Partilha amorosa

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, maio 19, 2012 Sem Comentários
Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Todos nós sabemos o que é sexo e o que é afetividade; isso está no nosso íntimo. Mas algo nos faz querer ouvir mais, encontrar referenciais para incertezas que nos perseguem. Estas quase sempre da ordem do relacional, do quanto o outro nos deseja, nos preenche. Necessitamos encontrar aquilo que une, vincula, funde com o outro, garante crescimento na arriscada aventura da partilha amorosa.

Queremos outras existências e um outro a quem dedicar afeto e com quem possamos partilhar o sentido encontrado para a vida. O afeto precisa ser correspondido, precisa dessa partilha para desenvolver-se. Haverá lugar para a vivência significativa desse afeto nesse mundo que tem tanta pressa e não sabe aonde vai?

A sexualidade é uma energia que nos impulsiona à busca do prazer, mas um prazer plural, que jamais se esgota na genitalidade. Ela é boa na medida em que faz sentido o que é vivido, em que faz crescer as pessoas. Torna-se uma forma de enriquecimento quando acontece o abandono de si e a acolhida do outro.

É a partir desse contexto que penso o lugar do afeto na vivência sexual como a emoção que torna o outro especial. No terreno sexual-afetivo, as coisas não são simples, porque nutrimos mal entendidos e repetições que maltratam muito o cotidiano. O exercício de poder entre parceiros, as divergências entre masculino e feminino, por vezes, sobrepujam o gosto de amar. Que se abandonem os preconceitos e se honrem igualmente as qualidades, porque “o amor é um exercício de felicidade, não de poder”, diz A. da Távola.

É essa qualidade da comunicação entre parceiros que possibilita um relacionamento significativo e satisfatório, em que cada um está à procura de si mesmo, mas na interface com o outro e onde a ternura confirma a existência do outro como “uma segunda pele necessária”. Não podemos prescindir dessa partilha quando queremos saber mais profundamente de nós mesmos. Aprendo de mim e me descubro afetiva e sexualmente quando ouso o melhor da relação. A privação afetiva é muito nociva porque nos impede de ousar, de descobrir e utilizar o melhor de nós próprios. Faço minhas as palavras de M.Scott Peck: “Quando amamos alguma coisa ela tem valor para nós, e quando alguma coisa tem valor para nós passamos tempo com ela, tempo desfrutando dela e tempo cuidando dela”.

Tocar e trocar são desejos naturais, movimentos em favor da vida e do bem-estar humano. O toque é a linguagem básica do sexo, da ternura, é condição de saúde emocional. Adoecemos por falta de proximidade, de contato, de carícias. Aí o organismo dói e produz sintomas que têm significação para além do que aparece. Gaiarsa diz com apropriada ironia que “quanto mais civilizados, mais assépticos, mais distantes e mais frios”. Só palavras. Pouca mímica. Nenhum contato. Ele considera isso uma maldição que nos faz perder horas de prazer e felicidade. Criamos uma sociedade em que as pessoas não se tocam fisicamente, nem noutros sentidos. A tendência é as palavras ocuparem o lugar da experiência. Para acontecer o contato, a intimidade, precisa-se de humildade, simplicidade e desarmamento. Precisa-se de um bem-estar consigo mesmo e com o outro. J. Salomé resume, dizendo: “precisa-se de ternura natural, desesperadamente”.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 06 de maio de 2012 (o grifo do texto é nosso).