A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2011-06-28

O Amor de Deus está conosco


 A narrativa do capítulo 19 de Gênesis (15-19), no tocante à fuga de Ló e sua família para não morrerem com a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra, apresenta-nos uma rica possibilidade hermenêutica, ou seja, de interpretação contextualizada, e não absurda. Nas entrelinhas está a fidelidade de Deus à sua promessa feita a Abraão, por isso salva seu sobrinho Ló, mesmo tendo ele também se tornado alvo do favor e da bondade de Deus. Vemos, sobretudo, o Amor divino perdurar além das infidelidades do amor humano. Vemos o Amor divino manifestar uma “memória” - também de amor -, por isso sempre atuante.
Os riscos do Amor nas Sagradas Escrituras estão registrados do começo ao fim. O Amor expressa o desejo de salvar a Ló e sua Família, mas respeita seus medos e acolhe seus pedidos. “Vai Ló, se a montanha é distante e estás com medo de não chegar a tempo, refugia-te nesta cidade para onde desejas ir e prometo que não a destruirei por causa de ti. Porém, peço-te uma única coisa: não olhes para trás”. Os místicos e a teologia figurativa dos Padres da Igreja veriam aqui o lado interior, a opção radical, a intimidade da amizade com Deus que não deve voltar ao “velho amor”, mas ir adiante, mesmo deixando para trás bens preciosos. “Ora, a mulher de Ló olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal” (ver. 26).
Não se nega o fato histórico de que a esposa de Ló tenha desobedecido à ordem do Amor de não olhar para trás, porém, esta esposa também – como nos permite pensar a teologia simbólica – seria este drama da intimidade quando se vê diante do risco, da decisão, do perigo e do medo pelo desconhecido. A desinstalação radical pede fé, como indispensável é a fé quando a vida se encontra no meio das agitações: “Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?” (cf. Mt 8, 26). Nós estamos sujeitos ao medo, o Amor bem sabe, porém, sem a fé ele certamente nos destruirá. Sem a fé no possível e no impossível que pode operar o Amor, podemos nos agarrar outra vez ao que fica para trás, ou não mais saber o que fazer, perdendo assim a “memória da salvação”. O Amor de Deus está conosco, mesmo quando pensamos que Ele dorme ou que nos propôs algo impossível.
Antonio Marcos

2011-06-27

As “sombrias cores” do Arco-íris


Quando vemos a “Parada do Orgulho GLBT”, São Paulo, usar as imagens dos santos católicos e nas suas performances deturpadas pelo sensualismo para a defesa do uso do preservativo, vemos sim, uma intolerância para com o respeito ao sentimento religioso dos fiéis católicos. Poderíamos imaginar o contrário: a banalização dos ícones e referenciais do GLBT por parte da Igreja – o que é inaceitável - e esperar a reação “planetária”, os gritos midiáticos de que somos intolerantes e não respeitamos seus direitos.
O Movimento GLBT quer ser intocável, pelo menos se mostra assim, mas, infelizmente temos de dizer que há gente infiltrada em suas legítimas organizações que não escondem o ódio à Igreja Católica, o desejo de difamá-la, por isso faz de tal atitude um ato de provocação e desrespeito à Igreja. Nós cremos que a misericórdia de Deus abraça a todos que recorrem a ela, mas cremos também que a misericórdia anda de mãos dadas com a Verdade sobre a Pessoa e sua vocação segundo o plano de Deus. É óbvio que os que compõem o Movimento GLBT são filhos de Deus, amados por Ele, são nossos irmãos e cidadãos de um país democrático com os mesmos direitos e deveres, mas esses direitos e deveres não podem ser unilaterais na proteção das opções e valores. Isto leva à intolerância. É lamentável que agora, pra defender meus direitos e opções, eu tenha que pegar o que é valor de caráter “sagrado” para o outro e banalizá-lo para que se tenha a ideia de que “somos poderosos” e estamos devidamente organizados e protegidos pela Lei. Isto é insensatez e talvez venha a ser um tiro pela culatra.
Quanto a nós, Igreja Católica, Povo de Deus, a ira não pode nos levar ao juízo das consciências, ao ódio, muito menos à violência. Que bom não tenha existido nenhum ato de violência aos que lá estavam. A melhor reação é o nosso testemunho de vida cristã que, além do respeito devido, não estamos dispensados de manifestar a nossa indignação dentro do princípio da caridade e da ética cristã, não nos deixando seduzir pela mesma provocação do GLBT que, inclusive nega tal intenção. Os dias conflituosos na defesa das opções só estão começando. O paradoxo é que o colorido do arco-íris venha a ser uma “sombria cor chamada intolerância”. Uma coisa é certa: a verdade nunca banaliza o verdadeiro bem que existe no outro.
Antonio Marcos

2011-06-21

Somos irmãos


O autor do livro do Gênesis – Leituras da Santa Missa desta XII Semana do Tempo Comum – nos apresenta a trajetória da vida do patriarca Abrão marcada pelo chamado divino, pelas renúncias, pela fé e pelos muitos desafios que vão tentando contrariar a retidão do seu coração e os propósitos de viver sempre na luz da verdade, temente a Deus e fiel à sua consciência de homem religioso, apesar de ser falho, limitado.
O sobrinho Ló também é detentor de muitos bens e tem ao seu serviço muitos pastores (cf. Gn 13,2.5-18). Acontece que os pastores de Abrão e de Ló estão se desentendendo por causa do número do rebanho e o pouco espaço. Provavelmente fosse decorrente da destruição de algumas pastagens por parte de um dos rebanhos. O fato é que o vínculo familiar, a fraternidade e amizade entre o tio e o sobrinho, respectivamente suas famílias, estavam sujeitas à discórdia e mesmo à violência. Para o homem de Deus que era Abrão tal situação era inadmissível, porém, não deixava de ser uma tentação. O ego sempre questiona: quem quer perder? Quem vai se humilhar? Quem vai dar vantagem ao outro? Quem está disposto a dizer: “a decisão é tua, escolhe a melhor parte”? Quando se trata de posses materiais até os homens de fé estão sujeitos à barbárie, vemos isso no mundo de hoje com forte ênfase. Famílias, parentes, irmãos, amigos tomam partes inimigas por causa de bens materiais. Nunca brigamos tanto pelo “ter”. “Se eu tenho, logo posso, logo sou!”, eis um dos mais cruéis “Cógitos modernos”.
Somente centenas de anos depois é que Jesus iria dizer: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele!” (Mt 7,13). Qual é, acima de tudo, essa porta estreita? Cremos ser a decisão pela caridade, pela consciência de que “preciso fazer aos outros tudo aquilo que desejo que façam comigo” (vers. 12), e aqui radicalmente e entranhadamente está a lei do amor, a lei da reta consciência, do desejo do bem ao próximo, “regra de ouro” para todos os homens, os que creem e os que não creem.  A esta consciência se somava fundamentalmente no coração de Abrão a fé no Deus de Israel. Assim diz ao sobrinho Ló: “Escolhe a terra onde queres habitar, pois não deve haver discórdia entre nós e entre nossos pastores, pois somos irmãos” (cf. Gn 13, 8-11).
Somos irmãos, não inimigos! Opressor e oprimido, amigo e inimigo, união e discórdia não é Deus que causa isto, mas as decisões egoístas dos homens, o nosso pecado, a nossa arrogância, “a nossa própria lei” que grita e nos escraviza a sempre querer ganhar. Muitos dizem: “Impossível viver isto! Esta filosofia bíblica é sem fundamento, porque na prática ninguém faz isso, ninguém quer perder, ninguém quer se passar por bobo, idiota, trapaceado! Todos nós queremos levar vantagem, rir por último!” E Abrão não queria? E Jesus não disse “afasta de mim este cálice”? Eles não pensavam egoisticamente, mas foram provados. Portanto, disse o patriarca: “somos irmãos! Dou-te a preferência!” E falou Jesus: “Ninguém me tira a vida, eu a dou livremente!” (Jo 10,18). O amor se antecipa e “choca” não por querer ganhar, mas, misteriosamente “por querer perder”. Ajuda-nos, Senhor, concedendo-nos a graça para vivermos a maior descoberta da fraternidade: Somos irmãos!
Antonio Marcos

2011-06-18

Deus se oculta naqueles que precisam de nós


E nossa vida cotidiana, às vezes sombria, às vezes trágica ou muito complicada, em que devemos cuidar de mil coisas que nos pressionam de toda parte, a luz de Deus é amor. Devemos voltar-nos para esta luz se não nos quisermos desviar do verdadeiro fim de nossa existência. Gostaríamos de poder dizer: “Aqui está Deus; Deus é assim...”. Mas não é possível. O próprio Deus sai dos quadros e das imagens e se oculta naqueles que precisam de nós, e diz: “Aqui estou!” Esconde-se nos pequeninos da terra e diz: “Buscai-me aqui!” Quem quer viver com Deus não se encontra diante de uma conclusão, mas sempre diante de um início, novo como cada novo dia.
Fonte: Missal Dominical. Comentários introdutórios à Solenidade da Santíssima Trindade. 

O homem só pode ser compreendido a partir de Deus


A salvação, como comunhão de amor entre Deus e o homem, reflete as características dos dois interlocutores que a constituem: Deus e o homem. Ora, o homem só pode ser compreendido a partir de Deus: feito à imagem de Deus, é plasmado conforme o Cristo, que é a imagem perfeita de Deus (Cl 1,15). Portanto, as perguntas e respostas sobre Deus são de uma importância fundamental para compreender o homem.
Concretamente, a vida humana, de um ponto de vista religioso, desenvolve-se e expande-se proporcionalmente ao “conhecimento” do mistério de Deus (Jo 17,3). Se o homem é destinado à comunhão com Deus Pai, é claro que sua vida tem tanto mais valor quanto mais ele consegue seguir o movimento de “subida aos céus” inaugurado pela ascensão de Jesus (Jo 12,32), até sentar-se à direita do Pai para vê-lo face a face. Escreveu um sacerdote teólogo que “todo aprofundamento da ideia de Deus equivale a um novo nascimento”.
O mistério do amor Trinitário revela algo do mistério mais profundo do homem; por sermos como somos, criaturas capazes de conhecer, amar, gerar, só podemos exprimir-nos em termos humanos, mas chegamos com mais profunda admiração ao último porquê: como pôde ter nascido a ideia de “conhecer”, “amar”, “gerar”? Não nasceu. Ela é. Porque Deus é amor. O mistério de Deus não é um mistério de solidão, mas de convivência, criatividade, conhecimento, amor, de dar e receber; e por isso, somos como somos.
Fonte: Missal Dominical. Comentários introdutórios à Solenidade da Santíssima Trindade. 

A oração deve dilatar o homem ao horizonte de Deus


A Comunidade Trinitária é verdadeiramente mistério, realidade que supera absolutamente toda compreensão humana. Deus jamais deixará de causar a admiração do homem, nunca homem algum penetrará na terra de Deus se não estiver disposto a se desarraigar, com Abraão (Gn 12,1), das fronteiras de suas limitações e da estreiteza de suas seguranças. A oração não deve reduzir Deus aos limites do homem; mas deve dilatar o homem aos horizontes de Deus. O silêncio, que o Pai parece opor em muitos casos aos pedidos humanos, nasce da autenticidade da sua paternidade, de sua firmeza em não condescender com a mesquinhez dos planos humanos, para poder substituí-los por planos bem maiores, nascidos do seu amor.
A Comunidade Trinitária é o verdadeiro futuro do homem, só ela pode assegurar ao homem um plano de vida sem limites, porque capaz de superar até a morte. Diz eficazmente santo Agostinho: “Deus é tão inexaurível que quando encontrado ainda falta tudo para encontrá-lo”. Isso significa que o dinamismo e a criatividade humana encontram nele um horizonte sem limites; portanto, um futuro total.
Fonte: Missal Dominical. Comentários introdutórios à Solenidade da Santíssima Trindade.

Adorar em nós a Santíssima Trindade


Testemunha Frei Patrício Sciadini:
A minha experiência do amor trinitário aconteceu quando encontrei um livro pequeno chamado “retiro com a Beata Elisabeth da Trindade”. Nem sabia bem quem ela era, mas sabia que era carmelita. Ao ler, encontrei a famosa elevação à Santíssima Trindade. Li e reli e foi como se “escamas dos meus olhos caíssem por terra”. O que todos os livros do tratado da Trindade tentaram me fazer compreender, Elizabeth, num piscar de olhos, abriu-me as portas do coração da Trindade Santa. Espero que a mesma coisa possa acontecer também para você.
“Ó meu Deus, trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente de mim mesmo para fixar-me em vós, imóvel e pacífica, como se minha alma estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar-me a paz nem me fazer sair de vós, ó meu imutável, mas que a cada minuto eu me adentre mais na profundidade de vosso mistério. Pacificai minha alma, fazei dela vosso céu, vossa morada preferida e o lugar do vosso repouso. Que eu jamais vos deixe só, mas que aí esteja toda inteira, totalmente desperta em minha fé, toda em adoração, entregue inteiramente em vossa ação criadora.
Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quisera ser uma esposa para vosso coração, quisera cobrir-vos de glória, amar-vos... até morrer de amor! Sinto, porém, minha impotência e peço-vos ‘revestir-me de vós mesmo’, identificar a minha alma com todos os movimentos da vossa, substituir-vos a mim, para que a minha vida seja uma verdadeira irradiação da vossa. Vinde a mim como Adorador, como reparador e como Salvador.
Ó Verbo Eterno, Palavra de meu Deus, quero passar minha vida a escutar-vos, quero ser de uma docilidade absoluta, para tudo aprender de vós. Depois, através de todas as noites, todos os vazios, todas as impotências, quero ter sempre meus olhos fixos em vós e ficar sob a vossa grande luz. Ó meu astro amado, fascinai-me a fim de que não me seja mais possível sair de vossa irradiação.
Ó fogo devorador, Espírito de amor, ‘vinde a mim’ para que se opere em minha alma como que uma encarnação do verbo: que eu seja para ele uma humanidade de acréscimo na qual ele renove todo o seu mistério. E vós, ó Pai, inclinai-vos sobre vossa pequena e pobre criatura, ‘cobri-a com vossa sombra’, vendo nela só Bem-Amado no qual puseste toda a vossa complacência.
Ó meus ‘três’, meu tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade onde me perco, entrego-me a vós qual uma presa. Sepultai-vos em mim para que eu me sepulte em vós, enquanto espero ir contemplando em vossa luz o abismo de vossas grandezas.”
Fonte: Frei Patrício Sciadini, ocd. Comentários Pão da Vida, “Santíssima Trindade”, Edições Shalom. 

A Trindade de Deus não rompe a unidade


Não é difícil encontrar pessoas que escutam falar da Santíssima Trindade e reconhecem que não se pode ser feliz sem sentir a presença de Deus Pai. Temos necessidade de conhecer o rosto do Pai, que resplandece no rosto humano de Jesus, Filho único feito carne e que é enviado para morar entre nós. Aliás, a vida de Jesus encanta qualquer pessoa, e se esta é sincera, deve reconhecer que não apareceu ninguém sobre a terra tão amável como Jesus, que passou por nós fazendo o bem desde o início do seu apostolado até a sua ascensão ao céu.
Todos nós sabemos que é preciso estar na silenciosa escuta da voz do Espírito Santo, que, como vento divino, sopra onde quer e como quer. Sentimos a sua brisa, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Se nós conseguimos compreender que a Trindade de Deus não rompe a unidade, mas a manifesta plenamente e que as divinas três pessoas agem em comunhão e nos fortalecem com sua presença, aí, sim, as coisas mudarão.
Fonte: Frei Patrício Sciadini, ocd. Comentários Pão da Vida, “Santíssima Trindade”, Edições Shalom. 

2011-06-14

Matemáticos e evangelizadores


Aprendi que a teologia, muito mais que a filosofia, faz a pergunta pelo homem, pelo sentido de sua existência, pela sua origem e seu destino, pela verdade sobre si mesmo e sobre o Seu Criador. Aprendi que na teologia a pergunta pelo homem não pode ser formulada autenticamente se não parte do princípio fundamental de que o homem foi querido por Deus, foi amado, por isso perdoado e salvo no mistério de Jesus Cristo. E quando nos perguntam “onde está a salvação?”, não podemos contabilizar a resposta, não temos como mostrar cálculos e somas. Isto nos parece limitação diante das interrogações do mundo, porém, felizmente, não o é. Aprendi na teologia que a resposta do homem em relação à salvação é a conversão, e o processo de conversão inclui também os erros, as negações e as quedas. Uma vida que se depara com a verdade de suas feridas e incoerências e se deixa nascer de novo a partir deste encontro - que não se faz sem dor e sofrimento -, é a resposta mais evidente e convincente de que a salvação de Jesus é uma realidade visível.

Acontece que quando um cristão entra no espaço de turbulência, numa noite escura como diria São João da Cruz, na noite de Pedro e de Judas como diria a teologia Patrística, ou ainda na “via purgativa” como diria a espiritualidade moderna, quase sempre a humilhação é mais dolorosa do que os esforços tamanhos que fazemos para manter a caricatura de convertidos. Não é fácil “retroceder”; não é fácil lhe dar com os olhares e julgamentos que não aceitam a própria condição de pecadores, muito menos a dos outros. E batem no peito: “Não sou como este publicano, Senhor!”. Sim, não é fácil quando encontramos alguns amigos e amigas que nos dizem com meias palavras que já não vão à Santa Missa, que estão distantes, frios, sozinhos, desiludidos, decepcionados, perdidos, ou talvez, encantados com outras realidades que lhes chegaram com mais força de sedução e com promessas de satisfação mais imediata. Alguns dizem que, apesar disso, estão felizes porque não perderam a Deus. Mas, e se O perderam como isto ressoa dentro de mim? Eis a questão. Primeiro porque é perigoso demais dizer que “uma pessoa perdeu a Deus”; segundo, porque geralmente somos “teólogos”, “sábios”, “inteligentes nas questões religiosas”, mas são poucos os que sabem lhe dar com as perdas e insatisfações dos outros, com suas revoltas e desânimos. É que somos mais matemáticos do que evangelizadores, infelizmente!

Concluímos assim voltando ao princípio fundamental de que o homem foi querido e amado por Deus, por isso salvo no mistério de Cristo. Acolher e amar são as indispensáveis condições se queremos ver a salvação nos outros, e em nós também! Acolher e amar nos arranca desta matemática irracional de nos julgarmos os “convertidos” e os outros “perdidos”. A verdade sobre o homem e sobre o seu Criador deve sim, ser dita, mas quando a acolhida e a caridade não precedem, acabamos nos tornando juízes das consciências de quem precisa não de condenação, mas de salvação. O pecador, ainda que ignore, tem necessidade de conversão, porém, muitas vezes a sua primeira necessidade é que lhe digam que suas feridas e quedas não são o fim necessariamente, mas podem misteriosamente favorecer o encontro com a Verdade, que é uma Pessoa, que tem um nome e um rosto, Jesus Cristo. Ele nos acolheu e nos amou até o extremo, não contabilizando o nosso passado, mas multiplicando as possibilidades de uma vida nova mediante a Sua misericórdia.

Antonio Marcos    

2011-06-11

Ser feliz no amor partilhado ao lado e dentro de alguém


Em nossos dias mais e mais pessoas estão “sozinhas” e nem sempre se dão conta do que estar por trás do que chamam de “complicações afetivas”. Evidentemente hoje são diversos os fatores que proporcionam a dificuldade para que uma pessoa ache o seu par, conheçer uma pessoa legal e que manifeste reciprocamente interesse, seja demonstrável certa identificação e, principalmente, seja livre para viver uma relação afetiva capaz de projetar compromisso, visibilidade familiar e social. Fala-se hoje até mesmo em um estado civil permanente chamado “solteirismo”. Alguns nele se encontram amargurados porque não realizaram ainda o grande desejo da complementaridade no amor e na felicidade para com uma pessoa do sexo oposto, principalmente pelo tempo em que estão sozinhas e, talvez, até pela idade; já outros parecem mais acomodados, acostumados com suas vidas “sem alguém”, talvez por acreditarem não conseguir conquistar uma outra pessoa, não se sentirem bonitos, maduros ou seguros financeiramente para um compromisso, ou ainda porque foram feridos na confiança e nos seus melhores sentimentos dedicados a alguém, porém,  não valorizados, não respeitados e cultivados. O fato é que, mesmo levando em conta nossas neuroses e feridas pessoais e sociais, todos nós queremos ser felizes ao lado de alguém. Todos aqueles que nasceram com a vocação para o matrimônio aspiram encontrar uma pessoa a quem possam amar e ser amado, escolher e ser escolhido, construir com o outro aquela comunhão de amor que vocaciona para além dos limites humanos, para as impossibilidades até. Pois bem, não deveríamos desacreditar da nossa felicidade no amor por causa dos acidentes ou dos nossos limites. Deixar de esperar uma nova oportunidade ou não estar atento para ela vai contra as novidades de Deus, suas surpresas, seu desígnio de felicidade para nós, ainda que tenhamos já vivido fissuras no corpo, na alma e nos sentimentos. O direito de “ficar sozinho” não significa infelicidade ou tornar uma pessoa menos alguém. Porém, ficar sozinho por medo e desesperança de arriscar no amor, já é infelicidade. Cremos que Deus é o autor dos encontros felizes e autênticos, o primeiro a querer a nossa felicidade, por isso é que o amor partilhado ao lado e dentro de alguém será sempre um movimento que emana e remete ao amor de Deus apaixonado pelo homem e que por isso não desiste nunca de conduzi-lo à felicidade.

Antonio Marcos

2011-06-08

Os escombros da vida e a felicidade

Nós, os cristãos católicos, não cremos em "destinos", mas na providência de Deus. As coisas da nossa vida que caem em profunda contrariedade não significam que o "fio condutor" tenha se rompido. Não é fácil a frustração, especialmente quando não conseguíamos ver impossibilidades e quando era tão provável que daria certo, afinal, as pessoas de bem são as que mais apostam na felicidade. No entanto, o inesperado pode cortar e marcar dolorosamente o nosso caminho e "nossos planos", mas a vontade de Deus, esta não vai ser alterada com tais contingências e fracassos. Viver a dor e as perdas com dignidade e continuar seguindo os passos daquilo que temos escutado de Deus é uma questão vital e de fé. Bem sabemos que a parte mais importante da vivência da fé e da virtude da fortaleza humana não se concentra quando tudo simplesmente dá certo, mas, exatamente quando há contrariedades. Elas são oportunidades que proporcionam que as pessoas que sonham sejam purificadas nas motivações e intenções. As dores do desencontro podem servir para a autenticação do amor em nós. Temos de rir um pouco de nós mesmos e contrariar a lógica desta vida que quer nos convencer que tudo tem sempre que dar certo, e não é bem assim! Mas, o que é dar certo? Esta é uma respota tão íntima como nossa consciência. Dar certo envolve uma lógica que está para além do que apalpamos. É um processo dinâmico, mas também é mistério que foge dos julgamentos e conclusões humanas. Lembremos-nos: as pessoas de fora veem os "escombros", e na verdade lá embaixo pode existir alguém que ainda respira e acredita com todas as suas forças que vai sobreviver, vai renascer e ser feliz.

Antonio Marcos

Deus vê além...

A inspiração de um sonho não se desfaz com os "não" que recebemos, os desafios iniciais e tudo aquilo que se opõe. Bem sabemos que é um mistério, pois quase sempre nos foge a compreensão, principalmente porque a dor e a decepção com algo ou alguém nos deixa muito vulnerável. No entanto, é preciso se ver isto não como o fim, mas como a possibilidade de se refazer, repensar, rezar, escutar o que está por trás do que não deu certo. Deus inspira os bons propósitos e os sonhos em nós, desde que seja esta a Sua vontade para as nossas vidas. No entanto, às vezes um sonho de Deus não está dentro da nossa "limitada espera", ou seja, não está neste imediatismo que queremos. Tudo tem um propósito. O que sei é que Deus não é incoerente, não brinca conosco, não nos machuca, não volta atrás no seu plano providencial em nos dar somente aquilo que vai ser o melhor para nós e não no nosso tempo, mas no Dele. Temos de nos refazer com dignidade quando as coisas se desencontram. Não podemos perder a fé e a esperança. Muitas vezes o nosso olhar é muito míope acerca daquilo que vemos e queremos, mas Deus vê além.

Antonio Marcos

2011-06-06

A bela experiência do namoro

Dizia maravilhosamente João Paulo II aos Jovens: “Não tenham medo do amor humano. Não tenham medo de deixar o Evangelho de Jesus Cristo ser a medida dos vossos relacionamentos. O namoro é uma bela experiência de autoconhecimento e crescimento mútuo. Sua expressão remete àquele amor apaixonado de Deus pelo homem. Façam do namoro uma oportunidade especial para exercitarem e cultivarem o altruísmo, o cuidado pelo outro, o respeito, a fidelidade e o desejo de que os passos amadureçam e cheguem a um amor definitivo, provado, amadurecido e firmado na vontade de Deus para as vossas vidas”. Certamente ficamos maravilhados ao ler estas palavras de incentivo e esperança que tinha o papa beato pelo amor humano, pelas relações sadias e santas entre os jovens. É bonito contemplar a essência do namoro, escutar a Igreja falar do “exercício do altruísmo já dentro namoro”, ou seja, aprender a se ofertar, a acolher e dar a vida pelo outro. O namoro não é, como muitos pensam, o tempo de “brincar de ter alguém”, mas o tempo de amar alguém que Deus nos confiou para vivermos a dois aquele amor que nos prepara ao “para sempre”, por isso a medida do Evangelho é a melhor garantia de que o relacionamento está sendo construído sobre a rocha. Rezemos ao beato João Paulo II que interceda por todos os casais de namorados!

Antonio Marcos

2011-06-03

É preciso redescobrir a humanidade de Maria


Responde Padre Cecchin, Secretário da Academia Pontifícia "Mariana Internationalis"
Como é que Maria pode ser um exemplo de virtude para o nosso tempo? Muitas mulheres dizem que Maria está longe demais da realidade terrena.
Padre Cecchin: A devoção do passado revestia Maria com mantos preciosíssimos, coroas... esquecia pouco a pouco a humanidade dela. A reviravolta antropológica do Concílio Vaticano II nos fez redescobrir “a mulher de Nazaré” na sua plena humanidade. Encontramos nela, ao lado de Jesus, uma mulher plenamente realizada, mas só depois de ter aceitado a vontade de Deus, que se revelava a ela no seu constante caminho de fé, que a torna verdadeira discípula de Cristo. Em Maria nós achamos todas as expressões da humanidade que acolhe um filho, que a enche de responsabilidade, que o faz crescer, que o educa... Ela fica viúva, vê o filho sair de casa, ser amado mas incompreendido até chegar à cruz. O que pode ser mais terrível para uma mãe do que ver um filho inocente morrendo assim? Redescobrir a humanidade de Maria, a missão de educadora do homem Jesus, com todas as suas características psicológicas, nos faz confiar nela não só como uma amiga que entende a nossa situação humana, mas também como um modelo que nos mostra que é possível viver o evangelho em plenitude.
Fonte: Agências de Notícias ZENIT. org – Publicado em 03 de junho de 2011.

Maria conteve em si mesma Aquele que nem os céus podem conter


Responde Padre Cecchin, Secretário da Academia Pontifícia "Mariana Internationalis"
Apesar da natureza humana de Maria, os cristãos a colocam numa dimensão que vai além da santidade. Ela é invocada como a intercessora mais influente junto a Jesus. Por quê?
A santidade está ligada à proximidade com Deus. E quem está mais perto de Deus do que ela? Ela carregou no ventre, durante nove meses, Aquele que vivia no seio do Pai (Jo 1,18)! Ou, como dizem os Padres da Igreja, “ela conteve em si mesma Aquele que nem os céus podem conter”. Então a santidade de Maria é considerada a maior, porque é a mais próxima de Deus, a mais íntima, porque “a carne de Cristo é a carne de Maria” (Santo Agostinho). Jesus e Maria viveram unidos não só no sangue, mas também nos sentimentos, na fé, na vida, na morte. Ela foi assunta na glória com o Filho e ao lado dele. Quem pode apresentar as nossas necessidades a Jesus melhor do que ela? O amor que temos pela mãe de Jesus nos infunde a confiança de que ela não pode deixar de ouvir as nossas orações, e que, estando ao lado de Jesus, a nossa prece será ouvida por ele com certeza.
Fonte: Agências de Notícias ZENIT. org – Publicado em 03 de junho de 2011.