Quando os parceiros eletrônicos disfarçam a solidão

Escrito Por Antonio Marcos na quarta-feira, maio 11, 2011 1 comment

Conheço pessoas que amam suas máquinas. São capazes de dedicar tardes inteiras ao banho ritualístico do carro, tratam com diminutivos o computador e fazem mãos de seda para tocar no aparelho de som. É curioso, esse entendimento entre um ser vivo e um conjunto de engrenagens, mas – ainda que isso vire mote de filmes doces como Inteligência artificial – não me parece coisa natural. Justamente por não ser algo da natureza, uma máquina não me traz grande emoção.

Lógico que elas estão cada vez mais sofisticadas, e o mercado sabe estimular a súbita necessidade ou dependência que as máquinas impõem. Há modas e tendências ferozes em torno disso. Fala-se em revolução de comportamento, lavagem cerebral ou simples anseio de imitação: pouco importa a perspectiva de análise, o fato é que cada vez mais consumidores caem, fascinados pela potência da tecnologia.
Existem mesmo os que usam a aparência de suas máquinas como slogans temperamentais. Isso é típico no uso de carros, quando a escolha do modelo parece servir como anúncio do estilo do motorista – embora muitas vezes tal estilo fique só na intenção, sem corresponder à verdade. Os psicólogos saberão analisar o mecanismo compensatório que faz com que certos homens adquiram veículos gigantescos, blindados, capazes de fazer rali na Lua. Geralmente, esses carros alcançam velocidade suicida – assim como algumas motos, que esvoaçam no trânsito, faiscando em ziguezague. Não é bonito de se ver, mas há gosto para tudo... Já escutei marmanjos suspirando, ao conversar sobre as características de automóveis: falam do painel, do motor, dos assentos, como se enumerassem encantos de um corpo desejável.
Hoje em dia há quem saia com a única companhia de seu celular. O aparelho disfarça qualquer solidão: com ele, conversa-se, fotografa-se, joga-se, escreve-se... tudo em meio a jantares, sessões de cinema ou reuniões de trabalho. Chego a me sentir apiedada de gente assim, com seus parceiros eletrônicos tão parcos de sensibilidade, tão vazios de cheiro, carne e afeto real. O próprio sentimento que parece voltado à máquina nunca é estável; aquela euforia do início, com um apego exagerado aos benefícios e belezas da nova aquisição, logo desaparece. O mercado lança um exemplar diferente, ou um instrumento completamente inédito, e em pouco tempo o aparelho anterior torna-se antigo, obsoleto.
A efemeridade no relacionamento com as máquinas cria uma noção de amor volátil. Elas sempre serão substituíveis e rotativas; por mais que despertem interesses infinitos, não sabem inspirar mistérios. Podem se tornar simulacros humanos com eficiência invejável – mas mantêm um jeito asséptico, uma neutra monotonia. E, por mais que criem presença através de ruídos, luzes ou fisionomia, nunca terão a temperatura ou o fôlego de um ser vivo. Essa diferença, para mim, é decisiva.
Que o mundo se virtualize até o extremo; eu continuarei preferindo a existência de árvores, bichos e gente.
Fonte: Tércia Montenegro - Escritora, fotógrafa e professora da UFC - Publicado no Jornal O Povo (Opinião), 11 de maio de 2011 (o grifo é meu).