Estar à sombra da árvore da Palavra

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, setembro 30, 2011 1 comment

No Dia da Bíblia, dia em que a Igreja celebra com alegria a memória litúrgica do grande Padre da Igreja, São Jerônimo (Séc. IV), tradutor da versão Vulgata (do grego para o latim), “cuja vida se distingue por um amor apaixonado pelas Escrituras, um amor que ele sempre procurou despertar nos fiéis” (Bento XVI), os textos bíblicos para a proclamação e meditação na Santa Missa propõem uma reflexão, podemos assim dizer, até mesmo “dura”, exortativa e de esclarecimentos acerca das consequências para quem, deliberadamente, vive à margem dos ensinamentos da Palavra de Deus.

O interessante é que são muitos os textos bíblicos que seriam sugestivos para este dia, talvez falando de tudo de bom que a Palavra de Deus opera em nós, conduzindo-nos à salvação. Porém, o Espírito Santo permitiu que os textos deste dia nos exortassem acerca da infelicidade e até mesmo da “tragédia” de termos abandonado a orientação da Palavra de Deus, depois de ter ela nos alcançado e nos transportado para um novo sentido de vida, uma nova compreensão da realidade e do mundo, da nossa origem, história e vocação. Basta se ler o profeta Baruc (1,15-22) para entendermos a dor do povo de Israel, povo amado de Deus, por ter sido alvo do cuidado e da misericórdia do Senhor e mesmo assim ter fechado os ouvidos às suas orientações: “Não escutamos a voz do Senhor (...), e entregamo-nos, cada qual às inclinações do perverso coração, para servir a outros deuses e praticar o mal aos olhos do Senhor, nosso Deus!” (vv. 21-22).

Diz São Jerônimo que “Nada... apraz tanto a Deus como a obediência... que é a virtude mais excelsa e única” (Hom. Obediência, CCL 78, 552). A desobediência endurece o coração, obscurece seu campo de visão e o faz parceiro e cúmplice de suas próprias más inclinações. As consequências disto? Nós o sabemos de “cor e salteado”. Não precisamos citar aqui os males que decorrem de quando nossa vida cristã se permite ser arrastada à estaca zero, levada pela força destruidora de nossas próprias vontades que querem o mais cômodo, o imediatismo, a felicidade e o prazer sem a renúncia, sem a coragem e disposição. Em breves palavras, de quando queremos a páscoa excluindo a cruz. Sem a luz da Palavra de Deus e da oração não acontece aquela “consciência de que precisamos ser podados nos galhos velhos, ou, nos galhos aparentemente verdes, mas infrutíferos”, como diz maravilhosamente a espiritualidade do Carisma Shalom (cf. EsSh, Obra Nova, 06).

O drama dos textos bíblicos deste dia tem o seu ápice nas palavras de Jesus no Evangelho segundo São Lucas (10,13-16). O texto nos permite compreender que Jesus lamenta a infrutuosidade da Sua Palavra nas cidades que mais viram, ouviram e tocaram do mistério da Salvação. Receberam muito da Boa Nova da Salvação, mas permaneceram indiferentes e incrédulos. Escolheram seus planos apesar de terem recebido tantas graças de Deus. Será que isto parece conosco? Bem, comigo parece! Jesus não faz ameaças, porque Ele sabe que escolher a si mesmo em detrimento da vontade de Deus já é a nossa destruição. A Palavra de Deus negligenciada é a nossa testemunha ocular. Nesse sentido, bem sabemos, “Corazim, Betsaida, Cafarnaum” podem representar o contexto de nossas vidas. Nossas rejeições à vontade de Deus, à Sua voz, têm um alto preço na nossa vida.

E, poderíamos nos perguntar: afinal, o que tudo isso quer dizer para nós? Os textos bíblicos deste dia, na verdade, não querem nos amedrontar, mas nos fazer retornar à “sombra da árvore da Palavra de Deus”, nossa segurança, nossa felicidade. “Estar à sombra da Palavra” significa abrir o coração para que a sua força germinadora produza frutos de conversão e santificação. Estar à sombra é também estar enraizado nesta árvore. Para isso rezemos: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade, pois estamos humilhados em extremo. (...) Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! (...)” (cf. Sl 78/79). Sim, Senhor, não por nossos méritos e forças, mas por vosso nome e bondade, colocai-nos à sombra desta árvore outra vez!

São Jerônimo, rogai por nós!
Antonio Marcos