2011-08-29

Uma vida sem a Cruz de Cristo chama-se inferno

Homilia do Pe. Aristóteles, CCSh. – Shalom de Fátima, Liturgia do 22º Domingo TC, 28 de agosto de 2011.

Irmãos e irmãs,

A Liturgia da Palavra deste domingo é muito significativa em sua mensagem e, temos de dizer, muito forte. E começamos já falando da pessoa de Pedro, este que é tão parecido conosco. Como vimos no Domingo passado*, Pedro fora exaltado por Jesus por confessar “ser Ele o Messias, o filho do Deus vivo”. Hoje ele é repreendido por não pensar a lógica do Evangelho. É a luta interior, como diz Moysés Azevedo: “o velho e o novo se gladiando dentro de nós”. É o drama nosso de todas as vezes que nos vemos nos configurando não a Jesus, mas ao mundo, e o mundo, como bem sabemos, não pode nos dar a felicidade verdadeira.

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Renunciar a si mesmo não é negar a nossa identidade, mas renunciar ao pecado, aquilo que nos escraviza. É renunciar ao que nos tornamos por causa do pecado. Uma simples analogia para compreendermos o que Deus precisa fazer em nós é imaginarmos um navio que naufragou. Quando os mergulhadores o encontram depois de muito tempo, percebem que há uma crosta que o reveste. Os micro-organismos que lá se desenvolveram esconderam aquela beleza original do navio. É preciso remover aquela crosta para que se volte ao que era antes. Isto acontece conosco! O pecado nos deforma e não permite nossa transformação. Necessário nos é renunciá-lo, na dinâmica de cada dia, para voltarmos ao que somos: imagem e semelhança de Deus. Necessário nos é voltar para a comunhão com Deus, conosco e com os irmãos. Deus nos refaz na nossa dignidade e na capacidade de amar. E assim podemos estender este amor a todos que participam de nossa vida.

“Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar e julgar (...)” (Rm 12,2). Todos nós bem sabemos que os apelos do mundo são gritantes e sedutores, mas não podemos ceder a eles, pois isto é a derrota do cristão. O mundo não quer perder e nos ensina o contrário do Evangelho. Tenta nos convencer de que os valores da abnegação de si, da pureza, do perdão, da retidão, da justiça são insignificantes. Fala-se hoje de relativismo e hedonismo, mas estes contravalores vêm de muito tempo atrás. Temos que deixar Deus mudar a nossa mentalidade para agirmos conforme Sua vontade. Isto implica em luta contra o velho, como já dissemos. E a mudança começa em mim, na minha mentalidade. Os nossos pensamentos e juízos precisam caminhar cada dia para que sejam configurados aos de Jesus, à Sua mentalidade e sentimentos. E isto se apresenta na concretude de cada dia, inclusive no exercício do amor e do perdão àquela pessoa que te fez tanto mal, mas também ao esposo, ao patrão, ao vizinho etc. O problema é que geralmente achamos que são os outros que devem mudar, e eu, o que estou escolhendo cada dia? O que Deus está fazendo na minha vida? Estou me configurando a Jesus Cristo? Pois bem, precisamos renovar a nossa maneira de pensar e julgar para que não vivamos na cegueira de nossas razões, o que nos faz considerar o outro o nosso inferno, como afirmou o filósofo Sartre.

Depois observamos que o Evangelho nos mostra Pedro tentando afastar Jesus da cruz: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22). Imaginemos o que seria de nós se Jesus tivesse fugido da cruz? Infelizmente é assim que agimos tantas vezes: o que mais queremos é nos livrar da Cruz de Cristo e da nossa cruz. Dizemos: isto atrapalha os meus planos, o meu sucesso, o meu prazer! E aqui ligamos a nossa reflexão ao profeta Jeremias que sofre por causa do “fardo” da Palavra de Deus, da responsabilidade e consequências que a missão lhe trouxe. E diz: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em seu nome” (cf. Jr 20,7-9). “Não quero mais...” Isto parece tanto conosco! Quantas vezes desejamos voltar à vida cômoda, não ter mais desassossego, cansaços, tensões, a cruz do seguimento a Jesus Cristo, não é verdade? Sim! Dizemos que essa tal vida cristã tem “um sofrimento”, mas, querem saber qual é o maior sofrimento? É viver a nossa própria vontade ou uma vida medíocre. É viver uma vida sem Deus! Uma vida sem cruz, sem a Cruz de Cristo, chama-se inferno!

É fato que quase sempre estamos querendo viver segundo nossos planos e vontades, demonstramos isso, se não pelas palavras, mas com as atitudes e escolhas. Viver pra si mesmo, olhando para o nosso umbigo é a nossa infelicidade. Portanto, não resistamos à vontade de Deus, à Sua Palavra. Deixemos, à exemplo de Jeremias, que o fogo ardente da Palavra de Deus penetre o nosso corpo, a nossa mente, todo o nosso ser. Deixemos que o Espírito Santo queime a oferta da nossa vida e seja ela “oferenda agradável a Deus”, como assim o foi a vida de Jesus, através da sua entrega ao Pai no madeiro da cruz e atualizada no mistério eucarístico. Só vivendo a vida de Jesus podemos ser eucaristia na vida do outros. Peçamos a Deus a graça para que nos conformemos à Sua santíssima vontade, à vida do Seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. Somente Ele pode nos fazer feliz, nos dar a verdadeira vida nova. Assim seja!

Por Antonio Marcos

(*) No Domingo passado, aqui em Fortaleza, celebramos a Liturgia do 21º Domingo do TC e não da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada no dia 15 de agosto (segunda-feira), por ocasião da Festa da Padroeira da Cidade de Fortaleza.

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