Redescobrir o belo para nascer outra vez

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, janeiro 02, 2012 Sem Comentários
Entrevista com Aíla Pinheiro, filósofosa e Doutora em Teologia, religiosa membro do Instituto Nova Jerusalém, professora da Faculdade Católica de Fortaleza: Votos - e ações - de paz puxam o fio da meada dos desejos para o ano novo. Nesta entrevista (Parte I), Aila Pinheiro conduz o passear pela esperança.

A filósofa Aila Pinheiro começa o ano organizando a vida. Arruma gavetas e esvazia a mente para dar espaço aos novos amanheceres. Desacelera, para iniciar outra caminhada. Vai devagar, beirando a praia e o dia, vendo as coisas “como quem assiste” - e redescobrindo o belo. Assim, nasce uma vez mais.

Nesta entrevista, feita em um pôr do sol do último dezembro, a filósofa indica um caminho possível para 2012 Para ela, maior do que a violência é a união. “Existem muitas pessoas se unindo em ONGs e tentando fazer algo. Não apenas dizer, ‘eu sinto muito’ e chorar em casa com a dor do outro. Estão se mobilizando. Acredito nessas organizações civis”, sublinha. E mais forte ainda é uma certa esperança: “Acredito que o ser humano possa ser melhor”.

O POVO - O que a senhora costuma fazer na primeira semana do ano novo? Por onde recomeça?
Aila Pinheiro - Primeiro, arrumo a bagunça do quarto (risos). Como sou professora, tenho trabalhos para corrigir, aulas para preparar, livros para ler, aí, vai acumulando coisas. E, depois desse período de confraternização – que dou muito valor, estar com as pessoas, fortalecer os laços de amizade e vida comunitária -, cuido das minhas coisas. Cada gaveta que arrumo, estou com esse propósito de organizar minha vida, de não começar o ano com minha vida bagunçada. E a facilidade que tenho de morar próximo à praia, aí, no final da tarde, dou uma volta, medito. Caminho, encontro as crianças e o povo do bairro... Gosto de me aquietar mais, na primeira semana do ano. Depois, faço retiro de uma semana, vou para a serra. Mas só posso entrar em um clima para fazer um retiro se diminuir meu ritmo. Porque, se não, vou estar num lugar, mas minha mente vai estar a mil. Quero me integrar, me reestruturar. É como um renascimento, o início do ano.

OP - Qual o meio para desanuviar a cabeça? A senhora vai pelas caminhadas no calçadão...
Aila - Nessas caminhadas, vejo as pessoas correndo e penso que a beleza do mar e das coisas não é notada porque as pessoas, ou andam, ou correm pra perder peso e não prestam atenção. Minhas caminhadas não são com objetivo de estética, é pra desanuviar a mente. E gosto de sair com uma frase, vou pensando nela. E vejo todas as coisas como quem assiste: a brincadeira das crianças (aquilo me anima), as futuras gerações caminhando com idosos bem devagarinho, casais namorando... E a gente vai vendo que a vida tem sua beleza... Tinha uma garotinha tentando levar a outra na bicicletinha e eu disse: “Você consegue?”. E ela: “Vou te mostrar que eu consigo!”. E conseguiu. Bati palmas pra ela e disse: “Na vida, sempre diga ‘eu consigo’ e vá fundo!”. Isso me ajuda a não começar o ano com muitas preocupações e dar uma chance.

OP - Qual a última frase que a senhora teve em mente, quando saiu para o por do sol?
Aila - A frase de um pensador judeu (Rabi Eliezer): “Cubra-se com a poeira dos pés de seu mestre”. Os mestres do judaísmo ensinavam aos discípulos caminhando com eles - e a terra de Israel é árida, como é o Nordeste. E, no fim do dia, os discípulos estavam empoeirados. “Cubra-se com a poeira dos pés do seu mestre” é um jeito de dizer: “Ande próximo ao seu mestre, preste atenção no que ele diz, ensina”. E eu estava pensando: será que estou seguindo Jesus bem de perto, deixando-me cobrir com a poeira que sai dos seus pés? Fazendo aquilo que Ele ensinou, vivendo aqueles conceitos muito profundos, que humanizam? As pessoas não precisam nem ser cristãs para por em prática. Gandhi não era cristão e dizia que amava essa mensagem de Jesus.

Fonte: Jornal O Povo (Páginas Azuis, por Ana Mary, jornalista), Fortaleza, 02 de janeiro de 2012.