"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2012-01-24

Mudanças: novo tempo no coração e nos passos para Deus

Queridos irmãos e irmãs, leitores e leitoras de minhas páginas - espaços de fé, comunhão e evangelização -, finalmente fizemos as devidas mudanças no design do Blog principal e do “Linhas e Reticências”, as quais eram esperadas a certo tempo. Mudanças simples, cuidando de deixar o essencial e conservando ainda mais o verde suave da esperança, também comum a este Tempo Litúrgico da Igreja, através do qual vivemos o “extraordinário no ordinário”, a celebração dos mistérios da nossa Salvação. Mudanças necessárias como símbolo de um novo tempo no coração e nos passos para Deus. Novo tempo na vida da Igreja, como bem manifestou o Santo Padre com o anúncio do Ano da Fé em comemoração aos 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II, o que veio a ser naquela ocasião e ainda hoje, ocasião de renovada esperança para todo o povo de Deus. Rezamos para que as mudanças do Blog sejam acolhidas em cada coração, na certeza de que este espaço, ainda que com seus limites, não teria razão de existir se não em função de colaborar na evangelização, “dando as devidas razões de um coração que crê” (cf. 1Pd 3,15). Da mesma forma se renova o desejo e o compromisso de que as partilhas voltem a ser mais freqüentes, o que sempre fizeram bem a muita gente. Fica para nós, no começo deste novo, no continuar deste novo tempo, as palavras da Oração conclusiva do celebrante após a Prece dos Fiéis na liturgia deste dia, memória do “doutor do amor divino”, São Francisco Sales: “Iluminai-nos, Senhor Deus, para que, inspirados por vós, vos sirvamos no amor aos irmãos e irmãs”. Rezo e peço a oração de todos aqueles e aquelas que, de alguma forma são edificados com estas linhas de fé, na esperança de que as simples partilhas sejam frutos de uma iluminação da graça de Deus e que tudo seja um serviço de amor a Deus na pessoa de cada um. Deus abençoe a você, leitor e leitora deste Blog. Conte com minhas orações. Que Nossa Senhora, Mãe da esperança, guarde-nos sempre!

Antonio Marcos
Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2012.   

2012-01-21

Conversão ao Evangelho: da ruína, ao tempo novo!

A Bíblia, revelação do Deus transcendente, abre-se e se fecha com observações temporais: “No princípio Deus criou...” (Gn 1,1); “Sim, venho muito em breve” (Ap 22,20). Deus não é cultuado, na Bíblia, de modo atemporal e abstrato, em sua essência eterna, como nos filósofos gregos, mas em suas intervenções no momento presente do homem, que fazem da história do mundo uma história divina. Na experiência humana do tempo se sobrepõem dois aspectos: um, regulado pelos ciclos da natureza (tempo cósmico), e outro, ritmado pelo fluxo dos acontecimentos (tempo histórico).

O tempo histórico, na mentalidade do homem bíblico, é marcado por grandes intervenções de Deus na história, de tal modo que a história do mundo se torna uma história da salvação. Esta história caminha trabalhosamente, através de etapas sucessivas, para Cristo, que representa seu cume e pleno acabamento. Cristo tem consciência disto quanto, no início de sua pregação, declara expressamente: “O tempo está realizado e o Reino de Deus está próximo...”. Com ele chegou a “plenitude dos tempos”. Ele introduz na história o elemento definitivo e discriminante pelo qual podemos dizer: antes... agora.

“Outrora éreis sem Cristo... estranhos às alianças da promessa” (Ef 2,12). “Agora, ele vos reconciliou pela morte do seu corpo de carne” (Cl 1,22). Com Jesus, verificou-se o evento definitivo, mas este ainda não deu todos os seus frutos. Os “últimos tempos” estão apenas inaugurados: a partir da sua ressurreição, eles se dilatam e se tornam “tempo da Igreja”. Por isso é que o reino de Deus tem uma dimensão atual e escatológica.

A conversão ao evangelho de Jesus Cristo representa para cada homem mudança de era, uma passagem do mundo presente ao mundo futuro, do tempo antigo, que caminha para a ruína, ao tempo novo, que caminha para a plena manifestação. A importância do “tempo da Igreja” deriva do fato de tornar ele possível essa passagem; e o “momento favorável” (Kairós), o “dia da salvação” (2Cor 6,2).

Fonte: Missal Dominical, Ed. 1995: Comentários introdutórios – 3º Domingo do Tempo Comum, Ano B. 

Tempo de desgosto e tristeza para marginalizados

A vitória de Cristo sobre a morte é superação dos limites do tempo e do espaço. Cristo opera uma demitização do tempo contra as concepções que haviam divinizado, coisificado o incessante e incontrolável fluxo das estações. A vitória sobre a morte cria um tempo e um espaço para o homem, tempo e espaço de construção de sua identidade e da identidade de toda a comunidade humana. Um “tempo para o homem” não é só dom; deve ser também conquista. Mas a busca de tempos de produção cada vez mais breves, a impossibilidade de deter-se, a máquina cada vez mais veloz como símbolo da potência, a incapacidade de controlar a corrida dos acontecimentos, a necessidade frenética de atualização para não se sentir superado de um dia para o outro, podem ser sintomas de uma nova sujeição do homem ao tempo. Uma marcha para trás.

Há quem esteja cansado por já ter caminhado demais; há quem se viu repentinamente posto à margem, como detrito inútil; há os que foram lançados fora pela engrenagem social: anciãos, doentes crônicos, excepcionais, esquizofrênicos. A sociedade tecnológica não tem tempo para eles, porque não são úteis ao processo de produção. Para estes, constroem-se casa de saúde, hospitais, abrigos e asilos. O importante é que não impeçam o caminho. Tempo de desgosto e tristeza para marginalizados, os que se reconhecem um “peso”. Desejo do ancião de sair de seu meio, ou tentativas, por parte da família, de convencê-lo de que na casa de saúde “tudo é adequado a ele”: a sociedade se recusa a ser “comunidade terapêutica”, na qual o doente seja curado sem ser cortado do contexto social em que vive.

Fonte: Missal Dominical, Ed. 1995: Comentários introdutórios – 3º Domingo do Tempo Comum, Ano B. 

2012-01-06

Epifania do Senhor: um amor que rompe as fronteiras


Artigo do Pe. Fernando Torres, cmf.

Deus se fez carne. Esse é o ponto central da celebração do Natal. Mas esse acontecimento tão transcendental para a história da humanidade e do mundo leva consigo uma limitação necessária: acontece em um tempo e lugar reais. Não poderia ser de outra maneira. No final, o lugar é Belém, o tempo é o ano em que o imperador Augusto mandou fazer um censo em todo o Império. Mas aquela criança que nasceu em Belém não era apenas para os judeus, mas para todo o mundo. O amor de Deus manifestado nele não conhece fronteiras. Essa é a chave da celebração desse dia.

A Epifania não é nada além de uma maneira de celebrar o nascimento de Jesus. Hoje o vemos a partir de uma nova perspectiva. Não se trata somente de contemplar a criança nascida em meio à pobreza da manjedoura – porque não havia estalagem para os seus pais. Não é caso de apenas reconhecermos sua fragilidade e fraqueza. Hoje o vemos como aquilo que ele é: a luz que iluminará todos os povos. Hoje nos damos conta que essa criança recém-nascida é o amor de Deus que rompe todas as fronteiras que nós, homens, criamos neste mundo.

Fronteiras já havia no tempo de Jesus e elas continuam erguidas ainda hoje. Quando não são feitas pelas leis, são levantadas pelas tradições, pelos preconceitos e pela desconfiança. Há fronteiras marcadas por injustiças, raças, línguas, religiões ou ideologias políticas. Demasiadas fronteiras que dividem a família de Deus, que rompem a unidade de homens e mulheres deste mundo – o fato fundamental e indiscutível de que todos somos filhos de Deus.

As leituras deste dia nos falam dessa universalidade que deveria ser a característica mais básica da família humana. De uma maneira concisa e clara, afirma-se na segunda leitura extraída da Carta aos Efésios. O plano de Deus consiste em que “todos os povos compartilhem a mesma herança, visto que são membros do mesmo corpo e participam da mesma promessa de Jesus Cristo por meio do Evangelho”. Não é necessária nenhuma outra explicação. Deus não pensa mais que reunir todos os seus filhos ao redor da mesma mesa.        

Isso é o mesmo que, de uma forma mais poética, se afirma no relato do Evangelho. A história dos três reis magos do oriente - que tinham avistado uma estrela que os acaba guiando até o lugar em que está o recém-nascido a quem, em sinal de respeito e adoração, dão de presente ouro, incenso e mirra - confirma o que já foi dito. Os povos que viviam para além das fronteiras da Judeia reconheceram a importância daquela criança e seu significado para seus próprios povos. Hoje somos convidados a romper com os preconceitos e as fronteiras que dividem nossa humanidade para que, assim, possamos tornar realidade o plano de Deus.

Quais preconceitos me separam dos meus irmãos? Será que vejo como inimigos os que pertencem a outra raça e falam outra língua, ou, simplesmente, os que pensam diferente de mim em política? O que eu posso fazer para quebrar essas barreiras?

Fonte: Meditações sobre leituras dominicais (Festa da Epifania do Senhor, Ano B), 2009. 

2012-01-02

Acredito que o ser humano possa ser melhor

Entrevista (Parte II) com Aíla Pinheiro, filósofa, Doutora em Teologia, Professora da Faculdade Católica de Fortaleza

OP - Em um ano, acumulamos muito, de papéis a dissabores. Do que a senhora se desfaz, para continuar a caminhada leve?

Aila - Cheguei aqui (em 2010, depois de 13 anos estudando fora, entre Minas Gerais, Espanha e Israel) e as pessoas diziam: “Que bom que ela chegou!”. E tome coisa em cima de mim! Fui aceitando, me sobrecarreguei. E estou tomando a decisão de que coisas preciso deixar. Porque já preparei algumas pessoas que podem assumir. Vou incentivar meus alunos e ex-alunos a assumirem. Se indico alguém, é porque tenho confiança plena.

OP - A senhora está exercitando a confiança no outro...
Aila - Estou. Gosto de distribuir tarefas, de perceber as capacidades que as pessoas têm e investir nos dons. Levo a fama, mas existem muitas mãos trabalhando comigo. E as pessoas precisam notar essas mãos sem a minha presença. Eu me sinto feliz de saber que um ex-aluno se sobressaiu, seguiu seu caminho. Isso é do judaísmo, que estudei tanto: a ambição de um discípulo é ser semelhante ao seu mestre. E o mestre reconhece quando o discípulo está pronto e diz: “De hoje em diante, você é mestre”. É isso que quero fazer porque assim posso colaborar mais com a sociedade.

OP - Qual a vaidade da doutora?
Aila - (risos) A vaidade é porque sou muito consciente daquilo que consegui. Não tenho essa falsa humildade em dizer: “Não sou inteligente, não li isso, não entendi”. E sou de contar histórias: “Quando fui em tal lugar...”. Quem nunca foi, acha que estou me aparecendo. Mas, para mim, é porque tudo é uma vitória. Sou uma menina que nasceu no interior do Piauí e o mais longe que minha família achou que eu poderia ir era até Teresina, fazer um curso pedagógico e voltar para ensinar onde o meu pai ensinava. Minha família mudou para Teresina e fui me desenvolvendo. As pessoas foram acreditando em mim e me incentivando. É por isso que também quero incentivar e apadrinhar as pessoas... Gosto que seja uma vitória. Acredito muito em mim e em Deus. Se somente Deus quisesse isso e eu não tivesse acreditado em mim, eu não teria saído do lugar. Deixei minha família pra poder lutar pelo o que queria, ter meus estudos, participar de uma comunidade. E estou aqui, levando a comunidade (Nova Jerusalém, no Cristo Redentor) à frente. Não entrei nessa comunidade pronta e gosto disso, porque a gente ajuda a construir. Sou muito consciente dos meus dons. Eles vêm de Deus, mas estão em mim, são talentos que faço render.

OP - E quais as principais crenças que a senhora leva para a travessia deste ano?
Aila - Acredito no ser humano. E já vi coisas terríveis, feitas pelo ser humano. Mas tenho minha fé no ser humano. Tenho uma fé na família. A maneira como a gente conduzir as crianças determina o tipo de ser humano que vamos ter no futuro. As pessoas podem fazer uma mudança a partir de uma educação correta dos filhos. Os pais, separados, ou não, são os heróis das crianças. E as crianças podem ser aquilo que os pais passarem de valores. Acredito na bondade que existe. Claro que alguns jogam a chance fora. Essa comunidade foi fundada pelo padre Caetano e ele criou muitas crianças que vinham da Febemce ou que foram colocadas na porta. Muitos não conseguiram ser boas pessoas, mas outros conseguiram. E mesmo aqueles que a gente acha que não são boas pessoas, foram presos, quando andam aqui, eu digo: “Sei que o seu coração é bom. O problema é na cabeça, você não sabe fazer as escolhas corretas”... A gente tem que acreditar e investir em mudança.

OP - O que faz a vida tão cruel, tão violenta?
Aila - A violência sempre foi uma grande questão existencial para as civilizações. Encontramos textos de mais de 3 mil anos fazendo essa pergunta: por que a violência. Houve tempo em que a violência não era tão chocante: as pessoas enforcavam em praça pública e isso era um acontecimento na aldeia. Hoje, a violência nos choca, até a violência contra os animais. Somos mais afetados pela dor do outro. Não acho que estejamos mais violentos, não há uma barbárie e não é apoiada institucionalmente. Temos ainda algumas nações que praticam o terrorismo, mas o grande número das pessoas, no mundo inteiro, se revolta com esse tipo de atitude. Se alguém vai ser apedrejado, em um dos países em que isso acontece, tem uma mobilização mundial... Notamos mais, a violência nos choca mais do que antes. Não é mais tranquilo fazer um genocídio, ditaduras... Não estamos mais violentos, observamos mais essa questão.

OP - Mas essa observação da violência gera a salvação desse mundo?
Aila - Vivemos um paradoxo. Existem muitas pessoas se unindo em ONGs e tentando fazer algo. Não apenas dizer, “eu sinto muito” e chorar em casa com a dor do outro. Estão se mobilizando. Acredito nessas organizações civis. O trabalho voluntário é de alta qualidade. A pessoa saiu de sua casa, de sua atividade cotidiana e disse: “Vou doar meu tempo, meu esforço, meus dons em prol dessa luta bem aqui...”. Pessoas de várias religiões, crenças, etnias. São organizações plurais, em prol de um objetivo. Não foi por causa de uma religião que disse: “Agora, você vai lá...”. Acredito nesse estilo de viver e dizer: “Isso me afeta e vou lutar”. Madre Tereza de Calcutá dizia: “Não me chame para uma passeata contra a guerra, porque não vou. Mas me chame para uma passeata pela paz, que estarei lá”. A gente está num momento que não é lutar contra; é lutar a favor de um valor maior. Isso sensibiliza mais.

OP - Quando o Instituto Nova Jerusalém se instalou, aqui era uma das regiões mais pobres da América Latina. Que transformações a senhora viu?
Aila - Estou aqui há 23 anos. A comunidade começou em 1981. Aqui, o padre Caetano (de Tillesse, pároco do lugar por mais de quatro décadas) fez muitas mudanças. Era um intelectual, reconhecido fora do Brasil e, quando se dizia para as pessoas simples que ele era um estudioso, elas achavam estranho porque era uma pessoa de estar junto com os pobres... Aqui, do lado, tem o Colégio São José (dos Arpoadores), era do nosso terreno. Essas ruas, era um amontoado de casas, e ele dizia: “Gente, tem que deixar a rua”. A própria avenida Leste-Oeste, chegando até a Barra do Ceará, foi uma ideia dele, ele teve que lutar por isso na Prefeitura - só queriam vir até a Pasteur. Local para escolas, departamento de polícia, clínicas de pronto-atendimento, comissões de conciliação. Quando cheguei, aqui já estava bem organizado e o principal desafio eram as gangues de adolescentes. Havia guerra.. Hoje ainda há violência, mas a violência que há em todos os lugares.

OP – Por que a opção pelos pobres?
Aila – Não vejo sentido ser uma intelectual de gabinete, estar confortável e fazendo artigo sobre Deus, enquanto alguém está do lado, passando fome ou sendo vítima de violência. Isso é uma hipocrisia. Não vou conseguir. E era isso que o padre não conseguia. Ele fazia questão, mesmo nas épocas mais perigosas, de ir a pé pra igreja, e ir cumprimentando e visitando fulano e sicrano. Gosto da academia, estou sempre envolvida com questões intelectuais – é a minha profissão. Mas não tem sentido nenhum falar de Deus e defender o direito do outro sem entrar em contato com o outro.

OP – Como é esse Deus que a senhora conhece?
Aila- Meus alunos riem quando digo: “Meu colega de trabalho...” (risos). Já sabem de quem estou falando. Deus é alguém tão presente na minha vida que é Aquele que colaboro com Ele. É alguém tão íntimo que não existe a possibilidade d´eu fazer alguma coisa, por mais secular que seja, que Ele não esteja envolvido. Não acredito nesse Deus que não entra em certos lugares. Porque o Jesus que conheci, da Bíblia, entrava onde estivesse alguém que precisasse Dele. Ele não selecionou pessoas. E eu não posso fazer isso, se quiser segui-lo tão de perto, a ponto de deixar me cobrir com a poeira dos pés Dele. Compreendo um Deus que está comigo desde que acordo, que faço uma caminhada, que encontro com as pessoas para tomar um café bem conversado. Nos momentos de orações, mas nos momentos em que eu me confraternizo, que vou para uma festinha com os alunos e a gente se diverte, ri. Tenho momentos fortes de com Ele, de oração, meditação, para recarregar as baterias. Então, é uma presença que está em mim e caminho com aquela presença.

OP – É um Deus que julga?
Aila – Aí vai depender de como a gente entende esse julgar... É preciso que se pense que Deus é alguém que faça com que a gente assuma as consequências dos nossos atos. Em Deus, a misericórdia não é adversária da justiça. E Deus não deixa de amar quando as pessoas têm que encarar as consequências dos próprios atos. Na dimensão cristã, sempre se acredita que se as consequências que não são assumidas do lado de cá, de alguma forma, têm que ser assumidas na dimensão definitiva. Cada um tem suas teorias sobre como será isso. E é algo que a gente diz pela fé, porque não sabemos. O que sabemos é que Deus, mesmo quando exerce a justiça, continua amando. Ele não é inimigo de ninguém, não quer a destruição do ser humano, mas as pessoas têm que encarar as consequências do que fizeram aos outros.

OP – Por que as pessoas estão tão mais intolerantes e como restaurar o respeito às diferenças?
Aila – É outro paradoxo da nossa época, que é muito plural. As pessoas tentam participar de pequenos grupos – as chamadas tribos - e não aceitam um grupo diferente. Não chegamos ainda no ponto certo, que é nos reunir por afinidades, mas respeitar o outro grupo que tem outras afinidades. Esse é o grande desafio da nossa época. A intolerância começa desde os pequenos grupos dos adolescentes, nos colégios, até formar coisas mais sérias.

OP – Passa pela educação...
Aila – Sim. Nesse ponto, os pedagogos têm um grande papel. É uma coisa que se tem que vigiar e se educar as pessoas a respeitar o diferente. Na geração anterior, lutaram tanto por respeito à igualdade, que esqueceram que o respeito se dá ao diferente. Quando ensinei na faculdade dos jesuítas, em Belo Horizonte, que um aluno começou a criticar minhas aulas porque eu não fazia igual a um padre jesuíta, tive que dizer: “Quando você se matriculou na minha matéria, sabia que sou brasileira, nordestina, mulher. Não sou padre, jesuíta e não tenho 40 anos de estudo bíblico. Paciência, você tem que respeitar o fato d´eu ser diferente do outro professor que se aposentou”. Temos que lutar para que nossas diferenças sejam respeitadas, para que possam conviver harmoniosamente. Porque elas são maravilhosas.

OP – À luz da filosofia, o que significa esperança, uma palavra já tão gasta e tão reciclada no começo do ano?

Aila – Esperança quer dizer que algo ainda não estou vendo, mas acredito na possibilidade acontecer. E não é esperar de braços cruzados, que eu contribua para que esse algo venha a acontecer. Tem uma passagem da Carta aos Hebreus que diz que nossa esperança é como uma âncora lançada para o céu. A âncora mantém o navio sem ficar à deriva. E essa Carta aos Hebreus diz que a esperança é uma âncora, ela nos mantém seguros. É porque acredito que algo melhor, que ainda não nasceu, possa acontecer, que me sinto seguro. Não é porque estou vendo, é porque eu acredito. É por isso que ela está muito ligada com a fé. Então, acredito que o ser humano possa ser melhor. Veja: estamos conversando aqui (calçadão da Vila do Mar) e isso, há alguns anos, seria impossível. Não teria essa tranquilidade, as crianças sem ter medo de uma bala, brincando, soltando pipa, correndo pra lá e pra cá, as pessoas caminhando... Foram pessoas que acreditaram que era possível, lutaram por isso, deram o melhor de si, que fez isso acontecer. Se as pessoas tivessem cruzado os braços, “Isso é um bairro violento e não tem jeito”, isso aqui não seria possível. Muitas pessoas não viram, faleceram, mas acreditaram. E a esperança delas possibilitou isso.

Fonte: Jornal O Povo (Páginas Azuis, por Ana Mary, jornalista), Fortaleza, 02 de janeiro de 2012.

Redescobrir o belo para nascer outra vez

Entrevista com Aíla Pinheiro, filósofosa e Doutora em Teologia, religiosa membro do Instituto Nova Jerusalém, professora da Faculdade Católica de Fortaleza: Votos - e ações - de paz puxam o fio da meada dos desejos para o ano novo. Nesta entrevista (Parte I), Aila Pinheiro conduz o passear pela esperança.

A filósofa Aila Pinheiro começa o ano organizando a vida. Arruma gavetas e esvazia a mente para dar espaço aos novos amanheceres. Desacelera, para iniciar outra caminhada. Vai devagar, beirando a praia e o dia, vendo as coisas “como quem assiste” - e redescobrindo o belo. Assim, nasce uma vez mais.

Nesta entrevista, feita em um pôr do sol do último dezembro, a filósofa indica um caminho possível para 2012 Para ela, maior do que a violência é a união. “Existem muitas pessoas se unindo em ONGs e tentando fazer algo. Não apenas dizer, ‘eu sinto muito’ e chorar em casa com a dor do outro. Estão se mobilizando. Acredito nessas organizações civis”, sublinha. E mais forte ainda é uma certa esperança: “Acredito que o ser humano possa ser melhor”.

O POVO - O que a senhora costuma fazer na primeira semana do ano novo? Por onde recomeça?
Aila Pinheiro - Primeiro, arrumo a bagunça do quarto (risos). Como sou professora, tenho trabalhos para corrigir, aulas para preparar, livros para ler, aí, vai acumulando coisas. E, depois desse período de confraternização – que dou muito valor, estar com as pessoas, fortalecer os laços de amizade e vida comunitária -, cuido das minhas coisas. Cada gaveta que arrumo, estou com esse propósito de organizar minha vida, de não começar o ano com minha vida bagunçada. E a facilidade que tenho de morar próximo à praia, aí, no final da tarde, dou uma volta, medito. Caminho, encontro as crianças e o povo do bairro... Gosto de me aquietar mais, na primeira semana do ano. Depois, faço retiro de uma semana, vou para a serra. Mas só posso entrar em um clima para fazer um retiro se diminuir meu ritmo. Porque, se não, vou estar num lugar, mas minha mente vai estar a mil. Quero me integrar, me reestruturar. É como um renascimento, o início do ano.

OP - Qual o meio para desanuviar a cabeça? A senhora vai pelas caminhadas no calçadão...
Aila - Nessas caminhadas, vejo as pessoas correndo e penso que a beleza do mar e das coisas não é notada porque as pessoas, ou andam, ou correm pra perder peso e não prestam atenção. Minhas caminhadas não são com objetivo de estética, é pra desanuviar a mente. E gosto de sair com uma frase, vou pensando nela. E vejo todas as coisas como quem assiste: a brincadeira das crianças (aquilo me anima), as futuras gerações caminhando com idosos bem devagarinho, casais namorando... E a gente vai vendo que a vida tem sua beleza... Tinha uma garotinha tentando levar a outra na bicicletinha e eu disse: “Você consegue?”. E ela: “Vou te mostrar que eu consigo!”. E conseguiu. Bati palmas pra ela e disse: “Na vida, sempre diga ‘eu consigo’ e vá fundo!”. Isso me ajuda a não começar o ano com muitas preocupações e dar uma chance.

OP - Qual a última frase que a senhora teve em mente, quando saiu para o por do sol?
Aila - A frase de um pensador judeu (Rabi Eliezer): “Cubra-se com a poeira dos pés de seu mestre”. Os mestres do judaísmo ensinavam aos discípulos caminhando com eles - e a terra de Israel é árida, como é o Nordeste. E, no fim do dia, os discípulos estavam empoeirados. “Cubra-se com a poeira dos pés do seu mestre” é um jeito de dizer: “Ande próximo ao seu mestre, preste atenção no que ele diz, ensina”. E eu estava pensando: será que estou seguindo Jesus bem de perto, deixando-me cobrir com a poeira que sai dos seus pés? Fazendo aquilo que Ele ensinou, vivendo aqueles conceitos muito profundos, que humanizam? As pessoas não precisam nem ser cristãs para por em prática. Gandhi não era cristão e dizia que amava essa mensagem de Jesus.

Fonte: Jornal O Povo (Páginas Azuis, por Ana Mary, jornalista), Fortaleza, 02 de janeiro de 2012.  

2012-01-01

Nascemos para sermos uma bênção e um abrigo aos outros


Artigo do Pe. Paulo Botas, mts.

Os Padres da Igreja, desde o século II, falam da vida cristã como “um nascimento íntimo e espiritual do Verbo no coração do homem”, portanto nossa maternidade espiritual encontra seu fundamento na maternidade física de Maria, e somos cristãos na medida em que participamos dessa mesma maternidade.

Pelo seu Sim, Maria faz com que o eclesial e o pessoal sejam uma só coisa, inseparável uma da outra. Maria é a primeira célula da Igreja e de toda a existência cristã pessoal. Ela nos revela e testemunha, pelo seu consentimento e adesão aos desígnios de Deus, que o cristão é, sobretudo, um ser que pronuncia um Sim e é a partir deste Sim que nos tornamos filhos e filhas de Deus.

A alegria e a esperança de sermos cristãos são, ao mesmo tempo, um dom e uma responsabilidade, que nos comprometem “em meio a uma geração perversa e depravada, diante da qual devemos brilhar como estrelas no mundo, ostentando a mensagem da vida” (Fl 2,15).

Maria foi declarada THEOTÓKOS – Mãe de Deus – no Concílio de Éfeso, em 431, e celebrar a encarnação do Verbo significa glorificar inseparavelmente Maria. Maria, a Mãe de Deus, nos ensina quão maravilhoso é poder estruturar a nossa vida na beleza; a nossa casa como sinal de um acolhimento amigo. E quão ainda é mais maravilhoso fazer de toda a nossa vida a irradiação da Presença Divina na banalidade das nossas ocupações cotidianas, abrindo em nossa presença um espaço de luz, de alegria e de ternura. Maria teceu em suas entranhas a bênção de Deus para que extirpasse o pecado do mundo feito ódio e divisão.

Nascemos, como Jesus, dos ventres de nossas mães para sermos, com todos os homens e mulheres do mundo, uma bênção e um abrigo; uma face resplandecente e compassiva, cujo rosto se volte para os mais necessitados e lhes entregue a paz.

Fonte: Publicado no Semanário Litúrgico Deus Conosco, 01 de janeiro de 2012 – Catequese Bíblico-Missionária (Negrito do texto é nosso).