2011-08-16

Quanto mais amamos, mais somos exigidos

Essas linhas nasceram no último domingo, 14 de agosto, após ouvir a homilia na Santa Missa e chegar à minha casa pensando, o que me fez rezar um pouco e depois escrevê-las.

O evangelista Mateus (15, 21-28) narrava o episódio do encontro da mulher Cananéia com Jesus. Diz o texto que estando Jesus nas regiões de Tiro e Sidônia, uma mulher daquela região se põe a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio”. Os discípulos, incomodados, mandam que ela se cale. Jesus responde que veio somente para as ovelhas da casa de Israel. Esta primeira resposta seria o suficiente para se conformar pelo fato de ser ela pagã, não judia, não Israelita, mas começa a ir além na sua determinação e fé: aproxima-se e se prostra diante de Jesus. Talvez tenha pensado: “Digam o que disserem, eu o reconheço como Senhor!” 

A mulher suplica para que Jesus a socorra em sua necessidade. Ela é mãe e sabe o que é uma filha doente. Jesus lhe dá a segunda resposta: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. Se tivesse aquela mulher uma alma pequena e uma fé pobre teria sido outra decepção com esta resposta de Jesus. Além disso, imaginemos a sua auto-estima ferida em ser, aparentemente, ignorada por Jesus diante de todos e ser até mesmo igualada aos “cachorrinhos”, por ser ela do povo pagão.  Estar ali naquelas condições era mesmo humilhante. Ora, pensemos bem, o que acontece conosco quando alguém nos trata mal, quando nos ignora pessoalmente ou publicamente? Quantos perdem o sossego da alma e se enchem de orgulho, raiva e vingança quando escutam uma ofensa, quando são vítimas da indiferença dos outros ou são alvos de calúnias... Quantos abandonam o grupo, a pastoral, a comunidade, a Igreja porque alguém o tratou com indiferença! É verdade, somos assim tantas vezes! Mas, que contradição! Jesus não é a suprema Bondade e Misericórdia? Não ama Ele as mulheres e os pecadores? Teria Ele faltado com a caridade, humilhando ainda mais aquela pobre mulher? O que você acha?

Mesmo diante do rechaço a mulher insiste, confia, acredita em Jesus. Vejamos a resposta que surpreendeu pela humildade e fé da mulher Cananéia: “É verdade, Senhor, mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” Em outras palavras, quis dizer: “É verdade, Senhor, eu sou pecadora! Sou tudo isso e não mereço nada, por isso estou aqui nessas condições pedindo e suplicando. Tu és Senhor, aquele que tem o poder de ir além do que é impossível e inconcebível à fria maneira dos homens julgarem os fatos e as pessoas”. E ela escuta de Jesus: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde esse momento sua filha ficou curada, diz São Mateus no capítulo 15, 25-28.

Jesus não menosprezou, não humilhou aquela mulher. Talvez tenha ido lá pensando somente naquele encontro, porque chocaria até mesmo os que o seguiam de perto. Jesus, na verdade, usou uma pedagogia no modo de falar e de agir para ver até onde iria a fé daquela mulher. Os fracos desistem logo, se fecham em suas revoltas e decepções e permanecem infelizes, não avançam no amor, não recomeçam, não experimentam a força da misericórdia de Deus. Jesus sabe que quanto mais amamos, mais somos exigidos. O amor não pode ficar estático, mas se renova e se recria cada dia. Os que se amam, os irmãos, os cônjuges, os namorados, os amigos sabem que quando um ama o outro se pode pedir mais, ajudar o outro ir além. É a sadia e equilibrada exigência do amor que não humilha, mas nos faz crescer, amadurecer e dar um salto na confiança. Se não há fé e amor, como Deus pode exigir de nós? Consequentemente, como sair do que nos parece sem jeito? A Cananéia foi além na exigência do amor e na fé. Ela adentrou o mistério, conheceu o segredo do Coração de Jesus por dentro.  

Jesus mostrava assim que a salvação não era patrimônio de Israel, mas de todos. A salvação é dom para todos aqueles que creem. Ninguém está dispensando do chamado à santidade. O amor de Deus não tem fronteira de cor, língua e povo. Porém, aproximar-se deste mistério requer fé e humildade como fez a Cananéia: “Eu sei, Senhor, sou isto..., por isso preciso de Tua salvação”. A oração tem que ser insistente, confiante, sobretudo humilde e cheia de amor e fé. Dê-nos, Pai, este dom, esta graça.

Bendita homilia que provocou uma revolução dentro de mim! Obrigado, Senhor!
Antonio Marcos       

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