2011-11-28

Esperança: “podemos crer que algo novo e melhor vai nascer!”

Com a palavra: Frei Patrício Sciadini, OCD.


A página mais bela sobre a esperança não foi escrita pelos homens, mas pelo próprio Deus na manhã da criação, quando ele começou a ordenar o caos e a terra que estava sem forma e sem vida. A cada dia Deus lançava semente de esperança, criando flores e dando a elas a possibilidade de se multiplicar em espécies semelhantes. Mas a semente mais bela da esperança que desde então foi enviada sobre a terra é o ser humano que, com seu amor, é capaz de multiplicar, dar a vida e criar a vida. A ele Deus confiou todos os seres e todo o futuro da história. 

Não importa os erros que o ser humano cometeu, comete e cometerá ao longo da história, Deus será sempre a porta da esperança e do amor abrindo o seu coração na misericórdia e, um dia, o chamará para que continue a ser esperança para aqueles que vierem depois dele. Todas as virtudes são necessárias e o mais importante é o amor, mas a esperança é a terra fértil  sobre a qual brotam e são colocadas as sementes de vida.

A esperança não é somente uma virtude antropológica inserida no coração do humano; tensão escatológica não de fim, mas de começo de vida nova, é algo divino que nos é dado de mãos beijadas no dia do nosso batismo, quando recebemos as virtudes teologais. É dom tão belo que não deixa o homem sucumbir diante do desastre mais “desastroso” da história. É pela esperança que lutamos para fazer nascer no meio de nós um mundo novo, o reino de Deus, centro da autêntica felicidade. 

Nós cremos que Deus, desde o início da nossa caminhada, nos prometeu o Reino do seu amor que nos foi confirmado em Jesus, que reiterou tantas vezes a promessa da vida eterna. Sabendo ou não sabendo, pela força da esperança, caminhamos rumo à santidade definitiva. A esperança não pode ser destruída no coração humano, ela é luz que brilha e que gera força inusitada e incontrolável diante de todas as destruições, as piores que sejam. Nenhuma guerra é capaz de matar a semente da esperança. Aliás, a vida nos confirma que quanto mais duro e amargo é o deserto e mais difícil o caminho, mais forte se faz a esperança que além do deserto há a terra prometida, além das nuvens há o sol que brilha e além das dificuldades há espaço para crer que algo novo e melhor vai nascer. 

A esperança não pode ser “sentimentalismo” ou um otimismo inconsciente que nos faz perder de vista os pontos referenciais de nossa caminhada; a esperança autêntica se baseia sobre alicerces firmes. Nós temos esperança na palavra de quem não pode falar mentira porque é a própria verdade, enviada para nos libertar. Na fidelidade de Deus em Jesus, o “fiel”, se baseia a nossa esperança. A mentira é sempre o contrário da esperança e da vida. A virtude da esperança responde ao anelo de felicidade que foi colocado em nós pelo mesmo Deus.  A esperança nos abre caminho lá onde, sem esperança, nós vemos só morte. A história do povo de Israel, mais que uma história de pecados, de quedas, de traição, é uma história de arrependimento gerado pela esperança em Deus pai misericordioso. Na esperança e pela esperança o homem assume o seu caminho de volta para a casa do Pai. É preciso ler o caminho do povo de Israel com olhos da esperança para poder compreender que, por trás de tudo, existe uma grande força de lutar e de não se entregar-se ao desânimo, que não pode ser considerada humana, vem de Deus.

O mesmo Jesus nos apresenta o projeto da esperança nas bem-aventuranças, que são o cântico mais belo da esperança. De esperança em esperança chegaremos um dia ao encontro com o bem e com a felicidade completa. É a esperança que anima o filho pródigo a reerguer-se do seu estado de desânimo e a retomar o caminho para a casa do Pai, onde será recebido no amor e coberto de “beijos”. É a esperança que nos leva a retomar o caminho de cada dia. O povo sintetiza a esperança numa frase que pode até parecer simplória, mas é rica de vida e teologia: “a esperança é a última que morre”, nós, que temos fé, poderíamos dizer: “A esperança nunca morre”. 

A esperança não é a virtude dos jovens, mas de todo ser que se abre ao futuro; se abertura ao futuro há desespero, frio e morte. O que todos os ditadores da história, todos os perseguidores têm tentado fazer nunca conseguirá é matar no coração da humanidade a semente da esperança. Os que se sentem ofendidos e ofendem esperam encontrar a paz e o amor (...). Existe uma péssima qualidade de esperança, aquela esperança de “ver o mal e não fazer o bem”. Por esperança sempre devemos entender o que nos move a fazer o bem e a sentir-nos animados a construir o projeto de Deus em nossa vida. Os místicos, como João da Cruz, apresentam a esperança como a veste com que a alma é revestida.

Viver a esperança é olhar para o alto e não deixar que as coisas da terra nos oprimam e nos façam esquecer o céu que nos é dado como prêmio. Viver a esperança é olhar para a terra que espera a nossa contribuição e não permitir que as coisas do alto nos alienem dos problemas de cada dia. A esperança é a mais estreita cooperação entre Deus e o ser humano. Juntos, cooperando de mãos dadas, alicerçando a esperança na fé e no amor, faremos surgir um mundo que ainda está como semente, mas se for colocada na terra boa produzirá frutos abundantes de paz e de amor. E você e eu, somos pessoas de esperança, com as mãos na massa, ou pessoas que têm perdido a esperança ficando de braços cruzados olhando, como diz o povo, a banda passar?  

Fonte: Uma Só Palavra Basta (Esperança), Edições Shalom, 2004.

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