2012-04-23

Dependência afetiva: “Libertar-se sentindo que o ama, mas que ele não lhe convém”

Texto de: Walter Riso, Psicólogo, Escritor e Professor Universitário - Reside na Colômbia.

Depender da pessoa que se ama é uma maneira de se enterrar em vida, um ato de automutilação psicológica em que o amor-próprio, o autorrespeito e a nossa essência são oferecidos e presenteados irracionalmente. Quando a dependência está presente, entregar-se mais do que um ato de carinho desinteressado e generoso, é uma forma de capitulação, uma rendição conduzida pelo medo com a finalidade de preservar as coisas boas que a relação oferece.

Sob o disfarce de amor romântico, a pessoa dependente afetiva começa e sofrer uma despersonalização lenta e implacável até se transformar num contexto da pessoa “amada”, um simples apêndice. Quando a dependência é mútua, o enredo é funesto e tragicômico (...).

As reestruturações afetivas e as revoluções interiores, quando são verdadeiras, são dolorosas. Não há porção para acabar com a dependência afetiva. Respondo não acreditar que uma pessoa deva se desapaixonar para terminar uma relação e que duvide ser possível produzir desamor por força de vontade e de razão (se fosse assim, o processo inverso também deveria ser possível, mas, tal como atestam os fatos, não nos apaixonamos por quem queremos, mas por quem podemos).

“O que a terapia tenta incentivar nas pessoas viciadas é basicamente o autocontrole para que, ainda necessitando da droga, sejam capazes de brigar contra a urgência e a vontade. No balanço custo-benefício, aprendam a sacrificar o prazer imediato pela gratificação a médio e a longo prazo. O mesmo ocorre com outros tipos de vícios como, por exemplo, a comida e o sexo. Você não pode esperar desapaixonar-se para deixá-lo. Primeiro deve aprender a superar os medos que se escondem por trás do apego irracional, melhorar a autoeficácia, levantar a autoestima e autorrespeito, desenvolver estratégias para a resolução de problemas e para ter maior autocontrole. E tudo isso você deverá fazer sem deixar de sentir o que sente por ele. Por isso é tão difícil. Repito, o viciado deve deixar de consumir, mesmo que seu organismo não queira fazê-lo. Deve lutar contra o impulso porque sabe que não lhe convém.

Enquanto o viciado luta e persevera, o apetite está ali, quieto e pungente, flutuando em seu ser e disposto a atacar. Não se pode chegar agora ao desamor, isso chegará depois. Além disso, quando começar a ficar independente, descobrirá que aquele sentimento não era amor, mas uma forma de vício psicológico. Não há outro caminho, deve se libertar sentindo que o ama, mas que ele não lhe convém. Uma boa relação precisa bem mais do que afeto em estado puro”.

Fonte: Walter Riso. Amar ou depender?, 2010 (grifo do texto é nosso) 

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