As relações e o Amor...

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, novembro 25, 2011 2 comments

Quando nos deparamos com os nossos bloqueios nos relacionamentos, quando nos consideramos sozinhos e desencontrados de alguém ou dos outros que participam de nossa existência ou que cruzam nossa cotidianidade, ou ainda dos que estão em nossas “páginas sociais”, podemos pensar que tudo seja a verdade dos novos tempos, que há “contatos”, mas não há “relação” em sua verdadeira natureza. Podemos, erroneamente, acreditar que nossos acidentes da história pessoal sejam o senhor de nossas decisões, aquele que ditará definitivamente a nossa felicidade ou infelicidade. A solidão de nossos dias tem o seu adubo não nos nossos limites apenas, mas, sobretudo, nas teias de relações que não preenchem, apenas geram estatísticas como resposta a um contexto que vive de visibilidades e caricaturas, sobretudo nas relações.  

Em nossos dias os elogios são apressados diante de contextos que dão ênfase ao “fazer”, ao ter e até “ao ser”, no seu sentido negativo. É óbvio que o fazer não deixa de ser importante e necessário, principalmente quando o câncer da omissão parece corroer tantas vidas e consciências, inclusive para com os pequenos gestos de gentileza e educação. No entanto, é o desabrochar daquilo que realmente somos chamados a viver como vocação à alteridade, à felicidade que passa necessariamente pelo outro, é isto que faz com que as ações não queiram simplesmente visibilidade, mas uma comunhão de vida. Aqui está a maior das admirações: a capacidade de deixar dentro do outro um pouco de nós, desde que em nós habite um pouco do céu. E tudo isto porque “fomos amados primeiros”, como diz o Evangelho. 

Não deveríamos ser tão preocupados com a quantidade de nossos “contatos, seguidores, admiradores”, mas com a qualidade da comunhão de vida com os que participam diretamente de nossa existência, ainda que à distância. Se estamos nos sentindo sozinhos e desencontrados dos outros, talvez estejamos enclausurados no medo de amar, medo do amor, medo do desamor. Talvez nem saibamos amar, nem mesmo acreditamos mais no amor! Podemos estar sufocados por um mundo que diz valer apenas o que dá visibilidade. Mas, o amor é mais que isto, é vocação que começa no silêncio do coração, no dar-se para acolher o mistério do outro. 

Somos capazes de amar, é verdade, porque o amor é um dom de Deus e é também uma virtude, porque pede decisão, passos, saída de si ao outro. Cada um custa um “pouco de muito amor”, e o amor comporta a aceitação consciente de que o outro é livre para corresponder ou não, para deixar-se amar ou mesmo ferir o nosso amor dado. Mas, ainda assim, o amor não pode perder a sua vocação como aquilo que realmente plenifica e realiza. Os bloqueios do coração e da alma quanto ao exercício do amor podem ser dolorosos em seus processos de cura, mas é exatamente dando passos que a liberdade vai respirando. E quando nos tornamos livres no amor já não nos preocupamos com o cálculo, mas com o outro e não simplesmente com os seus adornos. Queremos amar como gente, não como máquina que “deleta em segundos”, que usa de ferramentas para esconder-se, para fingir, para ignorar. Queremos amar mesmo com nossos medos e até limites, mas sempre com o coração e com a fé. 

Antonio Marcos