muitos falam que se trata de “passar uma chuva” e, de certo modo, é verdade. Vemos hoje tanta gente que empenha todos os seus anos de vida, suas forças e talentos unicamente para ganhar dinheiro e acumular. Isto é uma desgraça, meus irmãos! O que faremos desta riqueza e o que faremos de nossa vida? Como estamos cuidando de nossa salvação, do sentido verdadeiro da existência? Deveríamos sempre pensar nisso! Somos peregrinos nesta vida, cidadãos do céu.

Uma realidade que desejo deixar claro é que nós precisamos fazer a parte que nos cabe para participarmos do Reino de Deus. É exatamente aqui que entra o auxílio indispensável da Palavra de Deus, que nos recorda sempre os passos da salvação, mas pede colaboração e adesão, pede que a terra do coração seja fértil. Infelizmente vivemos hoje uma concepção de autonomia profundamente errônea, inclusive na relação com Deus. Achamos que não devemos dar satisfação a ninguém e isso é causa de egoísmos e infelicidades de toda forma. Este individualismo gera ingratidão. Daí a alegria do Salmista que reza: “Como é bom agradecermos ao Senhor!” (Sl 91). A gratidão só brota no coração de quem caminha com os outros e com o “Outro”, que é Deus. Também a Palavra opera isso em nós.

Por fim, irmãos, sejamos semeadores da Palavra, sem nos preocuparmos com aquilo que não compete a nós, mas à providência divina. Saibamos, pois, que o Reino tem um dinamismo próprio, cresce por ação divina e no seu tempo favorável. Não percamos jamais a capacidade de nos maravilharmos com o que Deus realiza em nós, e assim muitos outros serão atraídos a Deus pela Palavra testemunhada na nossa existência. Nossas ações de salvação são, tantas vezes, como grão de mostarda, mas se estiverem na luz da Palavra são capazes de operar também maravilhas neste mundo. O Senhor nos conceda a graça da docilidade à sua Palavra. Assim seja.

Por: Antonio Marcos
Santa Missa Catedral de Fortaleza, 17 de junho de 2012. 

 

2012-06-13

Mosaico da vida humana: tudo é matéria para ser santificada



Carlos Alberto Di Franco, Doutor em Comunicação e professor de Ética e Direito do Master em Jornalismo

Paul Johnson é um dos grandes historiadores e intelectuais contemporâneos. Autor do extraordinário Tempos Modernos: o Mundo dos Anos 20 aos 80, seus textos são sempre provocadores. Dono de cultura invejável e sinceridade afiada, Johnson não sucumbe aos clichês vazios. Em seu livro Os Heróis, ele destaca a importância das lideranças morais.

"Os heróis", diz Paul Johnson, "inspiram, motivam. (...) Eles nos ajudam a distinguir o certo do errado e a compreender os méritos morais da nossa causa." Os comentários de Johnson trazem à minha memória um texto que exerceu forte influência no rumo da minha vida: Amar o Mundo Apaixonadamente, homilia proferida por São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei e primeiro grão-chanceler da Universidade de Navarra, durante missa celebrada no câmpus daquela prestigiosa instituição. São Josemaría - cuja festa a Igreja celebra no dia 26 de junho - foi um mestre na busca da santidade no trabalho profissional e nas atividades cotidianas.

Propunha, naquela homilia vibrante e carregada de atrevimento, "materializar a vida espiritual". Queria afastar os cristãos da tentação "de levar uma espécie de vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e, por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas". O cristianismo encarnado nas realidades cotidianas, eis o miolo da proposta de São Josemaría. "Não pode haver uma vida dupla, não podemos ser esquizofrênicos, se queremos ser cristãos", sublinha. E, numa advertência contra todas as manifestações de espiritualismo mal entendido e de beatice, afirma de modo taxativo: "Ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias ou não o encontraremos nunca".

"A vocação cristã consiste em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia". A vida, o trabalho, as relações sociais, tudo o que compõe o mosaico da nossa vida é matéria para ser santificada. São Josemaría, um santo alegre e otimista, olha a vida com uma lente extremamente positiva: "O mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus". O autêntico cristão não vive de costas para o mundo nem encara o seu tempo com inquietação ou nostalgias do passado. O verdadeiro cristão não vive focado no retrovisor. "Qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus". A luta do nosso tempo, com suas luzes e suas sombras, é sempre o desafio mais fascinante.

O pensamento de São Josemaría Escrivá, apoiado numa visão transcendente da vida e, ao mesmo tempo, com os pés bem fincados na realidade material e cotidiana, consegue, de fato, captar plenamente a contextura humana e ética dos acontecimentos. Ele tem, no fundo, a terceira dimensão: a religiosa e ética - e somente com esse foco é possível entender plenamente o mundo em que vivemos. Na verdade, o esgotamento do materialismo histórico e a crescente frustração do consumismo hedonista prenunciam uma mudança comportamental: o mundo está sedento de liberdade, mas nostálgico de certezas.

Articular verdade e liberdade é, talvez, um dos mais interessantes recados de São Josemaría. Insurge-se, vigorosamente, contra o clericalismo que se oculta na mentalidade de discurso único, na injusta dogmatização das coisas que são legitimamente opináveis. São Josemaría afirma que um cristão não deve "pensar ou dizer que desce do templo ao mundo para representar a Igreja", nem que "as suas soluções são as soluções católicas para aqueles problemas". Por defender esse pluralismo, sofreu incompreensões, até mesmo de algumas pessoas da Cúria Romana, que entendiam, por exemplo, que na Itália os católicos tinham o dever de votar no Partido da Democracia Cristã.

São Josemaría não deixa de enfatizar o valor insubstituível da liberdade - particularmente a liberdade de expressão e de pensamento - contra todas as formas de intolerância e sectarismo. Para ele, o pluralismo nas questões humanas não é algo que deva ser tolerado, mas, sim, amado e procurado.

A sua defesa da liberdade, no entanto, não fica num conceito descomprometido, ele mergulha na raiz existencial da liberdade: o amor - amor a Deus, amor aos homens, amor à verdade. E sua defesa da fé e da verdade não é, de fato, "antinada", mas a favor de uma concepção da vida que não pretende dominar. Ao contrário, é, sim, uma proposta que convida a uma livre resposta de cada ser humano.

Seus ensinamentos se contrapõem a uma tendência cultural do nosso tempo: o empenho em confrontar verdade e liberdade. Frequentemente, as convicções, mesmo quando livremente assumidas, recebem o estigma de fundamentalismo. Tenta-se impor, em nome da liberdade, o que poderíamos chamar de dogma do relativismo. Essa relativização da verdade não se manifesta apenas no campo das ideias. De fato, tem inúmeras consequências no conteúdo ético da informação.

A tese, por exemplo, de que é necessário ouvir os dois lados de uma mesma questão é irrepreensível, não há como discuti-la sem destruir os próprios fundamentos do jornalismo. Só que passou a ser usada para evitar a busca da verdade. A tendência a reduzir o jornalismo a um trabalho de simples transmissão de diversas versões oculta a falácia de que a captação da verdade dos fatos é uma quimera. E não é. O bom jornalismo é a busca apaixonada da verdade.

A figura de São Josemaría Escrivá, o seu amor à verdade e a sua paixão pela liberdade tiveram grande influência em minha vida pessoal e profissional. Amar o Mundo Apaixonadamente não é apenas um texto moderno e forte. Sua mensagem, devidamente refletida, serve de poderosa alavanca para o exercício da nossa atividade profissional.

Fonte: Publicado no Jornal Estadão (Opinião), "O atrevimento da santidade", 11 de junho de 2012 (O grifo é nosso).
Imagem: Josemaría Escrivá, Fundador do Opus Dei (Beatificado pelo papa João Paulo II em 17 de maio de 1992).


2012-06-12

Lembrar e rezar pelos namorados enamorados


Dia dos Namorados...

Uma ocasião oportuna para lembrar e rezar pelos namorados enamorados, porque, de fato, esta tal bela união exige muito mais que um estar junto, mas uma relação de amor, compromisso e abertura ao exercício dos valores que enobrecem a experiência a dois, que encaminha os corações para o que a Igreja chama de níveis, degraus de amor: sair de uma condição puramente atrativa para um amor altruísta, que se traduz na máxima evangélica de dar a vida por aquele, aquela a quem amamos. Que bom seria se os enamorados em nossos dias voltassem a descobrir a beleza e o mistério do encontro não de corpos apenas, mas de vida, de coração, de sonhos, de esperanças, de desejo e realização de um amor definitivo. Deus se enamorou de sua criação e do homem e deu a vida até as últimas conseqüências. O homem encontrou na mulher a alegria da complementaridade, e esta arrancou-lhe a exultação, o entusiasmo por romper com a “solidão humana”. A mulher lhe foi fonte de alegria, não de desgraça! Homem e Mulher, mistério de queda e soerguimento, de identidade e vocação, de procuras e encontros. Namoro: mistério que traduz também o enamoramento de Deus por nós! Aos amigos e amigas enamorados, Feliz dia! São José e a Virgem Maria intercedam!

Antonio Marcos

2012-06-06

“Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar”


A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
(Artigo Publicado na Revista Shalom Maná – maio de 2008)

A Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor Jesus Cristo (Corpus Christi) é uma das Festas mais importantes do calendário litúrgico. Isso se dá pelo fato de que, sendo a Eucaristia um dos sete sacramentos da Igreja, ela é o próprio Deus ali presente com todo o seu esplendor, envolvido em mistério, mas real. Portanto, digno de toda a nossa adoração, todo o nosso louvor e ação de graças.

Foi o Senhor quem disse aos seus apóstolos: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Assim confessa a Igreja esta mesma verdade de fé com toda alegria quando diz: “A Santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa” (CIC, 1324).

Para todos nós católicos temos a Sagrada Eucaristia como o “Mistério da Fé”. O grande milagre da atualização do sacrifício do Senhor acontece diariamente em cada Santa Missa, exatamente na hora da consagração das espécies do pão e do vinho, transformando-se no verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor (transubstanciação), realizada pela imposição das mãos do sacerdote. Embora continue com a aparência do pão e do vinho, a Fé da Igreja – sustentada primeiramente pelas Sagradas Escrituras e depois pela Sagrada Tradição – nos ensina que já não o são mais. Podemos contemplar o verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o “Mistério da na nossa Fé e cremos com todas as forças da alma”!

Desta verdade nasceu a necessidade de conservar as hóstias consagradas nos tabernáculos (sacrários), também chamada de “Sagrada Reserva Eucarística”, para que se pudesse levar Jesus Eucarístico para os doentes (viático) e pudesse dispor para a adoração. É bom lembrar que o Senhor permanece presente enquanto as aparências de pão e do vinho se conservarem intactas, mesmo que no menor fragmento e na menor quantidade.

No entanto, houve um tempo (transição do séc. XII para o séc. XIII) em que heresias e disseminações de doutrinas contrárias a esta verdade se pôs dúvida a Jesus Eucarístico. Foram tempos de contradições em torno da Eucaristia. Além do descuido com os tabernáculos, havia dúvidas sobre a presença real de Jesus na Eucaristia, sobretudo fora da celebração, ou seja, nas “espécies eucarísticas” guardadas nos sacrários.

Dentro desse ambiente hostil à Eucaristia, uma religiosa agostiniana, a Beata Juliana de Cornillon (1193-1258), na diocese de Liége, na Bélgica, teria tido uma visão de Jesus em que Ele pedia uma festa pública ao seu mistério eucarístico. Santa Juliana levou o caso ao Bispo local que, em 1258, instituiu a festa do Corpo do Senhor na sua Diocese. Passados alguns anos outros bispos fizeram o mesmo, até que se tornou festa nacional na Bélgica. Em 1264, o Papa Urbano IV (Bula Transiturus), estendeu a festa para toda a Igreja com o nome de Corpus Christi e adornou a celebração com belíssimos textos de conteúdo teológico de São Tomás de Aquino.

É da autoria de Santo Tomás o canto “Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar”. (1)  Praticamente todos os católicos conhecem este tão belo hino de honra e adoração ao Senhor, cantado sempre que acontece adoração pública breve e no momento da benção do Santíssimo Sacramento. Diante da incredulidade da parte de alguns em relação ao mistério da Festa de Corpus Christi, escreveu este santo: “Quão solene a festa, o dia, que da santa Eucaristia nos recorda a instituição (…) Faz-se carne o pão de trigo, faz-se sangue o vinho amigo: deve-o crer todo cristão. Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela fé”. (2)

O Concílio Vaticano II dá uma denominação mais completa à solenidade quando chama não apenas do Corpo, mas também do Sangue de Cristo, o mistério eucarístico por excelência. Já o código de Direito Canônico (Cânon 944) prescreve o “testemunho público de veneração para com a Santíssima Eucaristia” e “onde for possível, haja procissão pelas vias públicas”. Neste sentido, na solene Missa do Corpus Christi, o padre consagra duas hóstias grandes, uma para consumir e a outra para ser colocado no “ostensório” para a procissão e benção do Santíssimo Sacramento.

A Igreja nos diz que “o mundo precisa muito do culto eucarístico. Jesus nos espera neste sacramento do amor”. Portanto, amados irmãos e irmãs, não podemos deixar de acorrer à presença de Jesus eucarístico. Diante de um mundo que cultua tantas imagens que afetam os sentidos e induzem à pornografia, à violência e ao consumo desenfreado, precisamos convidar a todos para olharem Jesus, pois somente ele é a nossa verdadeira felicidade e somente nele há salvação. Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não nos retiraremos, pois a quem iríamos, Senhor?

Queremos ficar com a Verdade que é o Senhor, que nos disse: “Minha carne é verdadeira comida e meu Sangue, verdadeira bebida”. “Felizes aqueles que creem sem ter visto” (cf. Jo 21, 29). Com todo o nosso ser digamos juntos: “Graças e louvores se deem a todo o momento, ao Santíssimo, Diviníssimo Sacramento”, amém!     

Notas do Texto:
 1 – Liturgia das Horas. Hino das I Vésperas da Solenidade de Corpus Christi.
 2 – Missal Dominical. Solenidade de Corpus Christi. Canto Seqüência.

Fontes:
 - Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 1377 – 1381;
 - Augusto Bergamini. Cristo, Festa da Igreja, Paulinas, 2004;
 - Leo J. Trese. A fé explicada, Quadrante, 1999.

Antonio Marcos

2012-06-05

Paixão: dolorosa e provisória, mas favorável ao enriquecimento existencial


Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, pedadoga e sexóloga

Tenho um belo e otimista costume de escrever sobre o amor e parece paradoxal refletir hoje sobre o processo do desapaixonar-se. Isso, contudo, se faz necessário para que a relação amorosa possa ser percebida e sentida do modo mais humano possível, isto é, como de fato ela ocorre.

Paixão é um estado maravilhoso e provisório, não implicando que as vivências apaixonadas não valem a pena por serem tão provisórias. Valem sim! Elas são experiências que integram projetos de felicidade. Por mais dolorosa que seja essa provisoriedade, o indivíduo pode sair enriquecido existencial e emocionalmente da experiência.

Penso num valor que é inerente aos projetos que fazemos de ser feliz. Há uma intencionalidade nesses projetos que estrutura positivamente a busca e facilita a consecução dos objetivos frente à vida e ao que dela pretendemos. Embora nem sempre seja possível realizar o projeto que se tem em mira.

Minha grande mestre e amiga Amparo Caridade falava da dignidade que é inerente ao lutar e que não haveria muito mérito em lutar se já contássemos com a certeza do sucesso. Fazia ver o quanto a luta é digna em si mesma e que necessariamente ela não tem que resultar em vitória.

Questiono sobre o que saberíamos da emoção mais densa se não ensaiássemos a paixão, o amor, a partilha do sonho e do gosto de ser feliz. Neste sentido, a experiência é válida mesmo que não dure eternamente. O que faz eterno é o gesto, por mais breve que ele seja. Por isso é tão importante que aprendamos os gestos que valem a pena ser eternizados e evitemos aqueles que ferem o eu do outro.

Mas, também, outros gestos podem fazer adormecer, inibir em nós, o encantamento do extraordinário: a incapacidade do outro de dizer que ama, seu ritmo bioexistencial em descompasso, sua incompetência gestual, seu desinteresse pelo romântico, sua cristalização no igual, sua morosidade no criar. Tudo pode ser ora maravilhoso, ora frustrante.

Estagnamos a relação se nos detivermos na ilusão da perfeita unidade, na utopia da completude, se não pudermos suportar e amar o outro como ele é: insuportável e maravilhoso. Diria que a relação amorosa é uma busca inquietante e que isso promove um desassossego que nos faz permanecer num devir constante.

É no contexto de dores e alegrias que experienciamos o que há de mais denso emocional e sexualmente. O difícil é admitirmos que a realidade amorosa tem essas duas faces. Qualquer parte dela negada nos torna mais pobres experiencialmente. Porque assim é a vida, a existência, o sexo, a música, o universo, as pessoas em relação.

Fonte: Jornal O Povo (Opinião), “Utopias da paixão”, Fortaleza, 03 de junho de 2012.