A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2011-08-29

Uma vida sem a Cruz de Cristo chama-se inferno

Homilia do Pe. Aristóteles, CCSh. – Shalom de Fátima, Liturgia do 22º Domingo TC, 28 de agosto de 2011.

Irmãos e irmãs,

A Liturgia da Palavra deste domingo é muito significativa em sua mensagem e, temos de dizer, muito forte. E começamos já falando da pessoa de Pedro, este que é tão parecido conosco. Como vimos no Domingo passado*, Pedro fora exaltado por Jesus por confessar “ser Ele o Messias, o filho do Deus vivo”. Hoje ele é repreendido por não pensar a lógica do Evangelho. É a luta interior, como diz Moysés Azevedo: “o velho e o novo se gladiando dentro de nós”. É o drama nosso de todas as vezes que nos vemos nos configurando não a Jesus, mas ao mundo, e o mundo, como bem sabemos, não pode nos dar a felicidade verdadeira.

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Renunciar a si mesmo não é negar a nossa identidade, mas renunciar ao pecado, aquilo que nos escraviza. É renunciar ao que nos tornamos por causa do pecado. Uma simples analogia para compreendermos o que Deus precisa fazer em nós é imaginarmos um navio que naufragou. Quando os mergulhadores o encontram depois de muito tempo, percebem que há uma crosta que o reveste. Os micro-organismos que lá se desenvolveram esconderam aquela beleza original do navio. É preciso remover aquela crosta para que se volte ao que era antes. Isto acontece conosco! O pecado nos deforma e não permite nossa transformação. Necessário nos é renunciá-lo, na dinâmica de cada dia, para voltarmos ao que somos: imagem e semelhança de Deus. Necessário nos é voltar para a comunhão com Deus, conosco e com os irmãos. Deus nos refaz na nossa dignidade e na capacidade de amar. E assim podemos estender este amor a todos que participam de nossa vida.

“Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar e julgar (...)” (Rm 12,2). Todos nós bem sabemos que os apelos do mundo são gritantes e sedutores, mas não podemos ceder a eles, pois isto é a derrota do cristão. O mundo não quer perder e nos ensina o contrário do Evangelho. Tenta nos convencer de que os valores da abnegação de si, da pureza, do perdão, da retidão, da justiça são insignificantes. Fala-se hoje de relativismo e hedonismo, mas estes contravalores vêm de muito tempo atrás. Temos que deixar Deus mudar a nossa mentalidade para agirmos conforme Sua vontade. Isto implica em luta contra o velho, como já dissemos. E a mudança começa em mim, na minha mentalidade. Os nossos pensamentos e juízos precisam caminhar cada dia para que sejam configurados aos de Jesus, à Sua mentalidade e sentimentos. E isto se apresenta na concretude de cada dia, inclusive no exercício do amor e do perdão àquela pessoa que te fez tanto mal, mas também ao esposo, ao patrão, ao vizinho etc. O problema é que geralmente achamos que são os outros que devem mudar, e eu, o que estou escolhendo cada dia? O que Deus está fazendo na minha vida? Estou me configurando a Jesus Cristo? Pois bem, precisamos renovar a nossa maneira de pensar e julgar para que não vivamos na cegueira de nossas razões, o que nos faz considerar o outro o nosso inferno, como afirmou o filósofo Sartre.

Depois observamos que o Evangelho nos mostra Pedro tentando afastar Jesus da cruz: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22). Imaginemos o que seria de nós se Jesus tivesse fugido da cruz? Infelizmente é assim que agimos tantas vezes: o que mais queremos é nos livrar da Cruz de Cristo e da nossa cruz. Dizemos: isto atrapalha os meus planos, o meu sucesso, o meu prazer! E aqui ligamos a nossa reflexão ao profeta Jeremias que sofre por causa do “fardo” da Palavra de Deus, da responsabilidade e consequências que a missão lhe trouxe. E diz: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em seu nome” (cf. Jr 20,7-9). “Não quero mais...” Isto parece tanto conosco! Quantas vezes desejamos voltar à vida cômoda, não ter mais desassossego, cansaços, tensões, a cruz do seguimento a Jesus Cristo, não é verdade? Sim! Dizemos que essa tal vida cristã tem “um sofrimento”, mas, querem saber qual é o maior sofrimento? É viver a nossa própria vontade ou uma vida medíocre. É viver uma vida sem Deus! Uma vida sem cruz, sem a Cruz de Cristo, chama-se inferno!

É fato que quase sempre estamos querendo viver segundo nossos planos e vontades, demonstramos isso, se não pelas palavras, mas com as atitudes e escolhas. Viver pra si mesmo, olhando para o nosso umbigo é a nossa infelicidade. Portanto, não resistamos à vontade de Deus, à Sua Palavra. Deixemos, à exemplo de Jeremias, que o fogo ardente da Palavra de Deus penetre o nosso corpo, a nossa mente, todo o nosso ser. Deixemos que o Espírito Santo queime a oferta da nossa vida e seja ela “oferenda agradável a Deus”, como assim o foi a vida de Jesus, através da sua entrega ao Pai no madeiro da cruz e atualizada no mistério eucarístico. Só vivendo a vida de Jesus podemos ser eucaristia na vida do outros. Peçamos a Deus a graça para que nos conformemos à Sua santíssima vontade, à vida do Seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. Somente Ele pode nos fazer feliz, nos dar a verdadeira vida nova. Assim seja!

Por Antonio Marcos

(*) No Domingo passado, aqui em Fortaleza, celebramos a Liturgia do 21º Domingo do TC e não da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada no dia 15 de agosto (segunda-feira), por ocasião da Festa da Padroeira da Cidade de Fortaleza.

2011-08-27

Santo Agostinho: Deus reformou minhas deformidades!

Este ano a memória litúrgica da vida de Santo Agostinho cai no Domingo, Dia do Senhor, 28 de agosto, e nesse caso a prioridade é a liturgia dominical, a memória da Ressurreição de Jesus, a nossa páscoa semanal. Porém, isto não impede de ser ressaltada a força da ressurreição na vida do jovem Agostinho de Hipona (354-430). Este é um santo que mesmo os que nada ou pouco conhecem da vida da Igreja, testemunham que já ouviram falar da sua conversão.

Agostinho, a exemplo de muitos jovens em nossos dias, procurava com inquietude a felicidade. O rápido percurso de progresso e realização profissional não o fez feliz. A extraordinária capacidade intelectual de Agostinho, percebida já no florescer da juventude, passou a ser contrastada com o desregramento moral, as experiências obscuras de uma vida arrastada pelas paixões. No entanto, gritava em seu interior o desejo de Deus. É bem verdade que não lhe faltaram o testemunho e a educação cristã de sua querida mãe, Mônica, mas, infelizmente, as “filosofias” caricaturam-lhe a verdade e o deixaram confuso, desnorteado e muitas vezes vazio. “A luz estava em seu interior, mas olhava para fora” (Confissões, L.VII,7,11). O jovem Agostinho demorou a fazer a experiência pessoal com o amor de Jesus Cristo e passar a tê-Lo como amigo íntimo e Senhor. Esta demora lhe custou um preço, mas quando a conversão passou a ser processo a misericórdia de Deus foi superabundante em sua vida. Ele conta que “Deus reformou suas deformidades!” (L. VII,8,12).

Muitos foram instrumentos de salvação na vida de Agostinho. Providencialmente Deus coloca no nosso caminho alguém - ou algumas pessoas - que nos comunica a luz do Evangelho. Pessoas que nos ajudam a encontrar ou reencontrar o rosto da Verdade, a Pessoa de Jesus, o amor de Deus, ainda que para isso derramem lágrimas. Mônica, alguns poucos amigos e o bispo Ambrósio foram as “mãos de Deus” a reconduzir o coração de Agostinho para a luz. E o que eles deram a Agostinho? Certamente a força da ressurreição que vem, sobretudo, da oração e da Palavra de Deus: “Tocaste-me o coração com a tua palavra, e comecei a amar-te” (L.X,6,8). O que aconteceu com o profeta Jeremias – como diz a 1ª Leitura deste 22º Domingo do TC -, foi o mesmo com Agostinho: “Senti dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar” (cf. Jr 7,9). Afirma ele que “Esta Palavra lhe foi um grito que rompeu a surdez, uma luz que afugentou a cegueira” (cf. L.X,27,38).

Agostinho foi conquistado por Jesus Cristo, impactado com a certeza de que o Verbo de Deus havia escolhido o seu interior como morada. Sua decisão foi radical em não mais querer permanecer na vida velha. A graça de Deus lhe imputou um “hoje salvífico”. “A fé em Cristo fez-lhe compreender que Deus, aparentemente tão distante, na realidade não o era. Ele, de fato, tinha-se feito próximo de nós, tornando-se um de nós. Neste sentido a fé em Cristo levou a cumprimento a longa pesquisa de Agostinho sobre o caminho da verdade. Só um Deus que se fez ‘próximo’, um de nós, era finalmente um Deus ao qual se podia rezar, pelo qual e com o qual se podia viver” (Bento XVI. Audiência Geral sobre as conversões de Santo Agostinho, fevereiro de 2008).

Santo Agostinho colaborou com a ação da graça de Deus, que o conduziu por uma via que jamais imaginou. Bendito Seja Deus pelos seus caminhos! Bendito seja Deus pela força da Sua misericórdia, única capaz de nos reconstruir por inteiro. O desígnio de Deus deu à Igreja e à humanidade um dos mais admiráveis filósofos e teólogos de todos os tempos. O Bispo Agostinho deixou um patrimônio teológico na Igreja de valor incalculável, o equivalente a 400 Sermões, 220 Cartas e 232 livros. Simplesmente um dos maiores gênios que a humanidade já conheceu. Tudo porque um dia deixou que a Palavra de Deus transformasse sua vida, refizesse suas deformidades. Amigo, Santo Agostinho, interceda por nós! Que Jesus Cristo seja para nós a eterna beleza antiga e sempre nova. Eis o segredo de tua vida!

Antonio Marcos

Santa Mônica: suas virtudes falavam de Deus


“Deu-me a vida temporal segundo a carne e, pelo coração, fez-me nascer para a vida eterna” (Confissões, L.IX,8,17). Estas palavras de Agostinho à sua querida mãe, Mônica, constituem uma belíssima confissão. A Igreja celebra neste dia, 27 de agosto, a feliz memória desta grande mulher de fé que teve fundamental importância no processo de conversão do filho. O que se veio a conhecer sobre ela foi o próprio Agostinho quem registrou nas suas Confissões, por sua vez, um testemunho de vida cristã que ajudou a Igreja a constatar que, de fato, Mônica fora uma mulher de Deus, uma filha da Igreja, uma esposa e mãe de virtudes admiráveis. Virtudes essas que cresceram num contexto de dolorosas contrariedades e sofrimentos, mas que não sucumbiram e se tornaram o meio pelo qual Mônica falava de Deus, vindo a ter o respeito, o amor e a admiração do esposo, não obstante ter ele um temperamento agressivo (cf. L.IX,9,19).
Saber lhe dar com o esposo e se dedicar na educação dos filhos, principalmente quando os via tomando caminhos obscuros, longe de Deus, era uma missão para a qual Mônica não media esforços. O filho Agostinho, homem de impressionante habilidade intelectual, foi aquele que mais lhe trouxe sofrimento. Suas irrequietas procuras por um sentido de vida, que também satisfizesse sua razão, eram ainda mais conflitantes por causa do desregramento das virtudes e das paixões que o arrastavam pelo mundo. Mônica se via impotente nas forças humanas, mas acreditava que a oração de intercessão era a sua força. A amizade com Jesus Cristo era visível em sua vida como batizada e católica. Suas lágrimas nasceram da luta interior de uma mãe que sabe que um filho nas trevas do pecado é a sua maior dor. Mulher de personalidade como esposa e como mãe, compreendia que exercia um papel indispensável na família. Não ficou pelos cantos da parede reclamando de Deus uma família perfeita, um marido exemplar, um filho santo, mas se pôs a caminho porque a fé não lhe era amuleto. A coragem de dialogar e corrigir o esposo na caridade, a incansável luta para que o filho encontrasse a verdadeira luz, sem temer ou ter vergonha das lágrimas, tudo isso veio da oração. Quando procurou em lágrimas o bispo Ambrósio para ser orientada, ouviu dele a seguinte afirmação: “Vá e viva em paz, pois é impossível que se possa perder um filho de tantas lágrimas!” (Confissões, L. III, 12,21).
Teve ainda a graça de, nos últimos anos de vida do marido, conquistá-lo para Deus. Depois que se convertera nunca ouviu uma só palavra de Mônica acerca do seu passado. Deus foi além, ouvindo suas orações e lágrimas e atraiu o coração de Agostinho. Depois de mais de 20 anos de intercessão, Mônica teve a indescritível felicidade de ver a conversão do filho. Depois deste acontecimento Mônica chegou um dia a dizer a Agostinho: “Meu filho, nada mais me atrai nesta vida (...). Por um só motivo eu desejava prolongar a vida nesta terra: ver-te católico antes de morrer. Deus me satisfez amplamente, porque te vejo desprezar a felicidade terrena para servi-lo” (L. IX, 10,25).
Mônica entrou na história como a esposa e mãe cristã de fé exemplar, um modelo que deve ser seguido, sobretudo em nossos dias. Não buscava reconhecimentos, mas a felicidade, a salvação da família. Assim fez um único pedido ao filho depois de sua conversão: “Lembre-se de mim no altar”. Já Agostinho carregou consigo a eterna gratidão a Deus por sua mãe. Deixou-nos registrado esta oração por ela: “Senhor, minha mãe viveu a misericórdia, por isso, perdoa-lhe também as suas faltas, eu Te suplico” (L.IX, 13,35). Mulher que não parou nas suas fraquezas, mas foi além pela fé e pela oração. Santa Mônica, rogai por nós!
Antonio Marcos

2011-08-25

Sob o signo do grão de mostarda


No ano de 1997, em entrevista ao jornalista alemão, Peter Seewald, o Cardeal Raztinger (que veio a se tornar Bento XVI em 2005), afirmou o seguinte: “Talvez tenhamos de nos despedir das ideias existentes de uma Igreja de massas. Estamos possivelmente perante uma época diferente e nova da história da Igreja. Nela, o cristianismo voltará a estar sob o signo do grão de mostarda, em pequenos grupos, aparentemente sem importância, mas que vivem intensamente contra o Mal e trazem o Bem para o mundo; que deixam Deus entrar” (O Sal da Terra). Pois bem, eis uma afirmação corajosa e profética. O desenrolar dos anos vai mostrando - especialmente na Europa, mas também no Brasil - que, de fato, caminhamos para isto: a fé vivida em pequenos grupos. Os órgãos de pesquisa e a imprensa se certificam oficialmente do diagnóstico já conhecido no interior da Igreja, na cotidianidade de sua vida e ações, ou seja, que a “Igreja de massas”, da quantidade, da maioria católica não quer dizer que tenha essa maioria uma qualidade de vida cristã, de seguimento a Jesus Cristo e engajamento na comunidade de fé. Sim, a Igreja reconhece que vale mais a qualidade do que a quantidade. Bento XVI tem dito nos dias de hoje que “a Igreja está viva e é sempre jovem”, porque Jesus Cristo está vivo e é sempre jovem, seu amor se renova cada dia. O “terremoto cristão” do qual falou o papa se referindo aos jovens na JMJ, em Madri 2011, não esconde o quadro da indiferença de Deus ou numa vivência de fé individualista na pós-modernidade, mas, certamente, nos faz compreender que Deus conduz a história, o mundo e a Igreja. Se Ele deseja que tudo volte a ser “grão de mostarda”, é porque prepara um novo tempo, tempo de homens e mulheres que renascem e fecundam a humanidade porque se ofertam, porque deixaram Deus entrar.
Antonio Marcos

Deus sempre vai além da nossa indiferença

O cardápio moderno da crise moral e ética, da repulsa a tudo o que causa desconforto por exigir o mínimo de sacrifício e renúncia, atinge de cheio também o aspecto religioso. A “sociedade líquida” tenta fazer dos valores cristãos um objeto estranho, algo que também se dilua cada vez mais do coração. Quando o coração se vê assim ferido naquilo que lhe é mais precioso, a sua fé e relação com o Deus vivo, certamente sente o peso da solidão e do caminhar às apalpadelas, sem um norte seguro. Daí que nós, os cristãos, perguntamo-nos: como encarar as adversidades da vida e as próprias limitações, fracassos e perdas se não temos mais a direção, a confiança e a certeza de que Deus não é uma ilusão, mas uma realidade tão concreta como o nosso existir, que se relaciona conosco e participa de nossas dores e alegrias? Porém, Deus é Deus. Ele ultrapassa nossas especulações mentais e vai além do nosso pessimismo e indiferença ao Seu amor. Deus continua nos conquistando porque deseja a obra de suas mãos, dela nunca se afasta. Ele não abandona o fruto de suas entranhas. Como é maravilhoso caminhar nesta fé jamais ilusória, jamais amuleto. Aquilo que se dilui do coração certamente esteja destituído de uma base sólida. Ou esta não esteja sendo devidamente protegida. É bem verdade que os tempos atuais não carecem de religiosidade, mas de mística, de intimidade, de amizade, o que é traduzido pela Igreja como seguimento a Jesus Cristo. Mas Cristo venceu a morte e a Sua salvação continua a operar. Nós, os que dizemos ser “seguidores de Jesus” devemos, pelo testemunho e pela palavra, quebrar a barreira da indiferença e do medo mostrando exatamente que Deus sempre vai além, não para provar que existe, mas que nos ama.
Antonio Marcos

Uma razão ética como oxigênio


As recentes revoltas da juventude nos países árabes (exemplo claro o que acontece na Líbia), no Oriente Médio, mas também na Europa (o que se presenciou na Inglaterra), têm sido uma demonstração de que não só os regimes de governo incompatíveis com os valores que a humanidade conquistou na modernidade, mas também esta política econômica capitalista que insiste em encurralar os menos favorecidos e privilegiar uma pequena parcela, precisam de mudanças e em curto prazo. Na verdade, elas já se fazem presentes porque as massas, sobretudo juvenis, reagem com intolerância diante das consequências negativas deste tipo de opressão. É o que a Igreja, através da sua Doutrina Social, chama de Pecado Estrutural. O Brasil - país ainda de maioria católica e de uma significativa parcela de evangélicos, como também de outros que não se consideram ligados à religião e à Igreja, mas se dizem cristãos - se vê no lamaçal da corrupção. E parece que esta epidemia, esta loucura pelo ter e pelo poder, custe o que custar, apenas se alastra, constatações que nos entristecem. A corrupção no Brasil tem hoje uma proporção assustadora em todos os âmbitos da sociedade e não só nos maus políticos. Bem falou o papa Bento XVI: “A dimensão ética não é algo alheio aos problemas econômicos, mas uma dimensão interior e fundamental. A economia não funciona somente como uma autorregulamentação mercantil, mas tem necessidade de uma razão ética para funcionar para o homem” (Resposta aos jornalistas no voo à Madri, agosto de 2011). Esta “razão ética”, que não sufoca os valores da fé cristã, mas passa a desejá-los, é mesmo o oxigênio que falta nesses pulmões que se asfixiam pela ganância, pela indiferença ao valor da pessoa e seus direitos fundamentais.
Antonio Marcos

2011-08-20

Maria assunta ao céu: garantia de que o homem todo se salva

Maria, glorificada na Assunção, é a criatura que atingiu a plenitude da salvação, até a transfiguração do corpo. É a mulher vestida de sol e coroada de doze estrelas. É a mãe que nos espera e convida a caminhar para o reino de Deus. A Mãe do Senhor é a imagem da Igreja: luminosa garantia de seu destino de salvação, porque o Espírito do Ressuscitado cumprirá plenamente sua missão em todos nós, como o fez nela, que já é aquilo que nós seremos.

Muitos não gostam de ouvir falar em “salvação das almas”. Expressando-se assim, parece-lhes que a vida, com suas cores, sabores e complementos que a tornam agradável, vá desaparecer; parece-lhes que o corpo não serve para nada. Têm razão, porque não será assim. Maria, assunta ao céu, é garantia de que o homem todo se salva, de que os corpos ressurgirão. (...) Na eucaristia, pão da imortalidade, se encontram os alimentos-base do homem, frutos da terra, da videira e do trabalho do homem; é precisamente a eucaristia a garantia cotidiana de que a salvação atinge o homem todo na sua situação concreta (...).

Fonte: Missal dominical, Comentários introdutórios à Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.

2011-08-16

Além do véu

As bonitas e ungidas canções sacras, cristãs, evangélicas ou, melhor ainda católicas, são instrumentos pelos quais Deus opera a graça em nós pessoalmente e comunitariamente. As boas canções que conjugam em harmonia letra e melodia são mesmo fruto de um coração que coloca à disposição do Espírito Santo os dons e os talentos, não visando o palco, o sucesso, mas o impacto da graça na vida das pessoas. O resultado é exatamente aquilo que pretende Jesus mediante a Igreja: evangelizar, proporcionar na vida das pessoas, especialmente as que ainda não se reconhecem amadas por Deus e vocacionadas a conhecê-Lo e amá-Lo, uma oportunidade de encurtar a distância e envolvê-la na salvação, na descoberta da felicidade, que é Jesus. As músicas ungidas, revestidas da força querigmática da Palavra de Deus provocam no coração e em todo ser a reflexão, a meditação, o desejo de rezar, de mudar de vida, de dar a Deus louvores, de agradecê-Lo e adorá-Lo. Quem de nós nunca passou horas ouvindo um Cd, muitas vezes uma única música, deixando assim o coração cantar, ouvir de Deus ou dizer a Ele o que realmente gostaria? Quantas vezes uma música ungida faz a gente pensar na vida, nas ações, nas escolhas, nos erros, sobretudo, nas possibilidades de um recomeço. Canções que traduzem o momento no qual nos encontramos. Canções que fazem a gente chorar sozinho no silêncio, porque sentimos o amor de Deus nos abraçar, abraçar nossa alma e ir além do véu, dos nossos escombros, daquilo que em nós impede de ver a Deus e sua providência. Canções que literalmente nos ajudam a ir além do véu, do que os outros pensam e dizem de nós... Canções que fazem voltar em nós um desejo tão verdadeiro de ser santo. É verdade, a música cessa, passa, até se torna não mais escutada um dia, mas o que ela operou em nós permanece para sempre. Bendito seja Deus pelo dom da música, pelos que escutam os movimentos do Espírito Santo e compõem a letra, pelos que colocam as notas e pelos que cantam, sendo assim pontes entre o amor de Deus e o coração do homem, indo além do véu! Senhor, vos pedimos, abençoe nossos músicos e não permitais que façam deste meio tão privilegiado de alcançar os corações em nome do Evangelho cantado, um meio de promoção pessoal, de busca de reconhecimento e fama. Sejam eles mais que artistas, mas amigos Teus. E nós, rezemos pelos que evangelizam através da música! Nossa Senhora os guarde.

Antonio Marcos

Quanto mais amamos, mais somos exigidos

Essas linhas nasceram no último domingo, 14 de agosto, após ouvir a homilia na Santa Missa e chegar à minha casa pensando, o que me fez rezar um pouco e depois escrevê-las.

O evangelista Mateus (15, 21-28) narrava o episódio do encontro da mulher Cananéia com Jesus. Diz o texto que estando Jesus nas regiões de Tiro e Sidônia, uma mulher daquela região se põe a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio”. Os discípulos, incomodados, mandam que ela se cale. Jesus responde que veio somente para as ovelhas da casa de Israel. Esta primeira resposta seria o suficiente para se conformar pelo fato de ser ela pagã, não judia, não Israelita, mas começa a ir além na sua determinação e fé: aproxima-se e se prostra diante de Jesus. Talvez tenha pensado: “Digam o que disserem, eu o reconheço como Senhor!” 

A mulher suplica para que Jesus a socorra em sua necessidade. Ela é mãe e sabe o que é uma filha doente. Jesus lhe dá a segunda resposta: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. Se tivesse aquela mulher uma alma pequena e uma fé pobre teria sido outra decepção com esta resposta de Jesus. Além disso, imaginemos a sua auto-estima ferida em ser, aparentemente, ignorada por Jesus diante de todos e ser até mesmo igualada aos “cachorrinhos”, por ser ela do povo pagão.  Estar ali naquelas condições era mesmo humilhante. Ora, pensemos bem, o que acontece conosco quando alguém nos trata mal, quando nos ignora pessoalmente ou publicamente? Quantos perdem o sossego da alma e se enchem de orgulho, raiva e vingança quando escutam uma ofensa, quando são vítimas da indiferença dos outros ou são alvos de calúnias... Quantos abandonam o grupo, a pastoral, a comunidade, a Igreja porque alguém o tratou com indiferença! É verdade, somos assim tantas vezes! Mas, que contradição! Jesus não é a suprema Bondade e Misericórdia? Não ama Ele as mulheres e os pecadores? Teria Ele faltado com a caridade, humilhando ainda mais aquela pobre mulher? O que você acha?

Mesmo diante do rechaço a mulher insiste, confia, acredita em Jesus. Vejamos a resposta que surpreendeu pela humildade e fé da mulher Cananéia: “É verdade, Senhor, mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” Em outras palavras, quis dizer: “É verdade, Senhor, eu sou pecadora! Sou tudo isso e não mereço nada, por isso estou aqui nessas condições pedindo e suplicando. Tu és Senhor, aquele que tem o poder de ir além do que é impossível e inconcebível à fria maneira dos homens julgarem os fatos e as pessoas”. E ela escuta de Jesus: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde esse momento sua filha ficou curada, diz São Mateus no capítulo 15, 25-28.

Jesus não menosprezou, não humilhou aquela mulher. Talvez tenha ido lá pensando somente naquele encontro, porque chocaria até mesmo os que o seguiam de perto. Jesus, na verdade, usou uma pedagogia no modo de falar e de agir para ver até onde iria a fé daquela mulher. Os fracos desistem logo, se fecham em suas revoltas e decepções e permanecem infelizes, não avançam no amor, não recomeçam, não experimentam a força da misericórdia de Deus. Jesus sabe que quanto mais amamos, mais somos exigidos. O amor não pode ficar estático, mas se renova e se recria cada dia. Os que se amam, os irmãos, os cônjuges, os namorados, os amigos sabem que quando um ama o outro se pode pedir mais, ajudar o outro ir além. É a sadia e equilibrada exigência do amor que não humilha, mas nos faz crescer, amadurecer e dar um salto na confiança. Se não há fé e amor, como Deus pode exigir de nós? Consequentemente, como sair do que nos parece sem jeito? A Cananéia foi além na exigência do amor e na fé. Ela adentrou o mistério, conheceu o segredo do Coração de Jesus por dentro.  

Jesus mostrava assim que a salvação não era patrimônio de Israel, mas de todos. A salvação é dom para todos aqueles que creem. Ninguém está dispensando do chamado à santidade. O amor de Deus não tem fronteira de cor, língua e povo. Porém, aproximar-se deste mistério requer fé e humildade como fez a Cananéia: “Eu sei, Senhor, sou isto..., por isso preciso de Tua salvação”. A oração tem que ser insistente, confiante, sobretudo humilde e cheia de amor e fé. Dê-nos, Pai, este dom, esta graça.

Bendita homilia que provocou uma revolução dentro de mim! Obrigado, Senhor!
Antonio Marcos       

2011-08-14

Ele viu além e acreditou

Aqueles que vivem o mistério do chamado a uma vocação pessoal ou de um carisma na vida da Igreja, sabem o quanto significa o acompanhamento de um sacerdote, alguém que escute, acompanhe, oriente e, sobretudo, escute em oração os propósitos de Deus, a autenticidade daquela inspiração. A própria Igreja, em sua tradição, sendo ela mãe e mestra, confia aos Bispos (que também delega aos seus colaboradores, os Sacerdotes) a responsabilidade de discernir os chamados e Carismas na vida da Igreja. Ninguém pode caminhar sozinho nem no início, nem no meio, nem no fim quando se trata de vida cristã e vocacional. Assim fizeram os santos, que o digam Santa Teresa de Ávila e Madre Teresa de Calcutá. Pois bem, na vida da Comunidade Católica Shalom, quando ainda a pequena semente formada pelos jovens universitários (anos 80), desejosos de viverem o apelo de Deus para um seguimento radical do Evangelho e em vida comunitária, necessitavam então da orientação do pastor, Dom Aloísio Lorscheider, o mesmo confiou aquela “semente do dom shalom” aos cuidados do Pe. Zezinho Ialea (Membro do Instituto: Os Missionários do Sagrado Coração). O mesmo estava no Brasil há mais de 60 anos, tendo passado apenas alguns deles no Maranhão. Pe. Zezinho não apenas prestou um serviço, mas se tornou amigo, verdadeiro pai e irmão daqueles jovens cheios de desejo de tudo darem a Jesus. Ele permaneceu do lado, sinalizando quando avançar, corrigindo e incentivando, pois, quando todos desacreditavam e suspeitavam até, Pe. Zezinho, homem de Deus, sacerdote zeloso e apaixonado por Jesus e pelos pobres, homem de oração, conseguiu muito cedo perceber que aquele projeto se tratava de uma Obra de Deus, uma Obra Nova. Disto ele nunca duvidou. Bendito seja Deus pela imensa providência do Seu amor em colocar este sacerdote na vida do Moysés, daqueles jovens, da Comunidade Católica Shalom por todos esses anos. Seu nome é citado inevitavelmente e com amor filial nos Escritos da Fundação do Carisma Shalom. Eis um sinal de paternidade espiritual! Ele fez o que Deus faz por nós, principalmente quando todos nos desacreditam: viu além e acreditou! Que o Deus de toda providência e bondade o tenha recebido em Sua glória e seja agora um intercessor. 

Antonio Marcos    

Papai, quebrei o jarro!

Dentro da universalidade da fé cristã está uma das mais fascinantes revelações feita por Jesus: Deus é Pai, a quem chamou de Abba! Paizinho! (cf. Mc 14,36). Ele é Pai de Jesus – que também é da mesma substância, é Deus -, o Verbo que se encarnou no seio da Virgem Maria, é também nosso Pai. A doutrina católica no seu credo confessa a fé no “Deus Uno e Trino”, ou seja, um só Deus que se dá a conhecer em Três Pessoas distintas nas relações, mas reais, que possuem uma mesma essência e natureza, a mesma divindade, a Santíssima Trindade, o mistério central da fé cristã, um dos mais sublimes de nossa fé (cf. Catecismo 232-256). Somente um dia, quando não mais precisarmos de mediações, poderemos contemplar face a face este Mistério de Amor.

A paternidade de Deus é amor que cuida e corrige, é amizade, é presença, é vocação à eternidade. A paternidade divina é a fonte da paternidade humana, nela deve ser refletida, como diz a Igreja: “Os pais foram revestidos da autoridade divina diante dos filhos” (CIC, 2197), sabendo que não podem desonrar os filhos, mas amá-los e assisti-los em suas necessidades por ocasião do tempo da dependência familiar. Por isso a paternidade humana é um grande sinal da misericórdia e consolo da paternidade de Deus. Recordamos o que a própria Teresinha de Jesus relata em seus escritos: ao quebrar o jarro e não mais querendo se esconder por medo das reações de seu pai, simplesmente o espera chegar e quando adentra pela porta, Teresinha corre em sua direção, pula em seus braços e lhe diz com um beijo: “Papai, quebrei o jarro!” Com este gesto já se vê conquistado pela filha que assim a beija e diz: “Tudo bem, filhinha, papai a perdoa!”. De certa forma, foi isto que aconteceu conosco em Jesus. O vaso que se quebrou foi Ele mesmo, o próprio Jesus quando fora pregado na cruz e morto, mas quem o quebrou foram os nossos pecados. Mas fomos alcançados pela misericórdia de Deus através dos méritos do Seu Filho. Deus é Pai! Sua essência é o Amor (I Jo 4,8). O céu que “comprou” para nós custou o preço do sangue do Cordeiro, Seu Filho Amado (cf. I Pe 1,18-19). Mas foi isto que nos levou de volta para os braços do Pai.

São muitos os filhos que desfrutam dos braços do seu pai, ainda que já velho ou mesmo falecido. Já outros nunca os tiveram! Como muitos são os pais que mesmo diante do gesto do filho, não o sabem perdoar, e não cabe aqui um julgamento. Cada vida tem uma história com suas alegrias a lágrimas, presenças e ausências, encontros e perdas. O fato maravilhoso é que muitos filhos vão além de suas feridas em relação à paternidade humana e dão testemunho de perdão e oração. Plantam amor e cuidado porque Deus faz novas todas as coisas. Agradeçamos a Deus por nosso pai, ainda que tão fraco, tão pecador, tão limitado... Ele está dentro do desígnio de Deus para a nossa existência e não há acidente nos planos de Deus. Hoje podemos ser sinal de amor, gratidão e intercessão pela conversão e salvação de nosso pai. Sim, “papai nos perdoou”, nós também agora podemos fazer o mesmo quando ele se mostra “muito mais um jarro frágil do que um herói”. Feliz Dia dos Pais!

Antonio Marcos

2011-08-12

A conhecida contradição vivencial da fé


“As pessoas continuam indo à igreja, mas a Igreja continua perdendo seu espaço na sociedade pós-moderna”, dizem alguns críticos. É tão complexa e estranha esta análise de que a Igreja “perde espaço” na sociedade. Primeiro: o conceito de espaço na vivência da fé é redefinido quando o assunto é o anúncio do Evangelho ao Homem de hoje. Talvez o fato dos contínuos choques entre o Estado e a Igreja terem ficado outra vez evidentes, aparentando “Este ser mais forte do que Esta”, então se deduz que a Igreja está sendo banida da vida das pessoas. Isto é um grande equívoco! Desde os escritos de Leão XIII até o Concílio Vaticano II com suas positivas consequências até os dias de hoje, a Igreja compreende que o seu espaço é, mais do que nunca, o espaço do Homem onde quer que ele esteja ou faça. Por isso a Igreja não pode esperá-lo como tantas vezes tem sido esta a tentação em nossos ambientes eclesiásticos, em nossas pastorais e ações evangelizadoras, até mesmo nas celebrações litúrgicas e muito pior na nossa maneira de pensar e agir pessoal. A Igreja não pode dar ao Homem “água com açúcar”, ou seja, “migalhas do Evangelho” apenas para mantê-lo como número a mais no rebanho. A Igreja tem como missão ligar o Homem a Deus pelo seguimento a Jesus Cristo, e isto é processo de conversão, não mágica. E que bom, a Igreja é Mãe e Mestra. Segundo: Dizer que a Igreja perde espaço na “sociedade secular” é um paradoxo. Ela nunca esteve tão presente! Agora, a questão é o que faz e como faz para conquistar o Homem de hoje tão disperso, tão atraído pelos prazeres momentâneos, mas também tão sedento de Deus, de sentido de vida e de valores perenes? Por sua vez, “este Homem – como diria o beato João Paulo II - é o caminho da Igreja” (Redemptor Hominis, 14). Bem sabemos que, de fato, o Homem vive uma distância visível e crescente das realidades religiosas. Porém, não podemos julgar que sua irreligiosidade seja sinônima de ateísmo ou pessoa não cristã, ou ainda menos cristã. Nem sempre! A conhecida contradição vivencial da fé está sempre em pauta: muitos dos que vivem cotidianamente a sua religiosidade, não vivem a interioridade. Esta, só a graça da conversão pode operar e o seu transbordamento se dá através da prática da caridade! Devo continuar indo à igreja, se possível todos dos dias para viver o Mistério Eucarístico, pois isto é também um pedido da Igreja, mas Eu devo ser Igreja lá onde habito, onde trabalho, onde estudo e convivo. Quando isto não acontece, aí sim, a Igreja perde espaço, perde a oportunidade de atrair, conquistar, consolar e salvar o Homem.

Antonio Marcos     

2011-08-06

Ver a Deus além dos acontecimentos...

Não sei se você já viveu a experiência de ser perseguido e ameaçado, ou ainda se viveu uma grande decepção, uma frustração que tenha abalado suas estruturas interiores, e viu-se com tudo isso dentro de uma grande desolação humana e espiritual. As perguntas nessas horas são as inevitáveis, mas é o único consolo: “Senhor, onde estás? Por que tudo isso me acontece?” Por que permites que tamanha dor e sofrimento passe teu filho? Se você viveu isto, então compreenderá perfeitamente a angústia do profeta Elias, apresentada na primeira leitura deste 19º Domingo do Tempo Comum (cf. Rs 19,9a. 11-13a). Um domingo no qual a Liturgia da Palavra mostra que “Deus está perto do homem com o seu amor e socorro” – que diga o corajoso e temeroso apóstolo Pedro (cf. Mt 14, 22-33).

Recordemos que o profeta Elias havia passado ao fio da espada todos os profetas de Baal (deus pagão), após ter vencido o desafio de mostrar qual a divindade mandaria fogo à lenha posta sobre os dois novilhos: o de Baal e o do Deus de Israel (cf. Rs 18, 20-40). Pois bem, este feito despertou a ira do estrangeiro Jezabel que mandou dizer a Elias que ele morreria da mesma forma. O profeta decide proteger sua vida e foge. Há pouco Deus fez através dele maravilhas e agora Deus parece permitir a contradição. O homem de Deus entra na sua noite escura e se vai desolado procurando resposta. Seu coração sofre, suas emoções caem no barulho da perturbação, sua fé é provada, experiência dolorosa que só sabe quem já passou.

Já a caminho do deserto Elias manifesta a Deus sua desolação e pede a morte. Preferiria morrer nas mãos de Deus a dos ímpios, portanto, não se tratava de covardia, mas era o peso da purificação. Depois de acordá-lo de um profundo sono o Anjo de Deus o alimenta e lhe pede para subir o monte Horeb, o mesmo lugar da visão de Deus a Moisés, e entrar na gruta porque o Senhor vai passar. É esta a experiência que necessitava viver o profeta Elias, experiência de ver a presença fiel de Deus não só nos “grandes feitos”, mas, sobretudo, ver Deus presente e a passar no silêncio do seu coração, da sua alma. Só este encontro interior é capaz de sustentar o homem de Deus, a mulher de Deus, especialmente na hora da prova e do sofrimento, da perseguição e dos medos existenciais.

É na calmaria, na intimidade, na amizade que acontece a grande transformação em nossas vidas. É assim, quando tudo cala, Deus fala. Quando percebemos que não temos todas as respostas para a aridez da alma e o sofrimento, como ainda para as contradições que a própria fé nos impõe, então, não esqueçamos: o barulho comunga com o desespero, mas a fé rezada no silêncio e maturada na intimidade faz abrir os nossos olhos para vermos a Deus além dos fatos, e sim, dentro de nós. Esta é a marca dos amigos de Deus! Esta é a garantia de que Deus não nos abandona, absolutamente nunca!

Antonio Marcos   

2011-08-04

Por que não deixei o sacerdócio

Forte e belo testemunho sacerdotal descrito por Frei Patrício Sciadini – Leia-o e reze pelos padres, faça chegar este texto a todos os sacerdotes que você conhece.

Fiquei muito comovido, pregando retiro dos padres de uma diocese. No encerramento, na celebração eucarística, dei a palavra ao sacerdote mais idoso, 83 anos, um holandês alto, quase dois metros, 53 anos de sacerdócio, trabalhando em vários lugares do Brasil há muitos anos. Depois dei a palavra ao sacerdote mais novo, que tinha somente nove meses de sacerdócio, para que pudessem dizer uma palavra de incentivo a todos os irmãos no sacerdócio. O retiro é sempre um momento muito importante para entrar dentro de nós mesmos e nos olhar, ver o que nós somos, contemplar, com muita saudade, o que deveríamos ser e sonhar com o que gostaríamos ainda de ser.

Ser sacerdote num mundo globalizado, cheio de imprevistos, de incertezas e inseguranças, numa identidade sacerdotal nem sempre clara e numa missão conflitiva e exigente, pode colocar medo em muita gente. Aos mais corajosos, as dificuldades desafiam e convidam a tomar cada vez mais consciência do valor do sacerdócio que, como tesouro, carregamos num vaso de argila, e todo cuidado é pouco para que o vaso não se quebre. Ser sacerdote sempre será uma aventura de fé, de amor e esperança. É Jesus Cristo, que tendo entrado na vida não pode mais sair, que nos impulsiona a sermos profetas, missionários, anunciadores dos valores do Reino que somente será capaz de criar uma sociedade nova e um mundo que o ódio, a ganância e o egoísmo não poderão ter direito de existir.

Ser sacerdote de qualquer “jeito” sempre foi fácil; afinal, é uma vida confortável e cômoda, mas ser sacerdote segundo o coração de Cristo, ser bom pastor, como os profetas sonham e o Cristo realiza plenamente, é sempre exigente e obriga a sair de si mesmo para tomar a cruz do Senhor Jesus e caminhar de cabeça erguida. O sacerdote deve ter a certeza que é um “cordeiro” enviado no meio de lobos e não pode dar tréguas aos lobos que tentam arrebatar, estraçalhar, ferir e destruir o rebanho. Ele sabe que a sorte do rebanho será também a sua, que a morte de Cristo, bom pastor, na cruz será também a sua.

O jovem sacerdote, com apenas nove meses de sacerdócio, estava espalhando ao seu redor o perfume do crisma com que o bispo havia ungido há pouco as suas mãos, trazia o forte entusiasmo da utopia de modificar o mundo, e percebia o desejo – que o deixava inquieto – de como se sacerdote no mundo globalizado. Estava chegando do encontro dos presbíteros, cujo tema era próprio: “O sacerdote na globalização”. Pedia aos co-irmãos de sacerdócio que o ajudassem a viver o seu sacerdócio, pois tinha muita vontade de realizar grandes coisas e ser uma pessoa capaz de evangelizar o mundo, ser profeta missionário. Um testemunho bonito, capaz de reanimar qualquer sacerdote em crise ou com muitas cinzas depositadas sobre o seu sacerdócio pelas desilusões da vida. Ele, padre Renato, jovem sacerdote, conseguiu passar a mensagem do entusiasmo sacerdotal.

Depois dele, o padre André, o mais velho do presbitério, com a simplicidade e a ousadia de Agostinho nas suas “Confissões”, ou de Paulo que reconhece ter sido perseguidor de Jesus Cristo, disse que, aos 83 anos de vida e 53 de sacerdócio, se sentia muito feliz, mas que já havia pensado em deixar o sacerdócio nos anos depois do Concílio Vaticano segundo, quando se sentiu decepcionado com tudo e com todos e não viu mais sentido na sua vida. Havia vivido uma grande crise, mas conseguiu superá-la graças a quatro coisas que sempre o acompanharam na sua vida e lhe deram força e coragem em todos os momentos difíceis de sua caminhada. Falava com uma voz serena, tranqüila, como de alguém que já olhava o passado com uma paz interior muito grande.

1 – Um amor muito grande a Jesus Cristo crucificado. Tantas vezes nos momentos difíceis pegava nas suas missas o crucifixo e contemplava a Jesus crucificado por amor, que, pela paixão e morte, chegou à ressurreição. Não poderia existir a alegria da Páscoa, a felicidade da vida sem ser crucificado. E nesse pensamento de comunhão com o Cristo crucificado, encontrou força para não deixar o sacerdócio. Assumindo-o com a crucifixão com Cristo em todos os momentos da vida.

2 – O amor a Nossa Senhora. Seja lá qual fosse a crise que estivesse passando, nunca deixou de rezar o terço que aprendeu com sua mãe lá na Holanda. E percebeu que esta oração lhe comunicava força e coragem nos momentos difíceis e que, em Maria sempre encontrou uma presença materna. Dizendo isso, ele mostrava, com orgulho e amor, o seu terço para todos os sacerdotes presentes e convidava a todos a rezarem-nos todos os dias.

3 – O que me fez desistir de abandonar o sacerdócio foi pensar em tantas pessoas que, durante esse tempo eu ajudei a recuperar o sentido da vida e evitando que várias se suicidassem - e que matassem outras -, o amor à família, quando ajudei a evitar separações através, principalmente, da participação nos muitos Cursilhos... Pensar que havia ajudado a muitos a recuperar a dignidade humana foi, para mim, uma força muito grande para continuar firme ao meu sacerdócio.

4 – O pensamento de minha mãe de quando entrei no seminário na Holanda, e nós éramos uma família pobre, que para custear os meus estudos e seminário, aprendeu a trabalhar e se tornou parteira, que no norte do país, dizia ela, se chama “curiosa”, e com o pouco dinheiro que ganhava, indo à noite lá quando os médicos não iam, ela manteve meus estudos, e a maior felicidade dela foi me ver um dia sacerdote. Por todos esses motivos, dizia o padre André, com a voz um pouco frágil e comovida e os olhos embaçados com lágrimas, eu decidi não abandonar o sacerdócio, mas continuar fiel ao amor a Jesus crucificado, que eu escolhi conscientemente.

Esse testemunho do padre André foi muito mais retiro que as minhas palestras. Voltei para casa edificado, fortalecido e muito mais convencido de que, sem o amor a Jesus crucificado e o amor a Maria, a memória do bem feito aos outros através da nossa doação de vida se perderá e nunca poderemos ser fiéis ao nosso sacerdócio. Convencido ainda estou de que nós, os padres, precisamos muito de orações. O exemplo de padre André é um testemunho que não se pode perder e, por isso, quero me lembrar dele todas as vezes que pregar um retiro ao clero. Ou todas as vezes que Deus me colocar no caminho de um sacerdote desanimado. Sei que o desânimo pode um dia bater à porta do meu sacerdócio, mas no amor de Cristo crucificado e no amor de Maria posso me reerguer e continuar feliz. Obrigado, padre André!

Fonte: Publicado no Jornal de Opiniões – Ideias, edição de 19 a 25 de abril de 2004.