2012-02-11

ABORTO: “Como é bom viver!”

Texto de: Frei Patrício Sciadini, OCD. (Parte 2)

Os economistas, os filósofos, os que se consideram no direito de planejar o futuro da humanidade, se acham em direito de aprovar o aborto até como meio para evitar a super população para que um dia não se tenha uma humanidade faminta, porque a mãe terra é incapaz de dar comida a tantos bilhões de seres humanos, uma mãe terra como “terras secas” que não podem produzir o necessário. É necessário crer num Deus providente e Pai de todos os homens e mulheres por ele criados. É ele quem cuida das aves do céu e das flores dos campos, não deixará de cuidar de nós. E um dia, Jesus colocou uma pergunta que desde sempre foi respondida com a prova da vida: “Não valeis vocês mais do que muitos pardais? Vos faltou alguma coisa?”

É verdade que a fé não pode ser irracional nem determinista e inconsciente, e por isso a Igreja orienta todos os pais e mães a uma paternidade e maternidade responsáveis. A Igreja nunca contra o planejamento familiar e a natureza sábia dotou-nos de razão, de inteligência, de amor à vida para não sermos “reprodutores inconscientes de vidas”, mas geradores de vida no amor e na responsabilidade. Há quem pergunte: “Não seria melhor o ‘aborto’ para aqueles casos em que a vida é indesejável?”, talvez, quantas mães disseram não à gravidez num momento particular, e no entanto nos geraram silenciosamente no amor! Quantas mães solteiras, no sofrimento e por causa da própria fragilidade, e muitas vezes da “sem vergonhice masculina” aceitaram criar seus filhos no sofrimento e vivendo o estigma da marginalização.

Relembrando Pascal, o amor tem razões que a própria razão desconhece. Mas um dos meus leitores poderá até objetar: e por que deixar nascer alguém que hoje, à luz da ciência, pode-se prever que vai ser deficiente físico ou mental, incapaz de ser auto-suficiente, incapaz de ter uma vida “racional”? Não seria melhor evitar os sofrimentos? A ciência não está a serviço do homem?... Estas e outras razões são conhecidas desde sempre e não têm valor. O próprio Hitler falava assim e, para purificar a raça, uma raça geneticamente mais perfeita, construiu os campos de concentração onde milhões de pessoas morreram massacradas em nome de uma raça melhor. Por estes caminhos teremos hipoteticamente uma humanidade “elitista sadia” e, ao mínimo desvio, “bem vinda seja a pena de morte” ou a morte dirigida, orientada, onde cada um que é incapaz de entrar na vida sai dela quando quer e como quer. Há absurdos que são como a corrente de uma cadeia; admitindo um, os outros vêm por necessidade racional.

Eu não gostaria que minha mãe Domênica tivesse abortado. Ela me deu a vida no sofrimento de uma terrível viuvez e me ajudou a crer na vida. Tenho encontrado somente três ou quatro pessoas, tão deprimidas e tão doentes, que teriam gostado de não terem nascido. O que mais me tocou na vida foi o encontro de um excepcional que, num momento de lucidez, me dizia: “Como é bom viver!” Só esta frase é suficiente para nos colocar em favor da vida humana e dizer não a todo tipo de aborto biológico e espiritual. A ninguém é lícito matar a vida, a esperança no seu nascer. Não sou nem médico nem sociólogo, sou simplesmente um cristão e um carmelita descalço chamado ao sacerdócio pela graça de Deus, que acredita que a vida, na sua existência, nunca pode ser eliminada. Recordo ter lido não sei onde nem quem é o autor, uma oração chocante mas verdadeira:

“Senhor, te perdoo porque me criaste sem me pedir licença, mas te amo porque me criaste sem minha licença. Porque, se me tivesses pedido licença, poderia ter respondido ‘não’.” E você, meu amigo e leitor, teria gostado que sua mãe tivesse abortado? Eu não.

Fonte: Uma Palavra Basta (“Aborto”), Edições Shalom, 2004.

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