2012-05-19

Felicidade é uma construção humana, paciente, uma arte de existir

Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Estamos sempre sendo convocados a "ser feliz", a providenciar um bem-estar, uma alegria, mesmo que provisória. Há uma expectativa da nossa cultura para que reine felicidade à nossa volta numa espécie de rito festivo. Antropológico por um lado, a felicidade nas datas festivas compõe o modo humano e social de promover alegrias, mas, em geral, esse rito é apropriado pelo sistema para nos fazer consumir. Quando isso ocorre, termina por tornar-se aparência, porque se esvazia do sentido humano da solidariedade, da amizade, e se transforma numa gincana consumista, que faz feliz, sobretudo, os donos das mercadorias.

Não se é feliz ou se fica feliz simplesmente por um decreto. A felicidade que perseguimos independe de calendário, de bens de consumo ou de jovialidade à mostra. Felicidade é uma construção humana, paciente, uma arte de existir.

O tempo festivo por vezes atiça nossas angústias ao confrontar a condição pessoal interna com o agito da alegria externa. Vivemos todos experiências de dor, de sofrimento, de vazio. É preciso não enganar esses sentimentos com compras, busca de beleza física, carro do ano, imóvel novo ou outras aquisições. Somos também nossos sentimentos inquietos. Eles fazem parte de nossa humanidade. Em geral é mais fácil comprar algo para enganá-los do que entendê-los.

Não imagino que a felicidade também possa acontecer na resignação e no êxtase, via álcool, drogas ou outras formas de alienação. Ser feliz tem uma dinâmica. Acho mesmo que certo descontentamento move-nos na direção sagrada do além, de criarmos algo novo que possibilite sentimentos apreciáveis. A capacidade de administrar nossa felicidade é humana e não poderemos ser felizes ao preço da ética, da moral e do bem-estar dos outros. O ideal é aprendermos a dar mais atenção ao que somos e a querer ser feliz com isso, onde cada um procure a felicidade que carrega em si.

É uma espécie de cacoete social essa busca contemporânea de uma felicidade ininterrupta, esse paradoxo do estresse do ter que ser feliz a qualquer preço.

Kant, ao contrário disso dizia que a “felicidade não é o bem supremo e fim último da vida”. Ele imaginava que “ela coroaria a consciência do dever comprido”. Isso muda o foco do entendimento do tema e nos leva a pensar que a felicidade não é algo ligado ao ter ou parecer, como se costuma pensar. Ela tem algo a ver com nosso agir. É o que fazemos que tem sentido. São as ações que marcam nossa passagem pela vida, que dizem de nós. “A fé sem boas obras é morta”, diz a Bíblia com sabedoria.

Podemos sonhar com uma humanidade mais cordial e isso acontecerá quando começarmos a ser mais amáveis uns com os outros, sobretudo os outros mais próximos de nós. A amizade pode ser o caminho de amorosidade necessário ao bem-estar das relações. Devemos sim autorizar a emoção da coisa simples e bela que há na vida e no viver. Que a vida seja de festa e de alegria interna e externa para todos. Que sejamos todos escultores de uma humanidade mais feliz e realmente humana.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Opinião), “O que faz você feliz?”, Fortaleza, 07 de abril de 2012 (o grifo do texto é nosso).

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