2012-02-12

Encontros, desencontros e reencontros

Texto de: Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Este é o título de um livro de Maria Helena Matarazzo, minha colega da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. No nosso último Congresso, disse a ela que ainda escreveria algo com esse título e hoje me sinto inspirada e autorizada a fazê-lo
.
As redes sociais têm facilitado muito nosso contato com antigos colegas de colégio, faculdade, e nos motivam a marcar um grande reencontro. É inacreditável como parece que nunca nos separamos. As mesmas brincadeiras, conversas e até planos como se fôssemos recomeçar a vida e, enfim, fazermos aquilo que planejamos na juventude.

Sempre saímos desses momentos renovados e com datas marcadas para o próximo reencontro. Tudo seria perfeito se a vida não voltasse ao normal e analisássemos o que estamos fazendo e principalmente com quem estamos vivendo.

Vem, em alguns casos, um sentimento de frustração e tristeza. Cadê aquela jovem garota que já chegou até a ser miss? E o jovem sonhador? Estão quietinhos e muitas vezes solitários. Alguns se tornaram grandes estrelas, outros não conseguiram brilhar. E, para ser sincera, alguns vibram com nosso sucesso. Outros, nem tanto.

E a grande questão é: o que fazer com esses sentimentos? Alguns não vão aos encontros exatamente por desconhecerem suas capacidades de lidarem com um “novo velho”. “Será que vão me achar gordo, chato, fracassado?” Com certeza acharão se é assim que você se sente. Mas outros não, vestem sua melhor roupa, dão uma “repaginada”, levam seu “currículo” profissional e pessoal e seguem numa alegria invejável. Esses sim vão ter um reencontro maravilhoso. Outros são indiferentes, foram os que deixaram “a vida me levar” e até hoje não sabem onde foram parar. Desses ninguém sente falta, talvez na hora da fotografia do grupo ou na despedida do encontro.

Mas o que mais me encanta, e não poderia deixar de ser, são os reencontros amorosos! Depois de tantos anos resolvem dizer finalmente que eram apaixonados, e, na maioria das vezes, com grandes risadas, mas em outras com algumas lágrimas de atraso e desencanto. A conversa quase sempre gira em torno do que poderia ter sido. Mas a melhor parte é renovar os planos e sentimentos. Aí vemos no casal uma alegria juvenil indescritível!

Recomeçar é mais difícil do que começar. Existe um medo enorme de errar de novo. Parece ser a última chance, e muitas vezes é mesmo. Mas cabe a quem encontrou, desencontrou e finalmente reencontrou aproveitar cada momento vivido sem esse tal medo de errar, porque iremos sim continuar sendo nós mesmos, provavelmente com mudanças, mas nossa essência será sempre a mesma. Talvez o grande causador das separações seja o desconhecimento dessa essência e que só depois de algum tempo temos maturidade para reconhecê-la.

Com a honra de escrever aqui o que penso, tenho a ousadia de oferecer o artigo de hoje a todos que durante os meus 50 anos passaram pela minha vida. Para os que eu encontrei, desencontrei e reencontrei minha grande alegria. E aos que eu não consegui mais abraçar, muita saudade!

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Opinião), Fortaleza, 12 de fevereiro de 2012.

5 comentários:

  1. Belo texto Antonio. Esses encontros, desencontros e reencontros a vida nos permite passar, para aprender essa maturidade e não temer em recomeçar. Nunca é tarde se houver vida, e vida disposta a partilhar, sem egoísmo, esse amor que nos permite o encantamento mais brando de um encontro que pode durar até o fim.

    ResponderExcluir
  2. Será que quando encontrarmos alguém que faz nosso coração bater e depois de 10 anos nunca mais conseguimos sentir nada por outra pessoa, o que pode ser obcessão ? doença ? ou realmente pode ser amor ? se alguem souber responda por favor....????

    ResponderExcluir
  3. Ao meu leitor, ou leitora anônima, permita-me uma palavra!

    Esta, de fato, é uma questão complexa, mas que é possível emitir, a partir do ângulo de conhecimento, valores e experiência pessoal, um juízo que se aproxime coerentemente da situação. Evidentemente necessário se faria ter acesso às condições em que este coração conviveu – ou convive - com o sentimento, o contexto em que ele nasceu e o terreno da personalidade em que ele germinou e se cultivou, com suas limitações, feridas, carências, ausências, ou seu conteúdo de satisfação, prazer e preenchimento interior etc. No entanto, de alguma forma cada um de nós sabe do que isto se trata quando um dia ou no hoje existencial um sentimento por alguém lampeja com brilho e força quase que irreversível.

    Diz a máxima filosófica e secular: “O coração tem suas razões que a própria razão desconhece!”. O amor é um fogo que muitas vezes deixa uma labareda como fogueira que queima durante toda a noite e quando ainda é manhã, retirando as cinzas de cima, lá estão as brasas ainda brilhando... Também é verdade que o coração tem a capacidade de se trancar dentro de um sentimento que, por razões muito íntimas, se submete a um jugo que dura uma vida inteira. Pode-se recordar um amor marcante, uma paixão que significou o melhor de nossas vidas ou mesmo se “cultivar” tal labareda sem necessariamente ser escravo do tempo ou infrutífero diante das oportunidades para sermos felizes. A saudade de uma “experiência do ontem” sem prisão, sem sufocamento, sem autodestruição ou mesmo condicionar a vida e todo o seu potencial como alguém que senta sobre uma pedra a olhar o horizonte e ali definha em “amor inesquecível”, quando atrás de si existe uma vida para se viver. Realidades complexas!

    Sabemos, eu sei, que um amor pode marcar a nossa vida para sempre, mas também tudo pode virar obsessão por não trabalharmos nosso interior. Dizer que se trata de uma doença, ninguém pode, apenas a própria pessoa auxiliada por um especialista na questão. Conceber que depois de 10 anos não se conseguiu amar mais uma outra pessoa pode ter sua normalidade dentro de um processo natural em que o coração respondeu ou não aos novos estímulos afetivos sem que isto se tenha tornado neurose e infelicidade. No entanto, 10 anos tentando e não conseguindo, de fato, existe aí um mistério mais profundo. Há sim, a realidade de uma pessoa nos marcar para sempre e até aceitarmos o fato de que “não amei ninguém até hoje como aquela pessoa”, mas é mais importante que a vida, não obstante esta condição, esteja indo adiante, prosseguindo, porque a felicidade provém da capacidade que o amor tem de se refazer, recriar, transbordar suas novidades e surpresas, mas é necessário que queiramos recomeçar, mesmo levando em conta que todo recomeço é sempre mais difícil e o risco é sempre inevitável. Razões que também o coração desconhece!

    (Continua...)

    ResponderExcluir
  4. (Continuando...)

    A história registra experiências de amores que perpassaram não só o coração, mas o tempo. A própria figura do poeta Dante, que nunca se quer beijou sua Beatriz, uma linda jovem que a conheceu quando ainda era moço e se apaixonou, voltando a vê-la não mais que 5 vezes em toda a sua vida, é um exemplo de um “sentimento perdurado”. No entanto, mesmo Dante nunca a esquecendo, encontrou um outro amor, casou e foi feliz (o que necessariamente não é regra para todos). Dante canalizou seu amor não correspondido para a arte, dedicando, inclusive, algumas obras à sua Beatriz. Coisas do coração! E não podemos dizer que se tratava de obsessão, de doença, de neurose. O amor não correspondido, ou fracassado, ou desencontrado depois de um tempo de felicidade e encontro, pode ser algo muito marcante, mas, se vai ser prejudicial para nós ou não, trata-se de uma resposta muito pessoal, da condição da personalidade de cada um.

    Qualquer pessoa costuma nos motivar a prosseguir... ir adiante! “Não conseguir amar outra pessoa” é uma realidade, mas uma realidade que cada um responde a partir de sua capacidade de ressignificar ou não as ausências.

    Obrigado, caro Leitor ou Leitora (anônimo). Peço desculpas se estas palavras foram imaturas ou desconexas da sua realidade. Não é uma resposta, apenas o “meu ângulo de visão”, mas nele acredito.

    “Se encontrardes meu querido, direis que estou doente de amor!” (Cânticos 5,8).

    Seja sempre muito bem vindo ao Blog.
    Antonio Marcos

    ResponderExcluir
  5. Muito Agradecida, Marcos Antonio pelas palavras que me levaram a refletir mais, sobre minhas carências sentimentais, e é bem verdade isso que vc disse, nunca encontrei ninguem que me tratasse tão bem como esse grande amor.....é sempre bom ouvir o ponto de vista de outras pessoas.....tudo de bom pra ti.

    ResponderExcluir