Amizade: “comunidade para os outros”

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, setembro 19, 2011 Sem Comentários
Quando se fala de relação íntima com alguém, segundo os dicionários da língua portuguesa, entende-se que se trata de um “estreitamento de vida”, do fato de que aquela pessoa participa de nossas confidências, melhor dizendo, tem acesso ao que se passa no nosso interior. Ser íntimo de um amigo, de uma amiga, significa que não há qualquer barreira entre nós, porém, necessário é esclarecer que também esta relação exerce uma missão “ad extra”, ou seja, para fora, para os outros. A própria amizade tem a vocação de ser uma “comunidade para os outros”. Amizade fechada é porta aberta para as ciladas da própria fraqueza humana, como o egoísmo, a possessividade, o ciúme e até as paixões nocivas.

Diríamos que o termo “paixão nociva” pode ser também atribuído a uma má relação com o próprio Deus. Nesse caso não seria relação íntima sadia, mas “intimismo”, ou seja, estar fechado numa relação com um Deus pessoal completamente incapaz de nos abrir aos outros. E o pior, incapaz de nos fazer enxergar a realidade do outro ao nosso lado e do mundo que carece de testemunhas. E isto não é compatível com o Deus de Jesus Cristo. Segundo o filósofo Martin Buber, seria ferir a alteridade, a deturpação daquela necessária relação de um “eu + tu” constituindo um “nós”, e que estaria voltado para um “Tu” (o transcendente), o que para nós cristãos seria o Deus de Amor, o Absoluto.

A relação de amor e amizade na Santíssima Trindade jamais pode ser “intimista”, mas comunhão aberta, doada, despojada. Graves são as consequências pessoais e coletivas de uma fé intimista, de uma relação com o Sagrado de forma alienante. Creio não simplesmente para salvar a mim mesmo, mas também para ajudar os outros a crerem, a serem amigos íntimos de Deus. É óbvio que isto se dá somente pelo amor, não “o nosso”, mas aquele amor que se esvaziou até o extremo (cf. Jo 13,1).

Antonio Marcos