A paixão é maravilhosa, mas é provisória

Escrito Por Antonio Marcos na domingo, fevereiro 05, 2012 Sem Comentários
Artigo de: Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, Pedagoga e Sexóloga

Nossas relações com o outro, atravessam fases, estágios diversos. São etapas distintas que compõem a vivência em parceria. Há um tempo, primeiro de enamoramento, às vezes de paixão. Quando se deixam apaixonar, as pessoas tornam-se, reciprocamente, objeto-deus umas para as outras. Nessa condição, cada uma das partes é pura beleza, encanto, ternura e graça na relação. Tempo quase mágico, regido por uma ética da mais completa tolerância. Tempo, em que as falhas do outro passam despercebidas, são até graciosas. Na verdade, o ser apaixonado não vê, fica ofuscado pelo brilho que ele mesmo imprime à face do outro, a quem constituiu um pequeno deus. “A paixão corresponde à utopia humana de superar a insignificância do mundo, da vida e encontrar a felicidade”, diz Ana Valença.

Só que a paixão é um estado maravilhoso, mas provisório. Os apaixonados cometem seus equívocos: ora idealizam a parceria como lugar único de construção de felicidade, ora idealizam apenas o que é vivido como um amor extraordinário, e com isso perdem ocasiões significativas de pequenas vivências muito importantes. Na trajetória amorosa, queremos a felicidade do tamanho do nosso sonho, que é sempre maior que a realidade. Para além do tempo da paixão, há um outro, que é o tempo de amar o parceiro como ele é. Sem ilusões e sem esse fogo que queima e encandeia até os mais lúcidos mortais. A convivência mais prolongada nos empurra para o real da vida, da relação e do outro, nos levando a desmistificar esse deus que inventamos para satisfazer nossa ânsia de extraordinário.

Essa travessia que fazemos da mistificação ao real do outro, é quase sempre regida pela ética da intolerância. A intolerância é uma atitude que vai se transmutando e se disfarçando sob várias formas, até desembocar na rigidez e na violência. Assim o tique, o cacoete do outro, que antes era engraçado, até charmoso, começa parecer feio, torna-se irritante, às vezes insuportável. As excentricidades passam a ser patologizadas, ou seja, são consideradas doentias, perdem a graça, e passam a ser recriminadas. Esta é agora uma forma inconsciente de dizer que há um certo desencanto desse outro desmistificado, tornado tão real, tão revelado, tão pouco simbólico.

“O inferno são os outros”, dizia Sartre; “o inferno é ausência, a falta do outro” dizem as pessoas carentes de uma parceria e de uma relação afetivo-amorosa. Com quem ficamos? Talvez o fiel da balança não esteja no inferno da ausência, nem no paraíso da presença do outro em nossa vida. O inferno ou o paraíso, não serão produções do nosso modo de ser com os outros, não estarão, portanto, dentro de nós? Aguardamos sempre, que o outro seja maravilhoso para conosco, que ele nos compreenda e nos promova bem estar e felicidade.

Pouco nos damos conta, que somos nós que precisamos dele, e lhe atribuímos uma carga que ele não pode e não deve carregar: a de nos fazer feliz. A felicidade é uma construção pessoal e responsável, que cada um tem de assumir. O outro pode até estar inadequado à parceria que queremos, na construção de nossa felicidade, mas a responsabilidade de ser feliz é absolutamente pessoal. Fernando Pessoa é lúcido quanto a isso. “O paradoxo não é meu, sou eu”.

Fonte: Publicado na Revista Eletrônica “Autêncica Vida.Com”, “(Des) dealizando”, agosto de 2010.