2012-02-14

A necessidade de rezar sempre

Texto de: François X. N. Van Thuan*, Cardeal

Após minha libertação, muitas pessoas me disseram: “Padre, o senhor deve ter tido muito tempo para rezar na prisão”. Mas não é tão simples assim como se poderia imaginar. Deus permitiu que eu experimentasse toda a minha fraqueza, a minha fragilidade física e mental. O tempo passa lentamente na prisão, sobretudo quando se está em isolamento total. Imaginem uma semana, um mês, dois meses de silêncio... São terrivelmente longos, mas quando se transformam em anos, tornam-se uma eternidade. Havia dias em que, reduzido ao extremo pelo cansaço, pela doença, eu não era capaz de recitar uma oração sequer!

Mas uma coisa é certa: é possível aprender muito sobre o que é a oração, sobre o espírito genuíno da oração, justamente quando se sofre por não poder rezar, devido à fraqueza física, à impossibilidade de concentrar-se, à aridez espiritual, com a sensação de ter sido abandonado por Deus e de estar tão longe dele a ponto de não lhe poder falar.

E talvez seja exatamente naqueles momentos que se descobre a essência da oração e que se compreende como é possível colocar em prática o que Jesus disse sobre a “necessidade de rezar sempre” (cf. Lc 18, 1).

Desde os Santos Padres do deserto ao Peregrino russo, dos monges do Ocidente àqueles do Oriente, houve uma preocupação fundamental, uma busca apaixonada: conseguir rezar de modo contínuo e perseverante. “Este é o cume da perfeição”, diz Cassiano: “que toda a nossa vida, cada batida de nosso coração se torne uma oração única e ininterrupta” (Cassiano, 1980, 10,7 SC 54,81).

(*) De nacionalidade Vietnamita, depois da última nomeação como arcebispo (1975), foi levado à prisão onde passou 13 anos, nove dos quais no mais completo isolamento. Em 1994 deixou o Vietnã e, em 1998, passou a presidir o Pontifício Conselho para a Justiça e Paz, Santa Sé. Em 2001 o papa João Paulo elegeu-o para o Colégio Cardinalício, faleceu em 2002, vítima de câncer. Em 2007, o papa Bento XVI deu início à causa de sua beatificação.

Fonte: Testemunhas da Esperança (Cap. XIII), Cidade Nova, 2007.   

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