"As devidas razoes de um coração que crê e espera na fé" (1 Pedro 3,15)

2011-11-28

Esperança: “podemos crer que algo novo e melhor vai nascer!”

Com a palavra: Frei Patrício Sciadini, OCD.


A página mais bela sobre a esperança não foi escrita pelos homens, mas pelo próprio Deus na manhã da criação, quando ele começou a ordenar o caos e a terra que estava sem forma e sem vida. A cada dia Deus lançava semente de esperança, criando flores e dando a elas a possibilidade de se multiplicar em espécies semelhantes. Mas a semente mais bela da esperança que desde então foi enviada sobre a terra é o ser humano que, com seu amor, é capaz de multiplicar, dar a vida e criar a vida. A ele Deus confiou todos os seres e todo o futuro da história. 

Não importa os erros que o ser humano cometeu, comete e cometerá ao longo da história, Deus será sempre a porta da esperança e do amor abrindo o seu coração na misericórdia e, um dia, o chamará para que continue a ser esperança para aqueles que vierem depois dele. Todas as virtudes são necessárias e o mais importante é o amor, mas a esperança é a terra fértil  sobre a qual brotam e são colocadas as sementes de vida.

A esperança não é somente uma virtude antropológica inserida no coração do humano; tensão escatológica não de fim, mas de começo de vida nova, é algo divino que nos é dado de mãos beijadas no dia do nosso batismo, quando recebemos as virtudes teologais. É dom tão belo que não deixa o homem sucumbir diante do desastre mais “desastroso” da história. É pela esperança que lutamos para fazer nascer no meio de nós um mundo novo, o reino de Deus, centro da autêntica felicidade. 

Nós cremos que Deus, desde o início da nossa caminhada, nos prometeu o Reino do seu amor que nos foi confirmado em Jesus, que reiterou tantas vezes a promessa da vida eterna. Sabendo ou não sabendo, pela força da esperança, caminhamos rumo à santidade definitiva. A esperança não pode ser destruída no coração humano, ela é luz que brilha e que gera força inusitada e incontrolável diante de todas as destruições, as piores que sejam. Nenhuma guerra é capaz de matar a semente da esperança. Aliás, a vida nos confirma que quanto mais duro e amargo é o deserto e mais difícil o caminho, mais forte se faz a esperança que além do deserto há a terra prometida, além das nuvens há o sol que brilha e além das dificuldades há espaço para crer que algo novo e melhor vai nascer. 

A esperança não pode ser “sentimentalismo” ou um otimismo inconsciente que nos faz perder de vista os pontos referenciais de nossa caminhada; a esperança autêntica se baseia sobre alicerces firmes. Nós temos esperança na palavra de quem não pode falar mentira porque é a própria verdade, enviada para nos libertar. Na fidelidade de Deus em Jesus, o “fiel”, se baseia a nossa esperança. A mentira é sempre o contrário da esperança e da vida. A virtude da esperança responde ao anelo de felicidade que foi colocado em nós pelo mesmo Deus.  A esperança nos abre caminho lá onde, sem esperança, nós vemos só morte. A história do povo de Israel, mais que uma história de pecados, de quedas, de traição, é uma história de arrependimento gerado pela esperança em Deus pai misericordioso. Na esperança e pela esperança o homem assume o seu caminho de volta para a casa do Pai. É preciso ler o caminho do povo de Israel com olhos da esperança para poder compreender que, por trás de tudo, existe uma grande força de lutar e de não se entregar-se ao desânimo, que não pode ser considerada humana, vem de Deus.

O mesmo Jesus nos apresenta o projeto da esperança nas bem-aventuranças, que são o cântico mais belo da esperança. De esperança em esperança chegaremos um dia ao encontro com o bem e com a felicidade completa. É a esperança que anima o filho pródigo a reerguer-se do seu estado de desânimo e a retomar o caminho para a casa do Pai, onde será recebido no amor e coberto de “beijos”. É a esperança que nos leva a retomar o caminho de cada dia. O povo sintetiza a esperança numa frase que pode até parecer simplória, mas é rica de vida e teologia: “a esperança é a última que morre”, nós, que temos fé, poderíamos dizer: “A esperança nunca morre”. 

A esperança não é a virtude dos jovens, mas de todo ser que se abre ao futuro; se abertura ao futuro há desespero, frio e morte. O que todos os ditadores da história, todos os perseguidores têm tentado fazer nunca conseguirá é matar no coração da humanidade a semente da esperança. Os que se sentem ofendidos e ofendem esperam encontrar a paz e o amor (...). Existe uma péssima qualidade de esperança, aquela esperança de “ver o mal e não fazer o bem”. Por esperança sempre devemos entender o que nos move a fazer o bem e a sentir-nos animados a construir o projeto de Deus em nossa vida. Os místicos, como João da Cruz, apresentam a esperança como a veste com que a alma é revestida.

Viver a esperança é olhar para o alto e não deixar que as coisas da terra nos oprimam e nos façam esquecer o céu que nos é dado como prêmio. Viver a esperança é olhar para a terra que espera a nossa contribuição e não permitir que as coisas do alto nos alienem dos problemas de cada dia. A esperança é a mais estreita cooperação entre Deus e o ser humano. Juntos, cooperando de mãos dadas, alicerçando a esperança na fé e no amor, faremos surgir um mundo que ainda está como semente, mas se for colocada na terra boa produzirá frutos abundantes de paz e de amor. E você e eu, somos pessoas de esperança, com as mãos na massa, ou pessoas que têm perdido a esperança ficando de braços cruzados olhando, como diz o povo, a banda passar?  

Fonte: Uma Só Palavra Basta (Esperança), Edições Shalom, 2004.

2011-11-27

Tempo de Advento: iluminai a vossa face sobre nós, Senhor!

Já é tempo de Advento na vida da Igreja e o chamado para viver esta graça se estende a todos os batizados católicos, aos nossos corações. Viveremos 40 dias de preparação para o Solene Natal do Senhor, meditando nesta primeira parte, até o dia 17, a liturgia sobre a “Parusia”, ou seja, a segunda e definitiva vinda do Senhor.

A Liturgia da Palavra deste I Domingo de Advento é, por demais, forte e significativa diante do contexto em que nos encontramos: “caminhos tortuosos e corações endurecidos” para com as coisas do Senhor, para com a Sua vontade. Um mundo não distante, não fora de nós, mas aqui dentro, no desenrolar de nossas ações e decisões. O profeta Isaías (cf. 63,16ss) faz um clamor à misericórdia de Deus: “Como nos deixaste andar longe de teus caminhos? (...) Por amor de teus servos, das tribos de tua herança, volta atrás, Senhor”. E o profeta faz uma feliz e comovente memória: “Nunca se ouviu dizer nem chegou aos ouvidos de ninguém, jamais olhos viram que um Deus, exceto Tu, tenha feito tanto pelos que nele esperam” (Is 64,3). Mas também deixa claro que o pecado do povo irritou a Deus. “Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas boas obras são como pano sujo”. No entanto, suas palavras se concluem de forma apaixonante: “Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, o nosso oleiro, e nós, obra de tuas mãos”. 

Tudo parte da consciência e da revisão de vida: nós pecamos! O profeta faz assim uma exortação ao povo de Deus para a conversão, para o retorno. “Por minha culpa, minha tão grande culpa!” Aqui está a nossa fortaleza e felicidade: o desejo sincero de retornar, de voltar para Deus. Por isso rezamos com o profeta: “Senhor, volta atrás de tuas irritações e não abandone a obra de tuas mãos. Se tiras a tua mão de oleiro, seremos deformados pelo pecado, pela loucura de querermos caminhar com nossas próprias forças. E como diz o apóstolo Paulo: “Não tendes falta de nenhum dom, vós que guardais a revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo. É ele também que vos dará perseverança até o fim (...)” (cf. ICor 1,3-9). 

Se tendo a Cristo, temos tudo; não tê-lo ou viver como se ele não existisse é a nossa infelicidade. Isto parece comum em nossos dias, em ambientes que até se vangloriam de não contar mais com o Evangelho como direção de vida, como único caminho seguro para a verdadeira felicidade. Felicidade estranha é esta que nos é apresentada por um contexto de sociedade e relações que coloca Deus sempre na desconfiança, no dispensável. Jesus, através do Evangelho deste dia (cf. Mc 13,33-37) nos fala de vigilância, do estar atento como sentinela, porque Sua volta é uma realidade, mas pode nos pegar de surpresa. Muitas coisas nos deixam hoje sonolentos, sobretudo o pecado, que faz com que o nosso coração caia no torpor, não havendo mais como esperar na luz da verdade. Reza o Salmista neste dia: “Iluminai a vossa face sobre nós, convertei-nos, para que sejamos salvos!” (Sl 97/98). Queremos viver isto, Senhor, confiantes na Tua misericórdia. Que esses dias de Advento sejam de retorno e redirecionamento para a santidade.

Feliz Tempo de Advento a todos os amigos e amigas deste espaço de fé!
Antonio Marcos

2011-11-25

As relações e o Amor...


Quando nos deparamos com os nossos bloqueios nos relacionamentos, quando nos consideramos sozinhos e desencontrados de alguém ou dos outros que participam de nossa existência ou que cruzam nossa cotidianidade, ou ainda dos que estão em nossas “páginas sociais”, podemos pensar que tudo seja a verdade dos novos tempos, que há “contatos”, mas não há “relação” em sua verdadeira natureza. Podemos, erroneamente, acreditar que nossos acidentes da história pessoal sejam o senhor de nossas decisões, aquele que ditará definitivamente a nossa felicidade ou infelicidade. A solidão de nossos dias tem o seu adubo não nos nossos limites apenas, mas, sobretudo, nas teias de relações que não preenchem, apenas geram estatísticas como resposta a um contexto que vive de visibilidades e caricaturas, sobretudo nas relações.  

Em nossos dias os elogios são apressados diante de contextos que dão ênfase ao “fazer”, ao ter e até “ao ser”, no seu sentido negativo. É óbvio que o fazer não deixa de ser importante e necessário, principalmente quando o câncer da omissão parece corroer tantas vidas e consciências, inclusive para com os pequenos gestos de gentileza e educação. No entanto, é o desabrochar daquilo que realmente somos chamados a viver como vocação à alteridade, à felicidade que passa necessariamente pelo outro, é isto que faz com que as ações não queiram simplesmente visibilidade, mas uma comunhão de vida. Aqui está a maior das admirações: a capacidade de deixar dentro do outro um pouco de nós, desde que em nós habite um pouco do céu. E tudo isto porque “fomos amados primeiros”, como diz o Evangelho. 

Não deveríamos ser tão preocupados com a quantidade de nossos “contatos, seguidores, admiradores”, mas com a qualidade da comunhão de vida com os que participam diretamente de nossa existência, ainda que à distância. Se estamos nos sentindo sozinhos e desencontrados dos outros, talvez estejamos enclausurados no medo de amar, medo do amor, medo do desamor. Talvez nem saibamos amar, nem mesmo acreditamos mais no amor! Podemos estar sufocados por um mundo que diz valer apenas o que dá visibilidade. Mas, o amor é mais que isto, é vocação que começa no silêncio do coração, no dar-se para acolher o mistério do outro. 

Somos capazes de amar, é verdade, porque o amor é um dom de Deus e é também uma virtude, porque pede decisão, passos, saída de si ao outro. Cada um custa um “pouco de muito amor”, e o amor comporta a aceitação consciente de que o outro é livre para corresponder ou não, para deixar-se amar ou mesmo ferir o nosso amor dado. Mas, ainda assim, o amor não pode perder a sua vocação como aquilo que realmente plenifica e realiza. Os bloqueios do coração e da alma quanto ao exercício do amor podem ser dolorosos em seus processos de cura, mas é exatamente dando passos que a liberdade vai respirando. E quando nos tornamos livres no amor já não nos preocupamos com o cálculo, mas com o outro e não simplesmente com os seus adornos. Queremos amar como gente, não como máquina que “deleta em segundos”, que usa de ferramentas para esconder-se, para fingir, para ignorar. Queremos amar mesmo com nossos medos e até limites, mas sempre com o coração e com a fé. 

Antonio Marcos

2011-11-22

FACULDADE CATÓLICA DE FORTALEZA


            
                 NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Faculdade Católica de Fortaleza, que tem como mantenedora a Arquidiocese de Fortaleza, criada através da PORTARIA MINISTERIAL Nº 1.746, de 22 de dezembro de 2009 e com início de suas atividades acadêmicas em fevereiro de 2010, vem a público esclarecer que esta nova Instituição de Ensino Superior foi avaliada in loco pelo Ministério da Educação no período de 31/05/2011 a 04/06/2011, tendo recebido nota 3 (conceito BOM), já referendado pelo órgão de Regulação da Secretaria de Educação Superior/MEC em 06/08/2011, conforme informação contida no Protocolo Eletrônico do MEC – e-mec. Ressaltamos que o resultado da avaliação, divulgado pelo Ministério da Educação no último dia 17/11/2011 faz parte do ciclo avaliativo dos SINAES, período 2007, 2008, 2009, portanto as Instituições avaliadas foram o ICRE e ITEP, que já deixaram de existir desde dezembro de 2009. A primeira avaliação do ENADE, como Faculdade Católica de Fortaleza, foi realizada recentemente no dia 06/11/2011, cujo resultado sairá posteriormente. A Portaria Ministerial acima citada, que criou a nova Faculdade Católica de Fortaleza, aprovou automaticamente o seu Regimento e Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI referente ao período 2010/2014. Vale ressaltar que, no seu planejamento, as ações para o período preveem a implantação dos novos cursos de Licenciatura em Filosofia, Licenciatura em Ciências Sociais e Bacharelado em Serviço Social. A Faculdade Católica de Fortaleza compromete-se em atender os padrões de qualidade determinados pelo Ministério da Educação para a oferta da educação superior, primando pela formação intelectual de seus alunos, sua produção científica, artística, filosófica, teológica e tecnológica e, principalmente, pelo atendimento às necessidades, aos anseios e às expectativas da sociedade.

Fonte: Publicado no Jornal O Povo (Radar, p. 16), Fortaleza, 22 de novembrode 2011.

2011-11-20

Ao lado de quem amamos e somos amados


Realizar-se no amor como vocação a dois, como fruto de um encontro e de uma convivência, da escolha mútua e do descobrir-se um no outro, é o anseio de cada coração que deseja a felicidade. Felicidade esta que quando construída e compartilhada por dois corações que se amam, torna-se um único sonho, uma única direção, um único objetivo: fazer o outro feliz! Há quem diga que esta felicidade é sonho não realizável, é “procura sem achado”, é espera que fadiga e desespera. Porém, esta felicidade é vocação, é caminho, é também espera, mas é, sobretudo, atitude e decisões responsáveis. Temos de dizer que esta felicidade é desprendimento, muitas vezes saída do casulo e das seguranças. O medo de amar, de “depender”, de estar nas mãos do amado, da amada, como ainda o medo do definitivo, das imperfeições do outro, das correções e dos recomeços, tudo isto pode nos deixar paralisados e descrentes de nossa vocação ao amor, à felicidade do abrigar-se a dois, o que não deixa de ser um desafio, mas ele é necessário, principalmente se desejamos seguir construindo nossa história com Deus e ao lado de quem amamos e somos amados. E, lembre-se: Deus cuida dos anseios mais profundos e belos do nosso coração! 

Antonio Marcos

Sem o Amor concreto não há reinado


Temos por certo que a escravidão ao pecado é o maior de todos os sofrimentos. De suas entranhas nascem os horrores que bem conhecemos, inclusive o viver tendo ao centro nós mesmos, nossa vontade, "nosso reinado". Quando olhamos o mundo e o nosso interior, devemos nos encher do mais sincero desejo e compromisso por uma vida nova, pelo testemunho cristão a partir de nossas atitudes e mentalidade. É fácil falar sobre o reinado de Jesus, difícil é deixar que Seu senhorio opere o conduzir de nossos passos, mas, mediante a graça, isto é possível e necessário. O Evangelho deste do Domingo de “Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo”, fala do nosso julgamento futuro, mas que já se inicia cada vez que a caridade cristã é mitigada em nós (cf. Mt 25,31-46). Sem o Amor concreto não há mudanças, não há reinado. Vem, Senhor Jesus, liberta-nos de toda mesquinhez no exercício do amor. Liberta-nos de nosso mundinho, de nossas vontades e "reinados". Vem, Senhor, procura a Tua ovelha perdida e reconduza-a outra vez ao Teu coração!

Antonio Marcos

2011-11-18

Ao abrigo da sua misericórdia, os corações feridos curam


Com a palavra: Papa Bento XVI: 

A Virgem Maria experimentou, no seu grau mais excelso, o mistério do amor divino: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem” (Lc 1, 50) – exclama Ela no seu Magnificat. Com o seu “sim” ao chamamento de Deus, contribuiu para a manifestação do amor divino entre os homens. Neste sentido, é Mãe de Misericórdia por participação na missão do seu Filho; recebeu o privilégio de nos poder socorrer sempre e em toda parte. “Com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada” (Conc. Vat. II, Lumen Gentium, 62). Ao abrigo da sua misericórdia, os corações feridos curam, as ciladas do maligno são evitadas e os inimigos reconciliam-se. Em Maria, temos não só um modelo de perfeição, mas também uma ajuda para realizar a comunhão com Deus e com os nossos irmãos e irmãs. Mãe da misericórdia, Ela é um guia seguro para os discípulos de seu Filho que querem estar ao serviço da justiça, da reconciliação e da paz. Com simplicidade e coração materno, Ela indica-nos a única Luz e a única Verdade – o seu Filho, Cristo Jesus – que conduz a humanidade para a sua plena realização no Pai do Céu. Não tenhamos medo de invocar, com confiança, Aquela que não cessa de dispensar aos seus filhos as graças divinas.

Fonte: ZENIT.Org – Trecho do Discurso invocando Nossa Senhora da África, novembro de 2011.