2011-07-04

Os nossos sonhos e a felicidade


Entre a cadeia de Perúsia e a noite de Espoleto nunca os sonhos de Francisco de Assis, a sede de glória, foram tão manifestos e ao mesmo tempo alvos do desmoronamento. A visita de Deus e o desejo do despojamento cravariam em seu coração uma marca indelével. No entanto, Deus sabe que preparar uma vida para o Seu seguimento é um processo que deve ser feito sem dramas, sem grandes alardes, mas na simplicidade e no silêncio, não estando isento também a dor. O Seu amor cuida de nossas necessidades, e a maior delas é mesmo ter a Deus como primazia.
Neste intervalo de tempo entre os dois fatos cruciais no processo de conversão na vida de Francisco, dizem seus biógrafos, está a luta interior entre o “velho e o novo homem”. A espiritualidade cristã no seu devido equilíbrio nos fala com clareza que ninguém se converte de uma vez e para sempre. Somos chamados a fazer novos progressos no caminho para a santidade. Eis a vocação essencial de cada batizado, porque esta é a vontade de Deus (cf. 1Ts 4,1-3). Por isso, “necessário nos é reconhecer o velho homem e, com o poder de Jesus, deixar o novo, a nossa verdadeira vocação florescer, crescer e vencer em nós!”, uma verdade fundamental nos ensinada pela Espiritualidade do Carisma Shalom.
Francisco de Assis, um jovem igual a mim e a ti, sentiu dentro de si o antagonismo entre o velho e o novo. A visita de Deus, quando autêntica, pede mudança de vida, seduz, conquista, chama, impulsiona ao novo e este novo começa com o despojamento daquilo que não condiz com nossas vidas. Tudo seria tranquilo se fosse tão fácil, tão simples. Porém, uma coisa é verdade, a santidade que consiste em vivermos cada dia mais como amigos de Deus, deixando Sua vontade nos conquistar e vencer em nós, é uma vocação possível, alcançável, palpável, porque esta é a felicidade verdadeira. Não há como driblar este percurso se realmente queremos ser felizes.
É óbvio que o pecado é sempre o primeiro e radical rompimento a ser feito. No entanto, o despojamento pode vir a assumir o preço de um “Isaac” na vida de cada um. Deus sabe o melhor para nós e o que mais nos custará no processo de desapego, mas não faz isto de forma arbitrária, mas, amorosamente a partir do nosso deixar-se formar e amar. Todos nós precisamos fazer o trajeto de Perúsia a Espoleto, ou seja, o processo de despojamento de certos sonhos a partir da visita e conquista do Amor, porque Deus não está preocupado somente com nossos sonhos, mas, sobretudo, com a nossa conversão, santificação, felicidade.
Antonio Marcos  

2 comentários:

  1. O velho e novo... sabe Antonio, incrivel como sempre tem um texto seu falando de acordo com alguns coisas que tenho pensado. rsrs Cada dia, tenho acreditado, não sei se coerentemente, que a parcela dos evangelizadores são minimas, pois o que vai mesmo mudar é a abartura com o qual cada um se propõe a ser novo. Pode-se falar durante anos e anos, mas se no coração não germina a semente, não crescerá... Essa parte ninguém pode fazer, a nã ser eu mesma.

    ResponderExcluir
  2. Verdade, Jeania, o coração precisa indispensavelmente deixar germinar a semente. Às vezes achamos que são poucos os evangelizadores, em certo sentido sim, mas também gosto de pensar a evangelização através das "páginas vivas do testemunho de algumas pessoas", suas atitudes, mesmo que "nada digam verbalmente". Claro, isso de forma alguma anula a responsabilidade da evangelização explícita, ou seja, o anúncio "corpo a corpo". Falta mais gente que crie a coragem, a partir do seu estado interior de reconciliação com Deus, para falar de Jesus com fascínio, com atração, não sobre um Jesus que só fale de condenação, mas, sobretudo, que fale do amor do Pai. "O velho e o novo" são parte de nossa odisseia, mas o novo precisa ir vencendo cada dia. A santidade é esse processo, uma caminhada de retorno para Deus cada dia. Obrigado Jeania por sua sempre presença e colaboração significativa nas minhas partilhas. Deus te conduza à santidade que é Ele mesmo vivo em tua vida. Abraços. Com minhas orações...

    ResponderExcluir