Os nossos sonhos e a felicidade

Escrito Por Antonio Marcos na segunda-feira, julho 04, 2011 2 comments

Entre a cadeia de Perúsia e a noite de Espoleto nunca os sonhos de Francisco de Assis, a sede de glória, foram tão manifestos e ao mesmo tempo alvos do desmoronamento. A visita de Deus e o desejo do despojamento cravariam em seu coração uma marca indelével. No entanto, Deus sabe que preparar uma vida para o Seu seguimento é um processo que deve ser feito sem dramas, sem grandes alardes, mas na simplicidade e no silêncio, não estando isento também a dor. O Seu amor cuida de nossas necessidades, e a maior delas é mesmo ter a Deus como primazia.
Neste intervalo de tempo entre os dois fatos cruciais no processo de conversão na vida de Francisco, dizem seus biógrafos, está a luta interior entre o “velho e o novo homem”. A espiritualidade cristã no seu devido equilíbrio nos fala com clareza que ninguém se converte de uma vez e para sempre. Somos chamados a fazer novos progressos no caminho para a santidade. Eis a vocação essencial de cada batizado, porque esta é a vontade de Deus (cf. 1Ts 4,1-3). Por isso, “necessário nos é reconhecer o velho homem e, com o poder de Jesus, deixar o novo, a nossa verdadeira vocação florescer, crescer e vencer em nós!”, uma verdade fundamental nos ensinada pela Espiritualidade do Carisma Shalom.
Francisco de Assis, um jovem igual a mim e a ti, sentiu dentro de si o antagonismo entre o velho e o novo. A visita de Deus, quando autêntica, pede mudança de vida, seduz, conquista, chama, impulsiona ao novo e este novo começa com o despojamento daquilo que não condiz com nossas vidas. Tudo seria tranquilo se fosse tão fácil, tão simples. Porém, uma coisa é verdade, a santidade que consiste em vivermos cada dia mais como amigos de Deus, deixando Sua vontade nos conquistar e vencer em nós, é uma vocação possível, alcançável, palpável, porque esta é a felicidade verdadeira. Não há como driblar este percurso se realmente queremos ser felizes.
É óbvio que o pecado é sempre o primeiro e radical rompimento a ser feito. No entanto, o despojamento pode vir a assumir o preço de um “Isaac” na vida de cada um. Deus sabe o melhor para nós e o que mais nos custará no processo de desapego, mas não faz isto de forma arbitrária, mas, amorosamente a partir do nosso deixar-se formar e amar. Todos nós precisamos fazer o trajeto de Perúsia a Espoleto, ou seja, o processo de despojamento de certos sonhos a partir da visita e conquista do Amor, porque Deus não está preocupado somente com nossos sonhos, mas, sobretudo, com a nossa conversão, santificação, felicidade.
Antonio Marcos