Correção fraterna: felizes os que voltam à luz

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, setembro 03, 2011 2 comments

A correção fraterna é algo não tão fácil de viver em dias como os nossos, no quais vemos fortemente a vivência da fé numa perspectiva isolada, a ponto de gerar indiferença e descompromisso com o outro que celebra o mistério conosco. A Igreja primitiva tratava o processo da conversão com muita seriedade e não se media esforço para que a comunhão fraterna fosse visível e autêntica, fruto do amor, consequentemente a correção fraterna era algo comum, porque só se pode pensar em “corrigir o outro” se em mim habita a caridade de Cristo. A verdadeira correção visa não humilhar o irmão, não lhe passar na cara suas fraquezas e limitações, mas requer primeiramente o mostrar-se comprometido com integridade de sua vida, sua imagem como pessoa e sua salvação, para então lhe revelar a verdade. Por isso, sem amor, não colaboraremos para que o outro cresça e volte à luz. Só o amor gera esperança, tem a força de lançar o outro na via do arrependimento e da misericórdia.

Às vezes a correção fraterna em vez de encorajar, motivar o outro à santidade, a partir das suas qualidades e virtudes e de todas as graças recebidas de Deus, acaba destruindo o entusiasmo do irmão, e sempre com a acusação ameaçadora do inferno. Estamos mais preocupados em evitar um escândalo do que salvar o outro. Se “evitamos o escândalo”, então lavamos as mãos, esquecendo assim que o pecado da omissão é tão grave como os outros. Então, dizemos: Já fizemos o que deveríamos fazer! Realidades não tão distantes de nós!  Por outro lado, não é fácil se deixar corrigir, porque ser visto, “ser descoberto” nas nossas fraquezas e mortes é humilhante, para muitos é “esmagador”. Devido a dureza do nosso coração e todos os nossos bloqueios e feridas, nem sempre somos suficientemente humildes para nos reconhecermos pecadores e errantes diante do nosso irmão. Dizemos que queremos a luz e a verdade, mas quando nos vemos expostos diante de uma correção, ainda que na Caridade, podemos reagir com desculpas e encontrar “os culpados” por nossas fraquezas e até pecados.

A comunhão eclesial pede a comunhão fraterna, não superficial, um faz de conta, mas concreta, coerente, visível e frutuosa. A vivência da fé me leva ao compromisso com os meus irmãos. Pra esta realidade vale também as palavras de Jesus: “De que adianta ganhar o mundo inteiro e vir a perder a própria vida?” De que adianta viver uma “fé tranquila”, conquistar a estima e o prestígio da comunidade, ter este e aquele dom, mas, no exercício da misericórdia e do cuidado com a salvação dos outros, somos indiferentes? Aquele que errou e precisa de correção fraterna diz respeito a mim, e não para ser desrespeitado e usado em falatórios. O fato é que tem gente estimada por muitos que bate no peito e diz acerca do irmão que errou: “Eu jamais farei isto!” E me pergunto: onde está a verdadeira cegueira? O pecador é de interesse meu, porque Jesus Cristo quer a conversão e a salvação de todos.

Queiramos também mudar de vida, ainda que a correção fraterna tenha sido humilhante para nós. Afinal, a correção fraterna e a confissão sacramental são portas para uma vida nova.  Felizes os que voltam à luz. Felizes os que saem de suas mortes, ainda que “aparentemente fracassados”. O maior fracasso e humilhação é permanecermos no pecado, no erro e na arrogância. Recomeçar só é possível para quem persegue os passos da humildade. “A humildade é a verdade”, diria Santa Teresa de Ávila. De nada adianta a revolta, a distância de Deus. “Por minha culpa, minha tão grande culpa...”. Deixemo-nos alcançar pela luz da misericórdia de Deus e sejamos gratos ao Seu amor por aqueles que foram instrumentos para que voltássemos a viver. Diz o Apóstolo Paulo: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a lei” (Rm 13, 8).

Antonio Marcos