Amor é sentimento; paixão é emoção. O amor liberta, desprende, traz paz

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, maio 19, 2012 Sem Comentários

Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

A função de articulista tem me colocado de uma forma sistemática em contato com o que pensa e sente o cearense através dos inúmeros emails que recebo após cada publicação. O tema predileto tem sido o sentimento. Para começo de conversa, emoção e sentimento não são sinônimos. Pelo contrário, são processos muito diferentes. O que sentiu ao ver seu filho dar os primeiros passos? Qual foi a emoção? Talvez seja difícil expressar em palavras. Emoção pode ser definida como um impulso nervoso que provoca um conjunto de reações psicofisiológicas.

Chorar, tremer, corar, sorrir, gritar, coração disparar, independem da vontade, geralmente são de curta duração e muita intensidade, sendo difícil de esconder, pois apresentam manifestações externas e públicas. Podem jorrar a qualquer momento, sofrendo grande influência dos instintos e da irracionalidade.

O sentimento já é mais elaborado; envolve racionalização, livre arbítrio, espiritualidade, bom senso. É a reação que não entendemos e que chamamos de emoção, sendo integrada ao nosso ser. Digamos que uma emoção amadurecida. Diferente das emoções, sentimentos são privados; os outros só ficam sabendo se existir o desejo de partilhá-los. Amor, paz, alegria, medo, tristeza, esperança, orgulho. A emoção quando integrada, ou no mínimo percebida e interpretada, transforma-se em sentimento.

Há um incontável número de coisas que acontecem e são confundidas com sentimento, emoção e palavras. Pessoas que não conseguem demonstrar emoções podem ser acusadas de ausência de sentimentos e pessoas muito emotivas podem ser interpretadas como sensíveis e isto nem sempre é verdadeiro. O que realmente expressamos para nós mesmos e para o mundo? Emoções? Sentimentos? Palavras?

A emoção é o elemento mais difícil de ser percebido com clareza. Os combatentes, que se anunciam em nome de Deus, da suposta democracia, da paz desejável, não se dão conta do grau da emoção destrutiva que pode mover suas ações. O ódio e a vontade de revide podem silenciosamente comandar ações inconsequentes. É preciso desconfiar das nobres razões pelas quais se faz guerra. A razão é um bem. Sem ela nos tornaríamos loucos, estúpidos, inconsequentes. A emoção também dá ao fazer humano a tonalidade de humanidade, de encanto, amorosidade ou de perversão. Ambas são dimensões humanas importantes e seu benefício ou malefício depende do uso que delas se fizer. Nada mais insano do que o ato comandado pela razão perturbada ou pela emoção doentia.

Amor é sentimento; paixão é emoção. O amor liberta, desprende, traz paz. Os sentimentos podem amparar, socorrer e até transformar mágoa em alegria, pavor em coragem e ódio em amor. No clamor das emoções e das palavras se fazem as guerras, no discernimento dos sentimentos é que se busca a paz. Como encontrar e acessar os sentimentos? Estão no mesmo lugar desde que nascemos, esperando para crescer e amadurecer.

Faço minhas as palavras de Fernando Pessoa: “Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e outra vida que é pensada, a única vida que temos é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada.”

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Opinião), “O que fazer com os sentimentos?”, Fortaleza, 10 de março de 2012 (o grifo do texto é nosso).