Ver a Deus além dos acontecimentos...

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, agosto 06, 2011 Sem Comentários
Não sei se você já viveu a experiência de ser perseguido e ameaçado, ou ainda se viveu uma grande decepção, uma frustração que tenha abalado suas estruturas interiores, e viu-se com tudo isso dentro de uma grande desolação humana e espiritual. As perguntas nessas horas são as inevitáveis, mas é o único consolo: “Senhor, onde estás? Por que tudo isso me acontece?” Por que permites que tamanha dor e sofrimento passe teu filho? Se você viveu isto, então compreenderá perfeitamente a angústia do profeta Elias, apresentada na primeira leitura deste 19º Domingo do Tempo Comum (cf. Rs 19,9a. 11-13a). Um domingo no qual a Liturgia da Palavra mostra que “Deus está perto do homem com o seu amor e socorro” – que diga o corajoso e temeroso apóstolo Pedro (cf. Mt 14, 22-33).

Recordemos que o profeta Elias havia passado ao fio da espada todos os profetas de Baal (deus pagão), após ter vencido o desafio de mostrar qual a divindade mandaria fogo à lenha posta sobre os dois novilhos: o de Baal e o do Deus de Israel (cf. Rs 18, 20-40). Pois bem, este feito despertou a ira do estrangeiro Jezabel que mandou dizer a Elias que ele morreria da mesma forma. O profeta decide proteger sua vida e foge. Há pouco Deus fez através dele maravilhas e agora Deus parece permitir a contradição. O homem de Deus entra na sua noite escura e se vai desolado procurando resposta. Seu coração sofre, suas emoções caem no barulho da perturbação, sua fé é provada, experiência dolorosa que só sabe quem já passou.

Já a caminho do deserto Elias manifesta a Deus sua desolação e pede a morte. Preferiria morrer nas mãos de Deus a dos ímpios, portanto, não se tratava de covardia, mas era o peso da purificação. Depois de acordá-lo de um profundo sono o Anjo de Deus o alimenta e lhe pede para subir o monte Horeb, o mesmo lugar da visão de Deus a Moisés, e entrar na gruta porque o Senhor vai passar. É esta a experiência que necessitava viver o profeta Elias, experiência de ver a presença fiel de Deus não só nos “grandes feitos”, mas, sobretudo, ver Deus presente e a passar no silêncio do seu coração, da sua alma. Só este encontro interior é capaz de sustentar o homem de Deus, a mulher de Deus, especialmente na hora da prova e do sofrimento, da perseguição e dos medos existenciais.

É na calmaria, na intimidade, na amizade que acontece a grande transformação em nossas vidas. É assim, quando tudo cala, Deus fala. Quando percebemos que não temos todas as respostas para a aridez da alma e o sofrimento, como ainda para as contradições que a própria fé nos impõe, então, não esqueçamos: o barulho comunga com o desespero, mas a fé rezada no silêncio e maturada na intimidade faz abrir os nossos olhos para vermos a Deus além dos fatos, e sim, dentro de nós. Esta é a marca dos amigos de Deus! Esta é a garantia de que Deus não nos abandona, absolutamente nunca!

Antonio Marcos