Natal é a riqueza de Deus oferecida aos homens

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, dezembro 24, 2011 Sem Comentários

Pe. Dr. Brendan Coleman Mc Donald, redentorista, assessor da CNBB Reg. NE1 

Cada celebração do nascimento de Cristo é uma reafirmação da força invencível da Verdade e do Bem. Mostra o valor de uma luz que se acende nas trevas. Em meio à fome, discórdias, conflitos e guerras entre os homens, cada comemoração do nascimento do redentor deve ser um ato de Fé na mensagem salvífica do Evangelho e o anúncio da solidariedade do Cristo com os homens. Aí está a fonte da invencibilidade da Luz que ali se acendeu. A Festa do Natal nos convida insistentemente à reflexão. Oportunidade esta para uma visão retrospectiva sobre os mais de dois milênios que nos separam do nascimento de Cristo em Belém. A doutrina que ele veio trazer aos homens, os caminhos que abriu, os resultados de sua obra, iniciada no estábulo, compensaram, nesse longo período da história, tanto sacrifício e abnegação? Obviamente, a resposta é afirmativa se nossa apreciação é feita à luz da fé, tendo em vista os insondáveis desígnios de Deus. Mas também nossa apreciação é positiva sob o ângulo puramente terreno. Basta olhar a trajetória da humanidade nesses séculos, para ver que o Menino nascido em Belém é realmente vitorioso.

Pensemos no fim da escravatura, na emancipação da mulher, na preservação do direito à vida, na preocupação pelo bem-estar do outro, nos direitos humanos, na justiça e igualdade para todos etc. Interessante observar que as idéias por ele ensinadas agem como fermento, às vezes sem o rótulo de origem, mas que ao observador arguto são facilmente identificáveis. Além disso, ajudou à melhor explicitação da lei natural, mesmo entre aqueles que não aceitam o nome de cristão. Porém, depois de mais de dois mil anos resta ainda um longo caminho a percorrer para uma total aceitação de uma doutrina que não pode ser vivida por partes, mas que traz em si uma exigência de uma opção definitiva. Junto ao Prescépio, observemos o mundo em que vivemos: corações amargurados, guerras, ódios, injustiças chocantes, egoísmo e individualismo exacerbados, miséria deplorável, fome, doenças, desemprego, narcotráfico crescendo verticalmente, desrespeito à pessoa humana, assaltos e assassinatos etc. e temos aí uma idéia do caminho a percorrer.

Todos buscam na época do Natal, a alegria, embora muitos ignoram sua origem ou confundam-na com a manifestação de sentimentos meramente humanos quando, na verdade, ela revela um acontecimento extraordinário na História: o nascimento do Redentor. A universalidade das comemorações natalinas é algo assombroso em um mundo que aparenta estar divorciado do eterno. Nas mais diversas modalidades, mesmo sem conheceram explicitamente o Cristo, e até rejeitando-o os homens se alegram e desejam uns aos outros felicidade. Há preocupação em comunicar ao próximo o bem-estar. Como uma aula universal, um mestre invisível para muitos, mas sempre admirável cada ano transmite ao mundo lições de paz, de concórdia, de fraternidade. O Natal, infelizmente deturpado em algumas de suas manifestações, é uma escola do Bem, um impulso em busca do Infinito.

Diante de nossa realidade, das imensas dificuldades do mundo de hoje, alguém que contemple o Presépio e escute a voz misteriosa de Deus, que se fez carne, não poderá ser dominado pelo pessimismo. Porque, brota do íntimo do ser humano um imenso grito de gratidão, de reconhecimento a esta Criança, que se fez semelhante aos homens, para que nós nos assemelhássemos a Deus. Do silêncio de Belém, emana uma magnífica proclamação de presença de Deus no mundo. Ali está o Salvador fonte de felicidade e paz. O Prescépio exprime uma lição a um mundo que valoriza exageradamente o dinheiro, o poder e o gozo. Na manjedoura está alguém que de tão pobre nem uma casa possui, nasce em um estábulo, desconhecido dos poderosos. De outro lado, recebe com o mesmo carinho pobres e ricos, ignorantes e letrados, pastores, reis e sábios. Seu ensinamento é de união e renúncia e não de ódio e separação. O Natal nos faz encontrar o Senhor na forma mais humana e humilde. Na pobreza da gruta o homem descobre o seu Criador e, se aceita voluntariamente o Santo descido até nós, recebe uma força que nos leva até Deus.

Para nós cristãos o Natal assume proporções extraordinárias e contém ensinamentos profundos, como revela a própria essência divina. O Natal proclama a inserção de Deus no mundo, neste mundo em que nós vivemos. Ele não se envergonhou de se nivelar a nós, pois em sua geneologia se encontram pecadores. Esta inserção de Cristo na humanidade é uma mensagem de humildade e de perdão. Seu nascimento ultrapassa toda a obra de Deus Criador, plenifica as maravilhas da providência divina. Ele se irradiou e está vivo em toda parte. O Presépio é de maneira inefável a manifestação de Deus, único e santo. O Natal nos faz encontrar o Senhor na forma mais humana e humilde. Na pobreza da gruta o homem descobre o seu Criador e, se aceita voluntariamente o Santo descido até nós, recebe uma força que nos leva até Deus. Em meio ao bulício das festas e transbordamentos de alegres manifestações, é importante e necessário preservar a tranqüilidade interior para uma frutuosa e douradora comemoração do Natal.

Nesta conjuntura, como viver o nascimento de Cristo? Festejos meramente profanos? Votos vazios de significado real? Ou, pelo contrário, gratidão pela vinda de Deus, aceitação de sua presença em nossa vida, apoio à sua mensagem de justiça e amor? Então a celebração do Natal tem sentido: na mensagem de felicidade que desejamos aos amigos, a voz assume novo timbre, os presentes se enriquecem, pois transmitem a alegria do coração, o fruto de paz, oriundo do Presépio. Natal é a riqueza de Deus oferecida aos homens. Vamos recolher esse tesouro, e reparti-lo com nossos irmãos, com todo o Povo de Deus. Dentro desta fundamentação cristã, abrindo o coração a uma alegria inesgotável, que se expressa também materialmente, lembremo-nos dos que sofrem, dos injustiçados, dos que não conhecem o Cristo. Assim, o Natal, pobre ou rico, entre sorrisos ou lágrimas, terá o brilho da estrela de Belém e a paz da manjedoura: aqui estará o Cristo, fonte de felicidade e paz.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Espiritualidade), Fortaleza, 18 de dezembro de 2011.