A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2011-09-30

Estar à sombra da árvore da Palavra


No Dia da Bíblia, dia em que a Igreja celebra com alegria a memória litúrgica do grande Padre da Igreja, São Jerônimo (Séc. IV), tradutor da versão Vulgata (do grego para o latim), “cuja vida se distingue por um amor apaixonado pelas Escrituras, um amor que ele sempre procurou despertar nos fiéis” (Bento XVI), os textos bíblicos para a proclamação e meditação na Santa Missa propõem uma reflexão, podemos assim dizer, até mesmo “dura”, exortativa e de esclarecimentos acerca das consequências para quem, deliberadamente, vive à margem dos ensinamentos da Palavra de Deus.

O interessante é que são muitos os textos bíblicos que seriam sugestivos para este dia, talvez falando de tudo de bom que a Palavra de Deus opera em nós, conduzindo-nos à salvação. Porém, o Espírito Santo permitiu que os textos deste dia nos exortassem acerca da infelicidade e até mesmo da “tragédia” de termos abandonado a orientação da Palavra de Deus, depois de ter ela nos alcançado e nos transportado para um novo sentido de vida, uma nova compreensão da realidade e do mundo, da nossa origem, história e vocação. Basta se ler o profeta Baruc (1,15-22) para entendermos a dor do povo de Israel, povo amado de Deus, por ter sido alvo do cuidado e da misericórdia do Senhor e mesmo assim ter fechado os ouvidos às suas orientações: “Não escutamos a voz do Senhor (...), e entregamo-nos, cada qual às inclinações do perverso coração, para servir a outros deuses e praticar o mal aos olhos do Senhor, nosso Deus!” (vv. 21-22).

Diz São Jerônimo que “Nada... apraz tanto a Deus como a obediência... que é a virtude mais excelsa e única” (Hom. Obediência, CCL 78, 552). A desobediência endurece o coração, obscurece seu campo de visão e o faz parceiro e cúmplice de suas próprias más inclinações. As consequências disto? Nós o sabemos de “cor e salteado”. Não precisamos citar aqui os males que decorrem de quando nossa vida cristã se permite ser arrastada à estaca zero, levada pela força destruidora de nossas próprias vontades que querem o mais cômodo, o imediatismo, a felicidade e o prazer sem a renúncia, sem a coragem e disposição. Em breves palavras, de quando queremos a páscoa excluindo a cruz. Sem a luz da Palavra de Deus e da oração não acontece aquela “consciência de que precisamos ser podados nos galhos velhos, ou, nos galhos aparentemente verdes, mas infrutíferos”, como diz maravilhosamente a espiritualidade do Carisma Shalom (cf. EsSh, Obra Nova, 06).

O drama dos textos bíblicos deste dia tem o seu ápice nas palavras de Jesus no Evangelho segundo São Lucas (10,13-16). O texto nos permite compreender que Jesus lamenta a infrutuosidade da Sua Palavra nas cidades que mais viram, ouviram e tocaram do mistério da Salvação. Receberam muito da Boa Nova da Salvação, mas permaneceram indiferentes e incrédulos. Escolheram seus planos apesar de terem recebido tantas graças de Deus. Será que isto parece conosco? Bem, comigo parece! Jesus não faz ameaças, porque Ele sabe que escolher a si mesmo em detrimento da vontade de Deus já é a nossa destruição. A Palavra de Deus negligenciada é a nossa testemunha ocular. Nesse sentido, bem sabemos, “Corazim, Betsaida, Cafarnaum” podem representar o contexto de nossas vidas. Nossas rejeições à vontade de Deus, à Sua voz, têm um alto preço na nossa vida.

E, poderíamos nos perguntar: afinal, o que tudo isso quer dizer para nós? Os textos bíblicos deste dia, na verdade, não querem nos amedrontar, mas nos fazer retornar à “sombra da árvore da Palavra de Deus”, nossa segurança, nossa felicidade. “Estar à sombra da Palavra” significa abrir o coração para que a sua força germinadora produza frutos de conversão e santificação. Estar à sombra é também estar enraizado nesta árvore. Para isso rezemos: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade, pois estamos humilhados em extremo. (...) Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! (...)” (cf. Sl 78/79). Sim, Senhor, não por nossos méritos e forças, mas por vosso nome e bondade, colocai-nos à sombra desta árvore outra vez!

São Jerônimo, rogai por nós!
Antonio Marcos

2011-09-29

Os professores não são bandidos!


A sociedade cearense presencia com tristeza e indignação as cenas de violência contra os professores da rede estadual, desta vez na Assembleia Legislativa, Casa do Povo, espaço plural e democrático. Os trágicos fatos passaram a se repetir desde quando a categoria tomou iniciativas mais expressivas em fazer atos públicos de protestos. E, o mais vergonhoso, é vermos o descaso e a omissão do Sr. Governador Cid Gomes em atender as solicitações dos docentes, ou ao menos tratar de apresentar uma proposta favorável, pois as reivindicações correspondem simplesmente a se ter acesso aos benefícios da Lei Federal que regulamenta o piso salarial dos professores. (O piso nacional do magistério é de R$ 1.187 para nível médio por 40h semanais, sem contar gratificações e benefícios. O salário base da rede estadual do Ceará é de R$ 789 (para 40h por semana).   

É lamentável ver que as cenas de agressão e desrespeito aos professores estejam se tornando comuns no Ceará. Trata-se de um desrespeito e a sociedade cearense repudia tamanha covardia. A Polícia teme os bandidos que aterrorizam as comunidades da periferia, que roubam e matam o pai de família, mas não teme espancar tão naturalmente os professores. A Assembleia Legislativa divulgou nota esclarecendo que, na verdade, a “polícia é que foi agredida e que apenas não permitiu que o patrimônio público fosse denegrido”. Uma calúnia aos moldes de sempre! A ordem é: “Violência! Depois a gente reverte os fatos na imprensa!” Os professores não são bandidos, mas aqueles que estão colaborando na construção de um país que queremos,  os comunicadores de valores perenes,  e vivem a missão de educar com amor ao que fazem por compromisso com a cidadania e a ética, mas são cidadãos, pais de família e profissionais que precisam ser reconhecidos e valorizados, atendidos em seus direitos trabalhistas.

Não podemos aceitar qualquer tipo de violência contra os professores, muito menos dentro da Casa do Povo, da Assembleia Legislativa, “Casa Democrática”, ou em qualquer lugar que seja. Para os professores não se trata simplesmente de dizer que é a “Polícia” quem os agride, mas o “Governador Cid Gomes”, e eles têm razão. O Sr. Governador parece mesmo mais preocupado com os milhões de reais que serão gastos com o “Castelão e o Aquário”, e não em atender as reivindicações justas da categoria dos professores. Enquanto isso nossas crianças, adolescentes e jovens, alunos que continuam sem aula, mas que compreendem a situações de seus “mestres da vida”, aguardam que nossos representantes eleitos assegurem os direitos de quem os colocou no poder, o cidadão trabalhador. Chega de violência! O professor não é um bandido!

Antonio Marcos

2011-09-27

A gente não imagina aonde Deus vai nos levar

Trechos da homilia do Pe. João Wilkes, CVSh, (responsável pela dimensão missionária da Vocação Shalom no exterior), proferida no Congresso Nacional de Jovens Shalom, domingo, 25 de setembro de 2011.  
Queridos jovens, desejo começar esta homilia fazendo uma pergunta: quando é que Deus mais manifesta o seu poder? A resposta está exatamente na Oração do Dia: na Sua misericórdia! Assim diz o texto: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça (...)”. Podemos também fazer uma comparação com o Evangelho de São Marcos (cap. 2, 1-12), no qual está descrito a “cura do paralítico” introduzido no ambiente pelo telhado, depois de ser auxiliado pelos amigos.
Tal acontecimento despertou julgamentos contra Jesus, que questionou aos Mestres da Lei: “O que é mais fácil: dizer ao paralítico: 'os teus pecados estão perdoados', ou dizer: 'Levanta-te, pega a tua cama e anda'?”. Ora, reflitamos caríssimos jovens. É claro que, humanamente falando, é mais fácil dizer “os teus pecados estão perdoados”, porque não vemos nada acontecer. Já quando se diz “levanta-te e anda”, esta ação só depende de Jesus, da sua vontade e do seu poder. Jesus mostra que é mais difícil dizer: “os teus pecados estão perdoados”, porque requer fé, colaboração de quem deseja a conversão, mudar de vida.
O Salmista reza neste dia “pedindo a Deus que lhe mostre seus caminhos” (cf. Sl 24/25). Você deseja realmente que Deus lhe mostre Seu caminho? Pois, se você deseja, Deus vai lhe mostrar. E Deus faz isso por meio unicamente da oração. A oração é o maior risco do homem, principalmente para o jovem. A primeira vez que fiz esta oração (Salmo de hoje), não imaginava por qual caminho Deus me chamaria. Nunca pensei que seria o caminho da Vocação Shalom, da Comunidade de Vida e do Sacerdócio. É assim, a gente não imagina de início aonde Deus vai nos levar.
Temos aqui no palco os responsáveis pelas missões da Comunidade Shalom do exterior que vieram para o Congresso Nacional de Jovens (CNJ). Nós não tínhamos ideia dos caminhos do Senhor, como não sabemos por onde ele nos levará. Deus faz ressoar no coração de quem chama o pedido do pai ao filho, descrito no Evangelho: “Filho, vai trabalhar na minha vida!” (Mt 21,28-32). É verdade que o chamado de Deus para muito de nós é para ficar aqui e ofertar a vida no cuidado da salvação dos outros. Quantos jovens estão se perdendo nas drogas, no álcool... Porém, Deus vai chamar a muitos outros para lugares distantes, para o seguimento radical da oferta de vida.
O que vemos no Evangelho? O primeiro filho chamado pelo pai, de início se recusa, mas acaba indo. O segundo filho é o dissimulador, diz que vai, mas não se decide. Precisamos então de conversão, sermos curados de nossas dissimulações e enganos próprios. E, qual é o primeiro passa para ficarmos curados? É reconhecer que se está doente. Da mesma forma, o primeiro passo para ser livre é se reconhecer preso.
Assim, meus caríssimos jovens, voltemos agora ao início de nossa reflexão. Através da cura do paralítico, Jesus vai nos faz compreender que perdoar os pecados não depende apenas dele, mas também de nós. Precisamos nos reconhecer pecadores e desejosos de receber uma vida nova. Por isso que é mais difícil dizer: “os teus pecados estão perdoados”. Quando alguém não reconhece o seu pecado e vive na cegueira, Jesus tem dois trabalhos: o primeiro é de nos fazer reconhecer o pecado; o segundo é de nos converter. Vejam que nesse caso o trabalho é bem maior. “Levanta-te e anda...”, isto depende somente de Jesus. É maravilhoso meditar e compreender este mistério gratuita misericórdia de Deus e a liberdade do homem.
Queridos jovens, hoje Deus nos falou no Evangelho de missão, de chamado e resposta. Rezem pelos missionários, por aqueles que, corajosamente, ofertaram suas vidas para a evangelização dos outros, especialmente dos jovens. Exorto-te agora, a você que participa deste Congresso, a não esquecer que Deus também pode chamá-lo a seguir por um caminho de missão, e, diante deste chamado amoroso do Pai, não tenha medo de dar-Lhe uma resposta generosa.

Por: Luciana de S. Carvalho
Obra Shalom (Grupo de Oração "Kénosis", Shalom de Fátima / Fortaleza).

2011-09-26

Jovens, vocês me edificaram!


No Congresso Nacional de Jovens Shalom 2011, realizado no último final de semana (23 a 25 de setembro, em Fortaleza), um dos fortes momentos foi, sem dúvida, a pregação do Moysés Azevedo, fundador da Comunidade Católica Shalom. Os milhares de jovens presentes, vindos de todas as partes do Brasil, esperaram ansiosos por esse momento, porque sabem do grande amor que ele tem pelos jovens. Suas palavras são sempre edificantes e encorajadoras. Abaixo estão os principais trechos da pregação deste “profeta da juventude”.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Meus queridos jovens, o homem de hoje possui várias esperanças, distintas até. Ele direciona sua vida na esperança de ter um amor humano; esperança de ter uma profissão, destaque no trabalho e de ter o sonho por ser famoso. Porém, bem sabemos, quando realiza tais esperanças, percebe que não era a totalidade do que trazia no mais profundo de si. A totalidade do meu ser vai sempre além, exige mais.

O homem precisa de uma esperança que esteja para além dele mesmo, pois as esperanças humanas não preenchem nosso ser. A esperança é a virtude teologal que corresponde ao desejo de nossa alma. Nossa alma tem o desejo do infinito. Na Encíclica “Salvos na Esperança”, afirma o papa Bento XVI: “A verdadeira e grande esperança do homem só pode ser Deus”. O jovem quer tudo, aspira tudo! E o tudo só se tem em Deus!  Você deseja mais ou menos, pouco ou muito? (a assembleia responde: Tudo!). Pois bem, saiba que esse “tudo” tem um nome: Jesus! Ele, somente Ele, nunca te decepcionará.

Recordemos Santa Teresinha que desejava intensamente o céu e que na hora de sua morte, já sofrendo, confessou: “Meu Deus, Tu superastes todas as minhas expectativas!” Meu Jovem, esta é a esperança que vos anuncio: Jesus! O Catecismo da Igreja Católica nos diz que “A esperança fundada em Cristo é uma âncora no céu”. Uma âncora mantém o navio preso naquele lugar. Cada vez que eu exercito minha esperança, a eternidade vai entrando em mim e o céu vai se fixando no meu interior.  Jovens, se o desejo dos vossos corações for Jesus Cristo, então isto se chama esperança verdadeira, autêntica.

A âncora da esperança é que vai nos fazer firmes na Fé e nos levar a uma ação. O desespero nos leva para o inferno já nesta vida. Já a esperança, ela nos leva para o céu já nesta vida. É isto que chamo de antecipação do céu. O que é a Esperança? Responde o Catecismo: “É a virtude teologal, através da qual desejamos o reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade”. O que é o Reino dos Céus? “É o Deus com o rosto humano, Jesus!”, é o que nos diz o papa Bento XVI. Desejamos Jesus quando e como Ele se apresenta nas nossas escolhas!

Meus queridos Jovens, não vos desanimem! O pecado nos leva a quedas e traições, mas olhem sempre com esperança para a misericórdia de Jesus. Não importa o pecado que você tenha cometido, Deus nunca perderá a esperança em você. É a esperança que nos joga para o céu, que nos faz vestir as vestes da eternidade. Deus não te olha como um mendigo, mas como um candidato à santidade. Um exemplo é a eucaristia: nela Deus nos dá aquilo que é só dele, no caso, a santidade!

Recordo-me as palavras de Bento XVI aos jovens: “A esperança é uma arma que nos protege do mundo de hoje”. Disse isso o papa porque, como sabemos, vivemos uma grande batalha espiritual. Conto-vos o que aconteceu na Jornada Mundial da Juventude na Espanha: Estava um sol de 40 graus no momento que o papa chegou. De repente, as nuvens começaram a se formar, o tempo fechou e começou a cair uma chuva muito forte. Todos os jovens que estavam ali começaram a ficar encharcados. Tudo era levado pelo vento... Então, os jovens começaram a gritar: “Esta é a juventude do papa! Esta é a juventude do papa...!”

Os que estavam mais próximos ao papa, disseram ter visto suas lágrimas descerem pelo rosto... Foi então que um dos sacerdotes se aproximou e disse: “Santo Padre, está ficando perigoso aqui, vamos sair?” O papa perguntou: “Os jovens vão ficar?” Sim, eles ficarão, confirmou-lhe o sacerdote. “Então também eu ficarei!”, confessou o santo padre. Veio-lhe a inspiração de fazer uma adoração a Jesus Eucarístico. Durante esta, assim se dirigiu o papa aos jovens: “Meus queridos jovens, vocês me edificaram!”

Eu, Moysés, vos digo: Muitas vezes as nuvens negras se formam em nossas vidas. Porém, mantenhamos a esperança em Deus, pois a última palavra em nossas vidas será a da misericórdia. Meus jovens, Cristo é a nossa esperança! Este mundo caminha para a morte, mas se engana quem acha que o cristão perdeu a esperança no mundo. Se nos deixarmos crucificar com Cristo, o pecado é que morrerá, e não nós. Vocês são chamados a ser a diferença deste mundo! Tenham a marca de Cristo na vossa carne e serão sinais de esperança para os outros jovens.

Quando você é diferente as pessoas percebem! Quando você é diferente os olhos se voltam para você, porque há a necessidade do testemunho da esperança. Assim, caros jovens, vocês levarão Jesus Cristo para este mundo. Eis a minha, a sua, a nossa responsabilidade. Abracem-na! Quebrem os vossos vasos e deem o melhor perfume aos outros, Jesus Cristo. Não o guarde para si. Tenham coragem! 

Por: Luciana de S. Carvalho
Obra Shalom - (Grupo de Oração "Kénosis', Shalom de Fátima, Fortaleza) 

A dor do deixar partir e o prazer de se deixar doar


Vivemos em uma cultura muita preocupada com acúmulo de seus bens, organização da vida, agenda lotada, relacionamentos adultos racionais, e com o olhar direcionado para um futuro tranquilo com patrimônio garantido. Haverá lugar para a vivência significativa do afeto para essas pessoas que têm tanta pressa e não sabem realmente para onde vão?

Somos todos carentes de dar e receber afeto, por isso penso ser tão difícil armazená-lo. Mas alguns conseguem e até se enaltecem disso; são donos do sentimento, não podem perdê-lo: “é meu, não dou, não troco, não negocio”. E caminham pela vida com esse sentimento guardado num cofre, ignorando que se não for retroalimentado deixa de ser sentimento. A necessidade de acumular se tornou tão enlouquecedora que até o afeto é um patrimônio, e assim o sendo não posso perdê-lo.

Penso no valor que é inerente aos projetos que fazemos de ser feliz. Há uma intenção que estrutura positivamente a busca e facilita frente à vida e ao que dela pretendemos, embora nem sempre seja possível realizar o que se tem em mira.

Creio que a luta amorosa tem também essa dignidade, esse sentido que lhe é inerente, mesmo que não se alcance o cume da experiência. Acredito que perdemos tempo quando esperamos o amor. Não encontramos o amor em si, mas razões para amar. E estas razões estão em nós e a nossa volta, mas frequentemente não as vemos ou não as percebemos. Limitamo-nos a pensar que está guardado em algum lugar.

Não podemos é nos deter no “que seja pelo resto da vida”, porque na verdade o resto da vida é tudo aquilo que se vive ao final de cada etapa. Assim atravessamos muitos “restos da vida”, porque as vidas se sucedem de restos que nascem desses finais. Na trajetória amorosa, queremos, como em tudo, a felicidade. Mas ela não é previsível, não é controlável, não a possuímos. Dela não nos apropriamos. Ela não é do tamanho do nosso cofre. Ela é sempre maior.

Necessitamos encontrar aquilo que une, que vincula, que funde com o outro, que garante crescimento na arriscada aventura da partilha amorosa. Precisamos ter a quem dedicar afeto e com quem possamos partilhar o sentido encontrado para a vida. O afeto precisa ser correspondido, precisa dessa partilha para desenvolver-se. A privação afetiva é exatamente muito nociva porque nos impede de ousar, de descobrir e utilizar o melhor de nós próprios.
Talvez esse texto seja um daqueles que tem endereço certo: é para alguém que está de mudança e se despedindo. A ambivalência se apossa do momento, a dor do deixar partir e o prazer de se deixar doar.

Embora viva conosco, assim como os filhos, o amor não nos pertence. No entanto, teremos de reinventá-lo para não ficar na nostalgia e viver o passo seguinte da vida que continua. Faço minhas as palavras de Frejat: “Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar”.

Fonte: Zenilce Vieira Bruno - Psicóloga, sexóloga e pedagoga. Publicado no Jornal O Povo (Opinião), domingo, 25 de setembro de 2011 (“Patrimônio Afetivo").

2011-09-23

Vim trazer Jesus Cristo à minha terra

A visita pastoral do Santo Padre, Bento XVI, à sua terra natal, a querida Alemanha, também é marcada nestes dias (setembro de 2011) por protestos, como já eram esperados e o próprio pontífice tinha a consciência que ocorreriam. Aliás, os protestos foram articulados desde quando o Vaticano anunciou oficialmente a visita. E, como bem sabemos, os grupos que protestam a presença do papa são sempre os mesmos (formados por uma minoria), com suas ideologias e bandeiras secularizadas. Vale lembrar que aquele é um Estado democrático, graças a Deus, por isso há o legítimo direito ético de protesto. Faz parte da liberdade de um indivíduo, de um povo, de um grupo. Os protestos têm também sua natureza positiva, por isso o papa os vive com serenidade.

Inicialmente a Conferência dos Bispos da Alemanha tratou de esclarecer que os gastos com a visita do papa não sairiam dos cofres públicos, mas da Santa Sé e das colaborações das paróquias da Alemanha que queriam a presença do papa, por sua vez, quase a totalidade delas. O povo católico quer, deseja, exige ver o santo Padre, saudá-lo, encorajá-lo na missão e, sobretudo, ser também confirmado, confortado, encorajado e direcionado pela presença e ensinamentos do vigário de Cristo, do sucessor de Pedro. O mundo quer seus ídolos vazios e dá a vida por eles, nós queremos com fé e confiança estar aos pés de Pedro, ouvindo dele a Palavra do Senhor. O papa não é um ídolo e infelizes de nós se ele fosse apenas “um chefe da Igreja”. “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, disse Jesus.

Tão logo chegou à Alemanha, afirmou: “Vim aqui encontrar o povo de Deus e falar-lhe de Jesus Cristo”. Perguntado acerca do que pensava sobre os protestos por causa dos escândalos de pedofilia, respondeu: “É ‘normal’ que em uma sociedade livre, neste tempo de secularização, haja pessoas que se manifestem contra sua presença”. E esclareceu que compreendia os que abandonaram a Igreja na Alemanha por causa dos escândalos. Porém, a Igreja está para além dos escândalos, porque ela não é uma organização das mãos e interesses dos homens. A Igreja precisa se renovar a partir de dentro, por isso “venho com muita alegria à Alemanha para trazer Cristo à minha terra".

O papa, como sempre, é um homem corajoso, um profeta que não teme as oposições e nem se revolta com elas, mas responde serenamente com a mensagem da Boa Nova. “Vim trazer Jesus Cristo à minha terra”. Pretensão? Não, missão confiada por Jesus Cristo! “Ide, anunciai a todos os povos a boa nova da Salvação! Não tenhais medo!” Por isso, se algo incomoda, certamente não é a pessoa do papa, mas o que ele porta: a força da verdade, e, que se saiba, a verdade incomoda porque é claridade nos olhos de corações acostumados com as trevas, com a falsa ilusão de felicidade, a que esta sociedade secularizada oferece! Feliz é a Alemanha por receber o conforto do vigário de Crsito.

Quanto a nós, o grande rebanho, não hesitamos em afirmar: Estamos com sua pessoa, querido Santo Padre! Recordamos suas humildes e proféticas palavras na homilia de inauguração do pontificado: “O Filho de Deus não tolera ver a humanidade, suas ovelhas, numa condição tão miserável, que não enxerga o caminho. Por isso, levanta-se do ímpeto, abandona a glória do céu, para reencontrar a ovelha perdida e segui-la, até a cruz. Carrega-a sobre os ombros (...), oferece a sua vida pelas ovelhas. Deus me dê esta coragem de dar a vida pela ovelhas me confiadas!”. É exatamente isto que estamos vendo na vida do santo Padre. Nossa gratidão e nossas orações...

Antonio Marcos

A beleza salvará o mundo!

Os teólogos contemporâneos resgataram o conceito de beleza para falar de Deus, do Seu amor e misericórdia. Por exemplo, Urs Von Balthasar chegou a afirmar que a "beleza salvará o mundo". E, é claro, ele não fala da dimensão distorcida da "estética", na qual a beleza humana é em nossos dias tão banalizada, colocada como sinônimo de sensualidade e promiscuidade, ferindo assim a altíssima dignidade da sexualidade humana, do corpo como templo de Deus, mas, fala o teólogo daquele núcleo de valores que porta uma pessoa no seu interior e que se traduz no exterior, também pelo estético. Para mim o exemplo mais concreto é o sorriso de uma criança! São valores que evidenciam a natureza da qual saímos, a natureza de Deus, o Belo e fonte de toda beleza. Sim, a beleza salvará o mundo, porque a simetria do amor vence o descompasso do pecado, a feiúra do mal. Mas é bem verdade que também a beleza do que se vê, fruto da obra criadora de Deus, aquilo que provoca o "entusiasmo do olhar e o descanso da alma”, como dizem os poetas, é também uma dádiva, um dom de Deus. A beleza do criado é parte deste mistério: da beleza de Deus. Uma obra de arte, uma música, um livro, um monumento, uma poesia, tudo isso nos causa entusiasmo interior perceptível nas reações..., mas, de forma especial, a arte do outro, de um rosto humano a sorrir, de um homem, uma mulher, um idoso, uma criança, belezas que melhor evidenciam a natureza do Belo... Convivências... Simetrias do amor... A beleza salvará o mundo!

Antonio Marcos

Imagem: Pequena Heloísa - Filha de Valéria Morais, amiga de Vitória da Conquista/BA

Reconstruir o templo: voltar e recomeçar!

Durante a 25a Semana do Tempo Comum (ano A/2011) refletimos nas leituras bíblicas de Esdras e Ageu sobre o retorno do povo de Israel para a sua terra. Esta volta é recheada de emoção, de alegria e surpresas. Um acontecimento esperado há muitos anos. Tudo se dá dentro do reinado de Ciro (rei da Pérsia).

Mas, necessário és e fazer uma pequena memória. Como sabemos, o povo de Israel, povo amado, objeto da aliança com Deus, agraciado por tantos favores, temido e respeitado por todos os outros povos vizinhos, foi feito prisioneiro e submetido a humilhações e maus tratos. Tudo por causa do seu próprio pecado, de suas transgressões e infidelidades, não obstante a fidelidade de Deus.

O mais terrível dos acontecimentos foi, de fato, ver o Templo, “o símbolo maior” da sacralidade da aliança com Deus, ser invadido e destruído. Afinal, para os Judeus, era exatamente ali onde “residia” o Deus Soberano. Com o Templo foram destruídos os objetos do culto, saqueadas as riquezas, o que veio a constituir em desonra para toda a nação de Israel. O sentimento de dor e desolação era tamanho que não havia mais nada a se fazer. A consciência religiosa apontava como causa o abandono da Aliança com Deus”. A pergunta fundamental em cada coração era a mesma: “Será que Deus nos abandonou para sempre? Não terá Ele compaixão do seu povo amado? Fomos desprezados para sempre! Mas, somos nós os culpados, e Deus é justo!”

O tempo do cativeiro foi prefixado pela providência divina para que Israel reaprendesse a refletir seus crimes, seus pecados, suas maldades. Quando foram levados para o cativeiro pelos babilônicos, iniciou-se um longo e doloroso período de prova e purificação. Porém, o sofrimento não arrancou do mais profundo de suas vidas aquela confiança que os permitia dizer em meio aos algozes: “Na terra do meu cativeiro, haverei de honrar e louvar o Senhor. (...) Se ele vos ama, Israel, também vos dará seu perdão” (Cântico de Tobias 13, 2-8). Israel faz no Cativeiro a maior de todas as experiências: Deus continua com o seu povo, vivendo suas dores e sofrimentos. Deus não é o autor do mal e do sofrimento, mas sabe, misteriosamente, tirar deles um bem maior. É chegado o tempo de reconstruir o templo. Voltar e recomeçar!

Quais são os nossos cativeiros? Qual é o seu? A resposta pode ser coletiva se transferimos para um contexto de mundo contemporâneo, mas, neste contexto de reflexão, deixemos no plano pessoal, individual. Pretende-se dizer que, seja qual for o nosso cativeiro, honremos e louvemos o Senhor. Creiamos sempre que Ele nos ama, e por isso nos dará o perdão. É chegado o tempo de reconstruir o templo, portanto, escutemos as palavras do profeta Ageu: “Coragem, filho! Eu assumi um compromisso convosco, diz o Senhor. Coragem, povo de Deus, e mãos à obra. O esplendor de vossa casa será maior que o da primeira!” (cf. Ag 2, 1-9).

Antonio Marcos 

2011-09-19

Todos podem amar muito

Teresa de Ávila (Espanha, Séc. XVI) tinha o desejo da verdade, ansiava por ela e percorreu um caminho interior não tão fácil para encontrá-la. A maior dificuldade se dava exatamente pelas distrações do coração com o exterior. Não era uma mulher de cultura, mas compreendia que mesmo não tendo tanta habilidade para “a arte do pensar o saber”, o amor e amizade a Deus preencheriam suas lacunas de sentido, realização e felicidade, de tal forma que as outras realidades jamais poderiam ser superioras, embora considerasse sempre o valor do saber, inclusive teológico.

Depois de muitos anos vivendo uma vida a mendigar a atenção dos outros, distraída de si mesmo em favor do que lhe acontecia fora, Teresa faz a experiência de que não conhece a si mesma, muito menos a Deus, aquele a quem pretendia entregar a vida para sempre. Reconhecia-se não amiga de Deus e isto a angustiava. Tudo recomeça quando a misericórdia a atraiu à conversão e lhe mostrou que a oração é via por excelência para se cultivar a amizade com Deus. Se a amizade é uma escolha gratuita, é certo que ela precisa de reciprocidade, porque ninguém é amigo sozinho, visto que a amizade é uma comunhão de dois corações na verdade. Verdade esta que não permite a mentira e a falta de transparência na vida de dois amigos. Da mesma forma, quando nos aproximamos de Deus e estamos na mentira, não haverá encontro, não haverá reciprocidade, não haverá comunhão e transformação de vida. Somente a oração sincera abre o coração para o desejo e acolhida da verdade. Rezar é o caminho direto para conhecermos a Deus e a nós mesmos. Rezar significa processo que também nos expõe para que a nossa verdade seja revelada, porque Deus é luz sobre o candeeiro: “Com efeito, tudo o que está escondido deverá tornar-se manifesto” (cf. Lc 8,17).

Deus nos mostra a nossa verdade não para nos acusar, nos condenar, mas para nos atrair ao arrependimento e à conversão, ao retorno para a Sua amizade. Foi isto que aconteceu com Teresa de Ávila e é o que Deus pretende fazer conosco. É óbvio que precisamos de humildade se queremos ser atingidos pela misericórdia de Deus, pois “a humildade é a verdade”, segundo Santa Teresa. O orgulho pode facilmente tomar conta do nosso saber, mas também da nossa oração. O termômetro é sempre a vida na caridade de Cristo em favor dos outros. Quanto a isso, diz Teresa: “Muitos não estão capacitados para pensar muito, mas todos podem amar muito”. Deus nos conceda esta graça!

Antonio Marcos

Amizade: “comunidade para os outros”

Quando se fala de relação íntima com alguém, segundo os dicionários da língua portuguesa, entende-se que se trata de um “estreitamento de vida”, do fato de que aquela pessoa participa de nossas confidências, melhor dizendo, tem acesso ao que se passa no nosso interior. Ser íntimo de um amigo, de uma amiga, significa que não há qualquer barreira entre nós, porém, necessário é esclarecer que também esta relação exerce uma missão “ad extra”, ou seja, para fora, para os outros. A própria amizade tem a vocação de ser uma “comunidade para os outros”. Amizade fechada é porta aberta para as ciladas da própria fraqueza humana, como o egoísmo, a possessividade, o ciúme e até as paixões nocivas.

Diríamos que o termo “paixão nociva” pode ser também atribuído a uma má relação com o próprio Deus. Nesse caso não seria relação íntima sadia, mas “intimismo”, ou seja, estar fechado numa relação com um Deus pessoal completamente incapaz de nos abrir aos outros. E o pior, incapaz de nos fazer enxergar a realidade do outro ao nosso lado e do mundo que carece de testemunhas. E isto não é compatível com o Deus de Jesus Cristo. Segundo o filósofo Martin Buber, seria ferir a alteridade, a deturpação daquela necessária relação de um “eu + tu” constituindo um “nós”, e que estaria voltado para um “Tu” (o transcendente), o que para nós cristãos seria o Deus de Amor, o Absoluto.

A relação de amor e amizade na Santíssima Trindade jamais pode ser “intimista”, mas comunhão aberta, doada, despojada. Graves são as consequências pessoais e coletivas de uma fé intimista, de uma relação com o Sagrado de forma alienante. Creio não simplesmente para salvar a mim mesmo, mas também para ajudar os outros a crerem, a serem amigos íntimos de Deus. É óbvio que isto se dá somente pelo amor, não “o nosso”, mas aquele amor que se esvaziou até o extremo (cf. Jo 13,1).

Antonio Marcos

Ser bom e misericordioso em nossos dias: um desafio!


No Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum (18 de setembro de 2011), tivemos a oportunidade de meditar sobre a generosidade da misericórdia de Deus (cf. Mt 20,1-16a). A constatação da distância entre a justiça humana e a divina é evidente, a partir das nossas próprias atitudes. Também nos perguntamos acerca dessa “medida da misericórdia” que faz calar a nossa lógica de julgar o que os outros merecem. Muitas reflexões a “parábola dos trabalhadores da primeira e da segunda hora” nos proporciona. Uma delas é exatamente acerca dos cálculos feitos por quem vive o engajamento ou qualquer tipo de serviço na comunidade de fé, na igreja, no grupo, no ministério ou no ambiente em que se vive e testemunha a fé. A nossa tendência é demonstrarmos de alguma forma que somos melhores, mais capazes e virtuosos, mais santos e sábios que os outros. Até o “tempo de chegada na fé” – ainda que não corresponda com a prática de vida – é usada para intimidar os outros, quando não a Deus, exigindo dele os favores especiais pelos nossos serviços prestados. Claro, nem sempre isso é consciente, mas sutil, disfarçado, porém concreto, real. Aquela inveja dos ambientes de trabalho, infelizmente, também está na comunidade de fé porque lá está o homem pecador. O estranho é que em nossos dias até mesmo quem se destaca na generosidade e bondade é causa de desconforto para muitos. Paradoxalmente não é fácil ser bom e misericordioso em nossos dias, pois causa espanto e até revolta em muitos. É exigido de nós “o dente por dente e olho por olho”. E isto é lamentável, não justificável. Os operários da última hora, conforme relata a parábola, receberam a mesma quantidade em moeda em relação aos da primeira hora. Deus vai além, supera todo cálculo, não pensa e nem age como nós. Isto não autoriza ninguém a retardar sua conversão, sua volta para Deus, mas apressá-la por causa de si e dos outros. E quanto a nós que já iniciamos esse caminho de retorno para Deus, não obstante nossa lentidão e fraquezas, não deve haver competição, mas estímulo mútuo. Ser o primeiro na lógica de Deus e da fé cristã não é questão de cronologia, de simples “prestação de obrigações religiosas”, mas serviço de caridade ao próximo. A bondade dos outros não deve gerar inveja em nós, mas desejo de vivê-la na medida como Deus a vive, inclusive nos concedendo Sua misericórdia todos os dias.

Antonio Marcos

2011-09-18

Perdoar é permitir que a vida continue

Em nossa cultura, em nosso tempo, tolerância e bom senso tornaram-se valores obsoletos. Parecemos uma sociedade que perdeu o interesse pelo futuro. Essa apatia indica que não existem projetos coletivos que deem sustentação e sentido à vida das pessoas.

Modificar esse tipo de atitude supõe que se resgatem valores éticos que se coloquem a serviço do bem-estar do humano. Narcísicos, perversos e fanáticos empurram a humanidade para uma destruição de valores e da própria vida. “A tragédia em cena já não nos basta”, diz Artaud, assistimos ao vivo e a cores as destruições que procedem da orgia de intolerâncias.

O mundo atual sofre de um mal-estar que parece exigir um olhar diagnóstico cuidadoso. A vida vem sendo tratada como algo simples e desprezível, usada para fins “naturalmente” destrutivos. Um tipo de atitude que vem sendo fortalecida num contexto em que crescem os narcisismos e as intolerâncias, promovendo uma desapreciação crescente do cordial, do relacional, do amoroso.

Desde que a felicidade passou a ser buscada apenas nas coisas, no consumo, na ostentação, no parecer, no poder, e não dentro do sujeito e nas relações que estabelece, o outro foi perdendo seu lugar de parceiro e começou a ser visto como concorrente, como rival.

Na era da informação de massas e da política espetacular, a exaustão é permanente. A informação nos satura antes que a reflexão e a dinâmica social encontrem alguma solução. Somos invadidos por uma multiplicidade de imagens destrutivas que nos deixam sem fôlego. Ansiamos pelo oxigênio da paz. Mas a paz que se quer para si, para o mundo, para os povos, terá de começar por cada um de nós. Teremos que reaprender o gosto pelo ético, pelo relacional, pelo amoroso e processar corajosamente transformações internas que instalem em nós a vontade da paz, o exercício da tolerância, a capacidade do perdão.

Mágoas e ressentimentos são frequentes na experiência mais guardada das pessoas. Quem já não teve seus motivos de guardar uma dor, um sentimento rebentado, uma raiva por desejos frustrados, ou até ódio por uma situação transtornada, humilhante ou injustiçada?

Somos todos muito capazes sim desses sentimentos raivosos. Eles compõem a nossa realidade humana. Contudo, é bom lembrar que nossas mágoas não resolvidas promovem sequelas muito sérias quando realimentadas dentro de nós. Torna-se possível então uma imensa produção de destruições em nós mesmos. A qualidade da vida interna e a saúde emocional ficam prejudicadas nesse território amargurado onde não sobra espaço para alegria, leveza, partilha cordial e afeto.

Faz-se necessário o exercício cotidiano de desculpar, de tolerar, de cascavilhar menos as faltas do outro, de perdoá-lo nos pequenos deslizes. Se isto parecer muito difícil, vale a pena lembrar o que Cristo falou aos fariseus, reconhecendo o quanto eles eram hipócritas: “Atire a primeira pedra quem não tiver pecado”.

(...) Que ensaiemos, portanto, passar do estado de raiva, de ódio e de intolerância para um estado de compreensão do humano em suas falhas e encantamentos. Somos todos maravilhosos e destrutivos. Capazes de amor e ódio. Cabe dar destino ao que somos. Cabe nos apropriarmos do que queremos ser e fazer. Perdoar é abrir mão do ódio e permitir que a vida continue.

Fonte: Zenilce Vieira Bruno, Psicóloga, pedagoga e sexóloga. Publicado no Jornal O Povo (Opinião): “Orgia de intolerâncias”, 07 de maio de 2011.

2011-09-11

Perdoar sempre, e ir adiante...

Bem sabemos que o ato do perdão não é mágico, mas processo de síntese, entrada em si mesmo, memória do que Deus fez e faz por nós, como ainda desejo de ser livre no corpo, na alma, na mente... Perdoar não simplesmente porque “o outro é culpado”, mas porque o perdão nos humaniza, nos diviniza, nos integra. O perdão refaz também nossos destroços porque a mágoa cultivada gera doença, faz cair nossas fortalezas, gera destroços... Sabemos que nossas forças são falhas nesse processo e que a graça de Deus é o grande sustento. Se não há perdão, não há elevação dos níveis de amor... É preciso perdoar e não ter medo se isso "pareça fraqueza", pois, na verdade, é fortaleza. Muitos ficam marcados para sempre por terem sofrido certos tipos de ofensas e até atos de violência física e moral, por isso talvez o processo de perdão para estes seja mais doloroso e até lento, mas possível e necessário. Muitos são testemunhas de que vale mais as lágrimas da libertação interior, da vitória sobre o sentimento de vingança, do que permanecer infeliz, enclausurando dentro de nós os réus que nos ofenderam. Perdoar e ir adiante, eis a verdadeira felicidade! Perdoar, não humilhar! Perdoar e deixar a verdade dar ao outro, a mim, a nós, uma nova chance para recomeçar. E também é verdade que o recomeço pede sempre mudança de vida, mas somos apenas uma pequena parcela de colaboração nas transformações dos outros. Devo revelar-lhes a face da misericórdia de Deus, pois somente o Seu amor nos faz ver a verdade daquilo que somos e precisamos ser. Quando perdoamos é este amor de Deus já mostra sua face através de nós. Perdoar sempre, e ir adiante..., eis a nossa felicidade!

Antonio Marcos

Perdão: a mesquinhez humana procura sempre uma medida

O judaísmo já conhecia o perdão das ofensas, mas se tratava de uma conquista recente, que só se conseguia impor mediante a lista de tarifas precisas. A mesquinhez humana procura sempre uma medida, uma norma que lhe dê satisfação. Perdoar, sim, mas quantas vezes? Os rabinos, para acentuar a liberalidade de Deus, diziam que ele perdoa três vezes; as escolas rabínicas exigiam que seus discípulos perdoassem certo número de vezes à mulher, aos filhos, aos irmãos etc., e esta lista variava de escola para escola. Pedro pergunta a Jesus qual a sua medida.

Setenta vezes sete

Jesus havia ensinado a amar os próprios inimigos, e orar pelos que nos perseguem a fim de sermos filhos do Pai que está nos céus, que faz surgir o sol sobre os maus e os bons e faz chover sobre justos e injustos (Mt 5, 44-45). No pai-nosso, havia ensinado a pedir: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Pedro, que pelo contato com Jesus, compreendeu que as medidas até agora tidas como válidas, não servem mais, tenta uma resposta: “até sete vezes”? É mais do que o dobro de três, e além disso é um número simbólico que significa plenitude (cf. Mt 18, 21-35). Jesus formula sua resposta retomando o número simbólico, mas multiplicando-o de tal maneira que signifique uma plenitude ilimitada. É preciso perdoar sempre. A parábola que segue explica esse dever de perdoar sem limites. O sentido da parábola é que Deus perdoa gratuitamente o pecado a quem lhe pede perdão, demonstrando uma benevolência absolutamente desinteressada para com os pecadores.

E consequência dessa experiência do perdão de Deus, o homem deve aprender a perdoar seus irmãos, tanto porque suas ofensas nada são diante da gravidade do pecado, como porque ele já foi alvo do perdão de Deus.

Fonte: Missal dominical. Comentários introdutórios, 24º Domingo Tempo Comum.   

2011-09-05

Namoro: aprofundar, não afundar

O tempo do namoro requer este itinerário: aprofundar a experiência da descoberta um do outro, fortalecer os vínculos da amizade e do amor, como ainda crescerem juntos nas virtudes da castidade, da renúncia, da espera, da paciência e do sacrifício. O tempo do namoro requer, sobretudo, a experiência da fé em Deus, dos valores cristãos e daquele amadurecimento da consciência de que somos responsáveis um pelo outro. Somos de acordo que este itinerário está cada dia mais desafiante de ser trilhado, mas que continua sendo possível e vivido por muitos jovens e adultos. E esses não são anjos, não vivem nas nuvens, mas são pessoas de carne e osso que também sofrem as pressões de uma cultura hedonista, de ambientes e contextos sociais que respiram sensualismo como suor a sair por todos os poros. São jovens que não deixam de estar inseridos na vida concreta, mas travam uma luta contra tudo o que denigre a dignidade humana, os valores que enobrecem as pessoas e as relações. São mártires de nossos dias, são os “santos de calça jeans” como diria João Paulo II. E são felizes, alegres, realizados, preenchidos. Provam na própria carne, na mente e no coração as consequências de quem aposta na santidade de vida, mas reconhecem que o Evangelho e a Igreja estão com a razão quando pedem este itinerário. O contrário de tudo isto, nós o sabemos, é uma relação que não aprofunda, mas afunda. E as consequências nem precisamos aqui descrevê-las, já estão aos nossos olhos em todos os lugares. Jesus não quer que o namoro seja ocasião de vidas e naufragadas, de juventudes despedaçadas, de escolhas que marcam dolorosamente a vida e a alma para sempre. Que não afunde, mas aprofunde a relação, é isto que deseja o Senhor da vida, Aquele que nos ama e nos chama à santidade. Tenhamos coragem, muita coragem! Não nos acovardemos, pois a graça está à nossa disposição. Aprofundar para crescer, amadurecer e se tornar um testemunho de família sólida e santa em nossos dias.

Antonio Marcos

Levanta-te e fica aqui no meio...


O episódio bíblico em que descreve a cura do homem da mão seca, realizada por Jesus na sinagoga (cf. Lc 6,6-11), é intrigante quando alguns detalhes não passam despercebidos de nossa leitura e meditação. Certamente aquele homem deveria estar ali num lugar recolhido, pois sua deficiência o deixava inferior aos outros, e nem mesmo ousasse levantar a voz, muito menos esperava o que lhe aconteceria. Porém, também é possível imaginar que desejasse se aproximar de Jesus e lhe pedir a cura, afinal o pregador já estava bem “famoso” como aquele que fazia prodígios. Ou será que aquele homem da mão seca fora ali, na sinagoga em pleno sábado, dia do culto judeu por excelência, exatamente porque soubera que Jesus estaria lá? Ninguém sabe. Mas o encontro se deu, felizmente. O homem da mão seca, na verdade, passou a ser observado pelos escribas e fariseus pra ver se Jesus o curaria, diz o evangelista. É lindo ver o texto sagrado dizer que “Jesus conhecia os pensamentos deles”. E aí vem o momento mais desconcertante, quando Jesus diz ao homem da mão direita seca: “Levanta-te e fica aqui no meio”.

Ficar no meio da sinagoga, aos olhos de todos, era algo para quem exercia na mesma alguma autoridade, algo impensável praquele homem deficiente dentro de uma cultura legalista e preconceituosa. Agora, temos de pensar na coragem do homem em ter ido para o meio, ser exposto ao ridículo, mas era o começo da sua vida nova. Desta vez o ridículo revelaria a sua cura e não a humilhação e destruição de sua dignidade. Desta vez todos o olhariam e ficariam calados com os questionamentos de Jesus. “Sim, hoje é sábado, dia sagrado, mas por que vocês vivem uma religiosidade sem dar prioridade à caridade e o bem dos outros? Que Deus é este que prefere o culto a libertação dos que sofrem? Um não estar em função do outro? Sim! Deus quer o culto, mas o quer para que a nossa vida corresponda com aquilo que celebramos”. Bem, será que isto ainda acontece hoje? Será que me lembro da Palavra e da Eucaristia quando o dia a dia me proporciona oportunidades para amar e salvar os outros? Será que ainda há muito legalismo aqui dentro de mim? Senhor, cure este coração e esta minha fé. Cure minha mentalidade e ações legalistas e, se preciso for, leve-me para o meio da sinagoga, que as humilhações sejam para um recomeço...  

Antonio Marcos