Acredito que o ser humano possa ser melhor

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, janeiro 02, 2012 Sem Comentários
Entrevista (Parte II) com Aíla Pinheiro, filósofa, Doutora em Teologia, Professora da Faculdade Católica de Fortaleza

OP - Em um ano, acumulamos muito, de papéis a dissabores. Do que a senhora se desfaz, para continuar a caminhada leve?

Aila - Cheguei aqui (em 2010, depois de 13 anos estudando fora, entre Minas Gerais, Espanha e Israel) e as pessoas diziam: “Que bom que ela chegou!”. E tome coisa em cima de mim! Fui aceitando, me sobrecarreguei. E estou tomando a decisão de que coisas preciso deixar. Porque já preparei algumas pessoas que podem assumir. Vou incentivar meus alunos e ex-alunos a assumirem. Se indico alguém, é porque tenho confiança plena.

OP - A senhora está exercitando a confiança no outro...
Aila - Estou. Gosto de distribuir tarefas, de perceber as capacidades que as pessoas têm e investir nos dons. Levo a fama, mas existem muitas mãos trabalhando comigo. E as pessoas precisam notar essas mãos sem a minha presença. Eu me sinto feliz de saber que um ex-aluno se sobressaiu, seguiu seu caminho. Isso é do judaísmo, que estudei tanto: a ambição de um discípulo é ser semelhante ao seu mestre. E o mestre reconhece quando o discípulo está pronto e diz: “De hoje em diante, você é mestre”. É isso que quero fazer porque assim posso colaborar mais com a sociedade.

OP - Qual a vaidade da doutora?
Aila - (risos) A vaidade é porque sou muito consciente daquilo que consegui. Não tenho essa falsa humildade em dizer: “Não sou inteligente, não li isso, não entendi”. E sou de contar histórias: “Quando fui em tal lugar...”. Quem nunca foi, acha que estou me aparecendo. Mas, para mim, é porque tudo é uma vitória. Sou uma menina que nasceu no interior do Piauí e o mais longe que minha família achou que eu poderia ir era até Teresina, fazer um curso pedagógico e voltar para ensinar onde o meu pai ensinava. Minha família mudou para Teresina e fui me desenvolvendo. As pessoas foram acreditando em mim e me incentivando. É por isso que também quero incentivar e apadrinhar as pessoas... Gosto que seja uma vitória. Acredito muito em mim e em Deus. Se somente Deus quisesse isso e eu não tivesse acreditado em mim, eu não teria saído do lugar. Deixei minha família pra poder lutar pelo o que queria, ter meus estudos, participar de uma comunidade. E estou aqui, levando a comunidade (Nova Jerusalém, no Cristo Redentor) à frente. Não entrei nessa comunidade pronta e gosto disso, porque a gente ajuda a construir. Sou muito consciente dos meus dons. Eles vêm de Deus, mas estão em mim, são talentos que faço render.

OP - E quais as principais crenças que a senhora leva para a travessia deste ano?
Aila - Acredito no ser humano. E já vi coisas terríveis, feitas pelo ser humano. Mas tenho minha fé no ser humano. Tenho uma fé na família. A maneira como a gente conduzir as crianças determina o tipo de ser humano que vamos ter no futuro. As pessoas podem fazer uma mudança a partir de uma educação correta dos filhos. Os pais, separados, ou não, são os heróis das crianças. E as crianças podem ser aquilo que os pais passarem de valores. Acredito na bondade que existe. Claro que alguns jogam a chance fora. Essa comunidade foi fundada pelo padre Caetano e ele criou muitas crianças que vinham da Febemce ou que foram colocadas na porta. Muitos não conseguiram ser boas pessoas, mas outros conseguiram. E mesmo aqueles que a gente acha que não são boas pessoas, foram presos, quando andam aqui, eu digo: “Sei que o seu coração é bom. O problema é na cabeça, você não sabe fazer as escolhas corretas”... A gente tem que acreditar e investir em mudança.

OP - O que faz a vida tão cruel, tão violenta?
Aila - A violência sempre foi uma grande questão existencial para as civilizações. Encontramos textos de mais de 3 mil anos fazendo essa pergunta: por que a violência. Houve tempo em que a violência não era tão chocante: as pessoas enforcavam em praça pública e isso era um acontecimento na aldeia. Hoje, a violência nos choca, até a violência contra os animais. Somos mais afetados pela dor do outro. Não acho que estejamos mais violentos, não há uma barbárie e não é apoiada institucionalmente. Temos ainda algumas nações que praticam o terrorismo, mas o grande número das pessoas, no mundo inteiro, se revolta com esse tipo de atitude. Se alguém vai ser apedrejado, em um dos países em que isso acontece, tem uma mobilização mundial... Notamos mais, a violência nos choca mais do que antes. Não é mais tranquilo fazer um genocídio, ditaduras... Não estamos mais violentos, observamos mais essa questão.

OP - Mas essa observação da violência gera a salvação desse mundo?
Aila - Vivemos um paradoxo. Existem muitas pessoas se unindo em ONGs e tentando fazer algo. Não apenas dizer, “eu sinto muito” e chorar em casa com a dor do outro. Estão se mobilizando. Acredito nessas organizações civis. O trabalho voluntário é de alta qualidade. A pessoa saiu de sua casa, de sua atividade cotidiana e disse: “Vou doar meu tempo, meu esforço, meus dons em prol dessa luta bem aqui...”. Pessoas de várias religiões, crenças, etnias. São organizações plurais, em prol de um objetivo. Não foi por causa de uma religião que disse: “Agora, você vai lá...”. Acredito nesse estilo de viver e dizer: “Isso me afeta e vou lutar”. Madre Tereza de Calcutá dizia: “Não me chame para uma passeata contra a guerra, porque não vou. Mas me chame para uma passeata pela paz, que estarei lá”. A gente está num momento que não é lutar contra; é lutar a favor de um valor maior. Isso sensibiliza mais.

OP - Quando o Instituto Nova Jerusalém se instalou, aqui era uma das regiões mais pobres da América Latina. Que transformações a senhora viu?
Aila - Estou aqui há 23 anos. A comunidade começou em 1981. Aqui, o padre Caetano (de Tillesse, pároco do lugar por mais de quatro décadas) fez muitas mudanças. Era um intelectual, reconhecido fora do Brasil e, quando se dizia para as pessoas simples que ele era um estudioso, elas achavam estranho porque era uma pessoa de estar junto com os pobres... Aqui, do lado, tem o Colégio São José (dos Arpoadores), era do nosso terreno. Essas ruas, era um amontoado de casas, e ele dizia: “Gente, tem que deixar a rua”. A própria avenida Leste-Oeste, chegando até a Barra do Ceará, foi uma ideia dele, ele teve que lutar por isso na Prefeitura - só queriam vir até a Pasteur. Local para escolas, departamento de polícia, clínicas de pronto-atendimento, comissões de conciliação. Quando cheguei, aqui já estava bem organizado e o principal desafio eram as gangues de adolescentes. Havia guerra.. Hoje ainda há violência, mas a violência que há em todos os lugares.

OP – Por que a opção pelos pobres?
Aila – Não vejo sentido ser uma intelectual de gabinete, estar confortável e fazendo artigo sobre Deus, enquanto alguém está do lado, passando fome ou sendo vítima de violência. Isso é uma hipocrisia. Não vou conseguir. E era isso que o padre não conseguia. Ele fazia questão, mesmo nas épocas mais perigosas, de ir a pé pra igreja, e ir cumprimentando e visitando fulano e sicrano. Gosto da academia, estou sempre envolvida com questões intelectuais – é a minha profissão. Mas não tem sentido nenhum falar de Deus e defender o direito do outro sem entrar em contato com o outro.

OP – Como é esse Deus que a senhora conhece?
Aila- Meus alunos riem quando digo: “Meu colega de trabalho...” (risos). Já sabem de quem estou falando. Deus é alguém tão presente na minha vida que é Aquele que colaboro com Ele. É alguém tão íntimo que não existe a possibilidade d´eu fazer alguma coisa, por mais secular que seja, que Ele não esteja envolvido. Não acredito nesse Deus que não entra em certos lugares. Porque o Jesus que conheci, da Bíblia, entrava onde estivesse alguém que precisasse Dele. Ele não selecionou pessoas. E eu não posso fazer isso, se quiser segui-lo tão de perto, a ponto de deixar me cobrir com a poeira dos pés Dele. Compreendo um Deus que está comigo desde que acordo, que faço uma caminhada, que encontro com as pessoas para tomar um café bem conversado. Nos momentos de orações, mas nos momentos em que eu me confraternizo, que vou para uma festinha com os alunos e a gente se diverte, ri. Tenho momentos fortes de com Ele, de oração, meditação, para recarregar as baterias. Então, é uma presença que está em mim e caminho com aquela presença.

OP – É um Deus que julga?
Aila – Aí vai depender de como a gente entende esse julgar... É preciso que se pense que Deus é alguém que faça com que a gente assuma as consequências dos nossos atos. Em Deus, a misericórdia não é adversária da justiça. E Deus não deixa de amar quando as pessoas têm que encarar as consequências dos próprios atos. Na dimensão cristã, sempre se acredita que se as consequências que não são assumidas do lado de cá, de alguma forma, têm que ser assumidas na dimensão definitiva. Cada um tem suas teorias sobre como será isso. E é algo que a gente diz pela fé, porque não sabemos. O que sabemos é que Deus, mesmo quando exerce a justiça, continua amando. Ele não é inimigo de ninguém, não quer a destruição do ser humano, mas as pessoas têm que encarar as consequências do que fizeram aos outros.

OP – Por que as pessoas estão tão mais intolerantes e como restaurar o respeito às diferenças?
Aila – É outro paradoxo da nossa época, que é muito plural. As pessoas tentam participar de pequenos grupos – as chamadas tribos - e não aceitam um grupo diferente. Não chegamos ainda no ponto certo, que é nos reunir por afinidades, mas respeitar o outro grupo que tem outras afinidades. Esse é o grande desafio da nossa época. A intolerância começa desde os pequenos grupos dos adolescentes, nos colégios, até formar coisas mais sérias.

OP – Passa pela educação...
Aila – Sim. Nesse ponto, os pedagogos têm um grande papel. É uma coisa que se tem que vigiar e se educar as pessoas a respeitar o diferente. Na geração anterior, lutaram tanto por respeito à igualdade, que esqueceram que o respeito se dá ao diferente. Quando ensinei na faculdade dos jesuítas, em Belo Horizonte, que um aluno começou a criticar minhas aulas porque eu não fazia igual a um padre jesuíta, tive que dizer: “Quando você se matriculou na minha matéria, sabia que sou brasileira, nordestina, mulher. Não sou padre, jesuíta e não tenho 40 anos de estudo bíblico. Paciência, você tem que respeitar o fato d´eu ser diferente do outro professor que se aposentou”. Temos que lutar para que nossas diferenças sejam respeitadas, para que possam conviver harmoniosamente. Porque elas são maravilhosas.

OP – À luz da filosofia, o que significa esperança, uma palavra já tão gasta e tão reciclada no começo do ano?

Aila – Esperança quer dizer que algo ainda não estou vendo, mas acredito na possibilidade acontecer. E não é esperar de braços cruzados, que eu contribua para que esse algo venha a acontecer. Tem uma passagem da Carta aos Hebreus que diz que nossa esperança é como uma âncora lançada para o céu. A âncora mantém o navio sem ficar à deriva. E essa Carta aos Hebreus diz que a esperança é uma âncora, ela nos mantém seguros. É porque acredito que algo melhor, que ainda não nasceu, possa acontecer, que me sinto seguro. Não é porque estou vendo, é porque eu acredito. É por isso que ela está muito ligada com a fé. Então, acredito que o ser humano possa ser melhor. Veja: estamos conversando aqui (calçadão da Vila do Mar) e isso, há alguns anos, seria impossível. Não teria essa tranquilidade, as crianças sem ter medo de uma bala, brincando, soltando pipa, correndo pra lá e pra cá, as pessoas caminhando... Foram pessoas que acreditaram que era possível, lutaram por isso, deram o melhor de si, que fez isso acontecer. Se as pessoas tivessem cruzado os braços, “Isso é um bairro violento e não tem jeito”, isso aqui não seria possível. Muitas pessoas não viram, faleceram, mas acreditaram. E a esperança delas possibilitou isso.

Fonte: Jornal O Povo (Páginas Azuis, por Ana Mary, jornalista), Fortaleza, 02 de janeiro de 2012.