Matemáticos e evangelizadores

Escrito Por Antonio Marcos na terça-feira, junho 14, 2011 Sem Comentários

Aprendi que a teologia, muito mais que a filosofia, faz a pergunta pelo homem, pelo sentido de sua existência, pela sua origem e seu destino, pela verdade sobre si mesmo e sobre o Seu Criador. Aprendi que na teologia a pergunta pelo homem não pode ser formulada autenticamente se não parte do princípio fundamental de que o homem foi querido por Deus, foi amado, por isso perdoado e salvo no mistério de Jesus Cristo. E quando nos perguntam “onde está a salvação?”, não podemos contabilizar a resposta, não temos como mostrar cálculos e somas. Isto nos parece limitação diante das interrogações do mundo, porém, felizmente, não o é. Aprendi na teologia que a resposta do homem em relação à salvação é a conversão, e o processo de conversão inclui também os erros, as negações e as quedas. Uma vida que se depara com a verdade de suas feridas e incoerências e se deixa nascer de novo a partir deste encontro - que não se faz sem dor e sofrimento -, é a resposta mais evidente e convincente de que a salvação de Jesus é uma realidade visível.

Acontece que quando um cristão entra no espaço de turbulência, numa noite escura como diria São João da Cruz, na noite de Pedro e de Judas como diria a teologia Patrística, ou ainda na “via purgativa” como diria a espiritualidade moderna, quase sempre a humilhação é mais dolorosa do que os esforços tamanhos que fazemos para manter a caricatura de convertidos. Não é fácil “retroceder”; não é fácil lhe dar com os olhares e julgamentos que não aceitam a própria condição de pecadores, muito menos a dos outros. E batem no peito: “Não sou como este publicano, Senhor!”. Sim, não é fácil quando encontramos alguns amigos e amigas que nos dizem com meias palavras que já não vão à Santa Missa, que estão distantes, frios, sozinhos, desiludidos, decepcionados, perdidos, ou talvez, encantados com outras realidades que lhes chegaram com mais força de sedução e com promessas de satisfação mais imediata. Alguns dizem que, apesar disso, estão felizes porque não perderam a Deus. Mas, e se O perderam como isto ressoa dentro de mim? Eis a questão. Primeiro porque é perigoso demais dizer que “uma pessoa perdeu a Deus”; segundo, porque geralmente somos “teólogos”, “sábios”, “inteligentes nas questões religiosas”, mas são poucos os que sabem lhe dar com as perdas e insatisfações dos outros, com suas revoltas e desânimos. É que somos mais matemáticos do que evangelizadores, infelizmente!

Concluímos assim voltando ao princípio fundamental de que o homem foi querido e amado por Deus, por isso salvo no mistério de Cristo. Acolher e amar são as indispensáveis condições se queremos ver a salvação nos outros, e em nós também! Acolher e amar nos arranca desta matemática irracional de nos julgarmos os “convertidos” e os outros “perdidos”. A verdade sobre o homem e sobre o seu Criador deve sim, ser dita, mas quando a acolhida e a caridade não precedem, acabamos nos tornando juízes das consciências de quem precisa não de condenação, mas de salvação. O pecador, ainda que ignore, tem necessidade de conversão, porém, muitas vezes a sua primeira necessidade é que lhe digam que suas feridas e quedas não são o fim necessariamente, mas podem misteriosamente favorecer o encontro com a Verdade, que é uma Pessoa, que tem um nome e um rosto, Jesus Cristo. Ele nos acolheu e nos amou até o extremo, não contabilizando o nosso passado, mas multiplicando as possibilidades de uma vida nova mediante a Sua misericórdia.

Antonio Marcos