2011-06-21

Somos irmãos


O autor do livro do Gênesis – Leituras da Santa Missa desta XII Semana do Tempo Comum – nos apresenta a trajetória da vida do patriarca Abrão marcada pelo chamado divino, pelas renúncias, pela fé e pelos muitos desafios que vão tentando contrariar a retidão do seu coração e os propósitos de viver sempre na luz da verdade, temente a Deus e fiel à sua consciência de homem religioso, apesar de ser falho, limitado.
O sobrinho Ló também é detentor de muitos bens e tem ao seu serviço muitos pastores (cf. Gn 13,2.5-18). Acontece que os pastores de Abrão e de Ló estão se desentendendo por causa do número do rebanho e o pouco espaço. Provavelmente fosse decorrente da destruição de algumas pastagens por parte de um dos rebanhos. O fato é que o vínculo familiar, a fraternidade e amizade entre o tio e o sobrinho, respectivamente suas famílias, estavam sujeitas à discórdia e mesmo à violência. Para o homem de Deus que era Abrão tal situação era inadmissível, porém, não deixava de ser uma tentação. O ego sempre questiona: quem quer perder? Quem vai se humilhar? Quem vai dar vantagem ao outro? Quem está disposto a dizer: “a decisão é tua, escolhe a melhor parte”? Quando se trata de posses materiais até os homens de fé estão sujeitos à barbárie, vemos isso no mundo de hoje com forte ênfase. Famílias, parentes, irmãos, amigos tomam partes inimigas por causa de bens materiais. Nunca brigamos tanto pelo “ter”. “Se eu tenho, logo posso, logo sou!”, eis um dos mais cruéis “Cógitos modernos”.
Somente centenas de anos depois é que Jesus iria dizer: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele!” (Mt 7,13). Qual é, acima de tudo, essa porta estreita? Cremos ser a decisão pela caridade, pela consciência de que “preciso fazer aos outros tudo aquilo que desejo que façam comigo” (vers. 12), e aqui radicalmente e entranhadamente está a lei do amor, a lei da reta consciência, do desejo do bem ao próximo, “regra de ouro” para todos os homens, os que creem e os que não creem.  A esta consciência se somava fundamentalmente no coração de Abrão a fé no Deus de Israel. Assim diz ao sobrinho Ló: “Escolhe a terra onde queres habitar, pois não deve haver discórdia entre nós e entre nossos pastores, pois somos irmãos” (cf. Gn 13, 8-11).
Somos irmãos, não inimigos! Opressor e oprimido, amigo e inimigo, união e discórdia não é Deus que causa isto, mas as decisões egoístas dos homens, o nosso pecado, a nossa arrogância, “a nossa própria lei” que grita e nos escraviza a sempre querer ganhar. Muitos dizem: “Impossível viver isto! Esta filosofia bíblica é sem fundamento, porque na prática ninguém faz isso, ninguém quer perder, ninguém quer se passar por bobo, idiota, trapaceado! Todos nós queremos levar vantagem, rir por último!” E Abrão não queria? E Jesus não disse “afasta de mim este cálice”? Eles não pensavam egoisticamente, mas foram provados. Portanto, disse o patriarca: “somos irmãos! Dou-te a preferência!” E falou Jesus: “Ninguém me tira a vida, eu a dou livremente!” (Jo 10,18). O amor se antecipa e “choca” não por querer ganhar, mas, misteriosamente “por querer perder”. Ajuda-nos, Senhor, concedendo-nos a graça para vivermos a maior descoberta da fraternidade: Somos irmãos!
Antonio Marcos

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